quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Breve curso de administração com o Diabo


              Fausto sabia com quem negociar, mas não sabia o que queria...


Costumo dizer que as duas grandes invenções (talvez não sejam invenções, no fim das contas) do cristianismo foram a culpa e o diabo. Sem esses dois elementos, toda a coisa de amar ao próximo ou de salvação não serviria pra nada. Óbvio, não cheguei a essa conclusão sozinho. Nietzche,Rimbaud, Neil Gaiman, tem tudo a ver com isso. A culpa principalmente pela potencial expiação da culpa, que livra qualquer de um grande peso sem ter efetivamente feito coisa alguma. Já o diabo se relaciona com o mal. Transformar o mal em uma entidade externa com poderes de influência, e não como um atributo parte da extrema complexidade que é uma alma, foi tão essencial quanto a culpa para controlar o mesmo conjunto de instintos pra lá de indesejáveis. O cristianismo pré-reforma fazia muito isso, os protestantes deram um tempo, a inquisição pisou fundo na estória e hoje ela tem nas neo pentecostais um representante a altura da tradição demonológica medieval. Claro que estes últimos carecem demais de refinamento filosófico para criar um sistema de demônios e círculos infernais tão exuberantes quanto aquele descrito nos compêndios que hoje estão guardados nas bibliotecas empoeiradas do vaticano. A fascinação do mito (Lúcifer, o anjo caído) é fácil de compreender. Mais complicado é entender o mecanismo através do qual as pessoas atribuem a Ele atos que são tão humanos. Atribuem a ele a culpa por fazer pactos como se eles estivessem em busca de almas novas para governar. Como se o Primeiro Caído estivesse sempre por trás dos ouvidos de quem comete um crime. Como se a proibição (vinda de muito alto, do Altissímo) não inspirasse a transgressão. Quando não podem, ou não querem, se sentir culpados, eles evocam o Diabo. Que sequer toma conhecimento. Eles, os cristãos, estão dispostos a reconhecerem que são falhos, pecadores. E pra isso existe a culpa (e sua irmã gêmea, a redenção). Mas não estão dispostos a reconhecer sua maldade, sua fascinação pelo mal. Daí, imaginam um ser abominável (vermelho? Com rabo e chifre? Fedendo a enxofre?) impulsionando-os para o abismo. Será que ele sopra mesmo em nossos ouvidos? Sou mais inclinado a acreditar que o Diabo se trata de o administrador bem competente do infindável catálogo de maldades, perversões e vilezas de que é capaz o espírito humano. O gerente de nosso impulso de morte e destruição e todos os instintos que contrapõe a razão e o bom. Pois, de uma forma ou de outra, esses instintos foram tachados de “maus”. Mesmo os mais belos, como o sexo ou a imaginação, só são permitidos pela moral cristão quando racionalizados. Sem Ele, Aquele-Que-Tem-Mil-Nomes,não existiria o que chamamos de livre-arbítrio, algo que só o inferno pode conceder. Considere que um pacto com o Diabo é um modo mais rápido e eficiente de se atingir objetivos mais imediatos, como o prazer. Uma espécie de crédito rápido, sem toda a burocracia de orações e boas ações do céu, por um preço muito baixo. Nem sua alma, nem castigos eternos. Só a perda de sua paz. Aqui, e agora.

domingo, 14 de agosto de 2011

Do lado de cá

Chegaram notícias de um local distante, e tudo que chegou é para dizer que lá os velhos continuam morrendo e os novos continuam tendo filhos, tudo isso já acontecia muito antes de eu sair de lá, e eu acredito que ainda vá durar por muito tempo; mas, não havia nada melhor pra contar? Impressiona o jeito como eles contam isso, sem um traço de rancor, aborrecimento ou tédio, longe disso, são revelações, sopros de esperança, o nome que quisermos dar a este sentimento que tem algo de nobre, algo de ridículo, ou talvez aja mesmo algo de nobre em tudo que é ridículo e baixo, vai saber. Mas o fato é que as notícias continuam chegando, um tsunami de antigas novidades alimentando as mesmas enchentes, honestamente, deveria estar cansado de escutar, mas não consigo deixar de ficar atento ao que há de assombroso em todas estas estórias, quase tão fantásticas quanto aquele casarão assombrado no qual costumava me refugiar quando criança e que hoje está ocupado por homens sérios de negócios, não eu escuto estas estórias como quem ouve conselhos dos mais velhos, serenamente, curioso, sem que eles percebam que aqueles conselhos não são pra mim - não agora - vocês estão enganados, eu não preciso ouvir isso, meu caminho já foi traçado há muito tempo, não sei bem quando, sei menos ainda o porquê, sei que súplicas por misericórdia ou tentativas de redenção já não funcionam mais - estou naquele ponto da estrada em que, quando a tempestade começa, a única coisa que você pode esperar que se aproxime de um milagre, é uma carona - a garrafa de Whisky é por sua conta. Não que isso seja ruim, veja bem...

"Who's prepared to pay the price/for a trip in paradise?"

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Jamais

"(...) e não esqueça as canções que te fizeram sorrir
e as canções que te fizeram chorar;
(...) e as canções que salvaram a sua vida".

- The Smiths - "Rubber Ring"

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Arriscado


A isca,
Arisca,
disca, disca
E não acha ninguém em casa, e daí
Risca, de sua lista, o meu número.
Não sou bom em brincar com palavras.
Mas sempre tive talento, em jogar
E decepcionar quem se arrisca
Comigo.

Love or Leave Me





segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A ética breve dos afogados

Aliados até a morte.
Cúmplices de um crime muito bem executado.
Comunicamo-nos mesmo em silêncio,
Enquanto assistimos nossas almas torturarem-se
Com as fantasias escondidas de olhos vulgares
Ou desnudas sob o véu embriagador da noite;

Somos jogadores colecionando derrotas.
Sorrindo ante a inevitabilidade do fim.
Tristes apenas com o teor amargo das revelações
Que chegam, dia após dia, sob o efeito do álcool,
Das músicas e do amor e das decepções, todos tão presentes em nossas vidas.
Nossas vidas, de cujas ilusões a livramos
Apenas por esporte sadomasoquista de libertação.

Somos parceiros.
Trapezistas que se jogam sem confiar realmente
Que seremos seguros um pelo outro
No instante definitivo, derradeiro.
Mas certos de que nos afogaremos juntos
Quando descobrirmos que um de nós não sabe nadar,
Mas ainda assim entramos na água juntos
Porque em caso de desespero, é em seu pescoço que me agarro
E neste último momento, molhado, triste e profundo,
Poderemos até, quem sabe, nos beijar.

Aliados até a morte.
Nesse jogo de soma zero,
Nesta manhã zombeteira,
Nesta sala que esvaziada de móveis
Mantendo somente aquilo que nos interessa – (...)
Aliados até a morte, ou ao menos até o fim do verão.
O que vier primeiro.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

sábado, 23 de julho de 2011

I Know that you were no good


Ela morreu, neste dia 23. E os fanáticos estão fazendo o papel deles. Como se um monte deles não estivesse morrendo de câncer ou atropelados. Eu não mudo uma linha do que disse sobre ela, porque Amy fez muito mais do que a maioria por aí pode dizer que fez, e isso é o que realmente importa. é tudo muito triste a seu respeito, mas eu não vou declinar. Obrigado, garota.

Texto de 2009:



AMY E BILLIE

Tem uma garota que eu adoro que canta. Muito. Canta como se estivesse presa e quisesse fugir. Canta como se vivesse num outro mundo, e ela está. Como se estivesse chapada, como se soubesse que é linda e como se dissesse “que se foda”. E no final é isso que ela quer dizer. Amy, porquê você está nos jornais? O que você está fazendo aí? Seu lugar é no bar mais louco de Nova Orleans, Kerouac, Ginsberg, Cassady e orgias loucas estão te esperando. Quando você canta, ilumina com luz lilás os lugares mais sombrios das almas tempestuosas. Você me lembra... ela, que injetava amor, solidão, confusão e tristeza quando cantava. Billie. Billie, que apertava com força um garrote em torno de nossos corações e prendia-nos o sangue, antes de drogar-nos com sensualidade e melancolia, transformando seu microfone numa seringa que derrama lágrimas e versos. Ela era linda, como só os anjos que já caminharam pelo inferno podem ser. Ora, quem já caminhou pelo lado selvagem como gatos de rua, por essas vielas escuras cheias de dor, de maravilhas, de carícias e de terror; soltou aquele uivo de derrota e de satisfação, conseguiria cantar com tanta sinceridade e beleza. Amy, você é como Billie. Amy, eles querem que você pare, eu não. Amy, são eles os egoístas, não eu e você. Ou somos nós os egoístas, não eles, os samaritanos e fariseus. Deixe-os lavarem as mãos, continue vivendo, de corpo e alma. Body and soul. Que ironia, uma música da Billie. Uma noite eu sonhei que você cantava outra dela, St. Louis Blues, só para mim, e era incrível. Love of mine, someday you will die. Meu amor, um dia você vai morrer, é normal. Você já deixou marcas em muitos de nós. Os insatisfeitos, os insaciáveis, os solitários. Pra que se importar com eles? Eles já sabiam. Eles te conheceram assim. Esqueça tudo. Cante mais uma vez: You know that i’m no good... Eu sei que você não é nada boa. Nada correta. E eu sempre gostei assim mesmo, sempre quis o que me faz sofrer no final, e a história corre assim mesmo. Só peço que, antes de partir, cante mais uma vez o blues de St. Louis, porque Billie não pôde fazer isso por mim e eu sou melancólico até hoje por isso. Há uma luz que nunca se apaga.

domingo, 17 de julho de 2011

escrita

"Só se escreve porque é vital e escrever envolve insegurança, sofrimento, angústia e nenhuma espécie de paraíso. Escrever significa “mexer com quem tá quieto”, tá ligado? Ou seja, despertar memórias adormecidas, sofrer repetidamente o mesmo cruel acontecimento. E quem é que gosta disso a não ser esses sujeitos esquisitos e solitários trancados com suas máquinas de escrever nas noites de sábado?"

- Mário Bortolotto

sábado, 16 de julho de 2011

Back to the Beat

"Assim, na América, quando o sol se põe e eu sento no velho e arruinado cais no rio olhando os longos, longos céus acima de Nova Jersey, e posso sentir toda aquela terra rude se derramando numa única, inacreditável e elevada vastidão até a Costa Oeste, e toda aquela estrada seguindo em frente, todas as pessoas sonhando nessa imensidão, e em Iowa eu sei que agora as crianças devem estar chorando na terra onde deixam as crianças chorar, e essa noite as estrelas vão aparecer, e você não sabia que Deus é a Ursa Maior? E a estrela do entardecer deve estar morrendo e irradiando sua pálida cintilância sobre a pradaria antes da chegada da noite completa que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos e oculta a última praia e ninguém,  ninguém sabe o que vai acontecer a qualquer pessoa, além dos desamparados andrajos da velhice, eu penso em Dean Moriarty; penso até no velho Dean Moriarty, o pai que jamais encontramos; eu penso em Dean Moriarty."

Jack Kerouac, versos finais de "On the Road".

quinta-feira, 14 de julho de 2011

conselho

"Vão dormir, criancinhas. O Sandman está a caminho...."

 - Nick Cave and The Bad |Seeds, "Tupelo".

quinta-feira, 7 de julho de 2011

estilo



"o estilo é a resposta para tudo.
o modo fresco de encarar um dia chato ou perigoso.
fazer uma coisa chata com estilo é preferível a fazer uma
coisa perigosa sem estilo.
fazer uma coisa perigosa com estilo é o que chamo arte.
as touradas podem ser uma arte.
o boxe pode ser uma arte.
o amor pode ser uma arte.
abrir uma conserva de sardinhas pode ser uma arte.
não há muitos com estilo.
não há muitos que possam manter o estilo.
já vi cães com mais estilo que homens.
todavia poucos cães têm estilo.
os gatos têm-no em abundância.

quando hemingway pôs os seus miolos numa parede 
com uma shotgun, isso foi estilo.
às vezes as pessoas dão-te estilo.
joana d´arc tinha estilo.
joão baptista tinha estilo.
jesus.
sócrates.
césar.
garcía lorca.
conheci homens na prisão com estilo.
conheci mais homens na prisão com estilo do que fora dela.
o estilo é a diferença, um modo de o fazer, um modo de ser feito.
seis pássaros em silêncio numa poça de água, ou tu,
saindo da casa-de-banho sem me veres"








- Bukowski

terça-feira, 5 de julho de 2011

Ensaio

Um silêncio do tamanho desse desespero que não tem nome, ambos tão imensos quanto a lua. Num inferno que eu mesmo criei, fiquei até as quatro da manhã desperto, pensando no que poderia ter dado errado. Nada.  Imaginando em que curva errei o caminho, tomei a direção mais perigosa. Exercício inútil, já repetido tantas e tantas noites. Por que sempre deste jeito, não sei. Mas não vou esperar até estar tudo irremediavelmente perdido para descobrir que era mais fácil do que parecia. Apenas mais fácil do que parece, porque fácil mesmo nunca é. Agora é encarar com a graça de um adulto, não a fragilidade de uma criança. Sempre teve a ver com insistir na decisão que foi tomada, e a despeito de tudo, se acostumar com alguns ossos que inevitavelmente serão quebrados pelo caminho, saber conviver com essa dor e não deixá-la te deixar cego para todo o resto, pois a dor é capaz de fazer este tipo de coisa. Basta levarmos um soco no estômago para instintivamente abaixarmos a cabeça e fecharmos os olhos, mecanismos de defesa que estão além de nosso controle; mas o bom boxeador sabe que é nessa hora que a guarda não deve ser baixa, deve-se sim lutar contra o primeiro instinto e manter-se firme, direcionar o olhar e lembrar contra o que está lutando, e se possível pelo que está lutando, porque o próximo golpe vem mais depressa do que se espera e não há tempo para se recuperar. Claro que sempre temos o sinal para um merecido descanso antes do próximo assalto, mas ele nem sempre virá quando precisamos, quase nunca vem. Então ficamos de pé, em nossos pés de bailarinos e nossa fé de anjos deserdados por Deus, que só podem contar com a própria sorte e com outros desavisados que aparecem pelo caminho. Assim sou eu. Desavisado e deserdado, a um só tempo. Tempo que insiste em passar, vida que insiste em doer. 

Noturno

Meu pensamento em febre
é uma lâmpada acesa
a incendiar a noite.

 
Meus desejos irrequietos,
à hora em que não há socorro,

 
dançam livres como libélulasem redor do fogo.



- Henriqueta Lisboa
Today,
my mind is an open door...
with nothing inside.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Um Sonho

O lugar tinha a fachada de um tom azul-marinho, com alguns pequenos detalhes em branco e vermelho, e um nome escrito sobre a porta que eu não conseguia ler. Também não conseguia reconhecer a musica que vinha lá de dentro, mas sabia que era algo familiar, com sopros e uma voz delicada que os acompanhava, quase como se ela estivesse sendo sussurrada próxima de meus ouvidos, e o som ficava mais alto se eu fechasse meus olhos. Uma placa na entrada exibia a carta de bebidas oferecidas na casa, todas com nomes em inglês e francês, e ao lado desta, outra plaqueta que especificava “somente sócios”. Então aquela casa magnífica, que exibia num telão imagens de filmes mudos e decorada com velas e arranjos de outros tempos só era aberta a sócios? O mais aterrorizante: as pessoas sentadas às mesas e de pé junto ao balcão pareciam muito felizes, enquanto comiam, conversavam, mesmo as que sentavam-se solitárias lendo seus livros ou assobiando a canção que ouviam. Pareciam aconchegadas como em casa, sem nenhuma gota da histeria ou brutalidade de gestos que observo em outros cantos. Com meu coração disparado, corri até aos umbrais de madeira do lugar, e quando empurrei a porta para forçar a entrada, percebi que estava trancada. Impassível diante de meus esforços. Impossível naquela tarde de neblina. E contentamento das pessoas em suas mesas, e a porta cada vez mais cerrada... desisti quando tive certeza que eu não era desejado lá. Aquela mulher que me fuzilou com seu olhar de escopeta, sua beleza mediterrânea, me expulsou como se colocasse um cão pra fora da igreja, um bêbado pra fora de um bordel. Sei que ela já existia em algum lugar na minha memória, e talvez por isso seu olhar tenha doído tanto. Saí com a certeza de que o lugar não era e nunca seria para mim, e o que via a frente era só uma avenida que era o retrato da desolação, cheio de bares, lojas de antiguidades e restaurantes de quinta que pareciam feitos para mim, agora que eu havia caído em desgraça, banido do Éden e forçado a caminhar para longe da felicidade que por um instante vislumbrei.
Acordei com uma aguda sensação de falta, como se algo houvesse sido arrancado de mim, de uma vez por todas.  

domingo, 3 de julho de 2011

A fúria dos pores-do-sol

Algo
frio está no ar,
uma aura de gelo e fleuma.
Todo o dia construí
uma vida e agora
o sol afunda-se para
se desfazer.
O horizonte sangra
e chupa seu polegar.
O pequeno polegar vermelho
desaparece de vista.
E admiro-me
com minha própria vida,
este sonho que vivo.
Eu podia comer o céu
como uma maçã
mas prefiro
perguntar à primeira estrela:
Por que estou aqui?
Por que vivo nessa casa?
Quem é o responsável?
Hein?

- Anne Sexton

Tradução: Priscila Manhães

sábado, 2 de julho de 2011

Artistas e o ambiente





"A arte nada tem a ver com o ambiente, não lhe importa onde esteja. Se você se refere a mim, o melhor emprego que jamais me ofereceram foi o de administrador de um bordel. Em minha opinião, esse é o melhor ambiente em que um artista pode trabalhar. Goza de uma perfeita liberdade econômica, está livre do temor e da fome, dispõe de um teto sobre sua cabeça e nada tem que fazer senão levar umas poucas contas simples e ir pagá-las, uma vez ao mês, à polícia local. O lugar está tranqüilo durante a manhã, que é a melhor parte do dia para se trabalhar. Nas noites existe a suficiente atividade social, para que o artista não se aborreça, se não lhe importa participar dela, o trabalho dá certa posição social, nada tem ele que fazer porque a encarregada leva os livros, todas as empregadas da casa são mulheres, que, certamente, o tratarão com respeito e lhe dirão “senhor”. Todos os contrabandistas de licores da localidade também lhe dirão “senhor”.  Um mal ambiente somente o fará subir a pressão sangüínea, ao fazer-lhe passar mais tempo se sentindo frustrado ou indignado. Minha própria experiência me ensinou que os instrumentos que necessito , para um ofício, são papel, tabaco, comida e um pouco de whiskey..."


William Faulkner (link para entrevista com o escritor: http://www.revistabula.com/posts/entrevistas/entrevista-william-faulkner )

Mémoire

Imagem: "Barbette aplicando maquiagem", Man Ray, 1926.


Do cinema para a rua, da rua para o bar, do bar (esfumaçado, misterioso, aconchegante aos ouvidos – real? Não no Rio) para casa, meu quarto, no quarto, de volta para a cama e seus lençóis azuis vindos de um hospital psiquiátrico, não sei se utilizados ou não, mas que jamais contarão história alguma a respeito de noites de insônia, porres imaginários ou damas atrevidas, meus lençóis que calados valem por toda uma vida e por isso mesmo tiram meu sono por tantas ocorrências obscenas, indescritíveis ou apenas angustiantes em sua beleza, então é melhor trocá-los, por um sonho novo que se instaure e me revele uma nova realidade.
Ao lado da cama, uma garrafa de vinho que data de 1972 e dois livros que não sei de quando datam, mas tem me feito companhia, além de uma imensidão de memórias, rancores e sutis prazeres que carrego comigo só para manter minha consciência limpa de que tentei. Mas os fantasmas são ruidosos, eles nem sempre estão quietos como naquelas tardes e noites de junho, então para ter algum descanso, me arrasto até a sala, as correntes presas aos meus pés fazem algum barulho e eu temo acordá-la, demoro séculos para deixar este quarto que já se tornou inesquecível, memorável nos salões do tempo, atiro-me no sofá com a gana dos que tem sede.
(no espelho do quarto, vi um rosto que não era o meu, um movimento que nunca fiz, uma silhueta que delicadamente fazia a maquiagem, retocando olhos e boca num ritual que, não vou mentir, é tão excitante quanto um bom vinho).
Estico-me, apoio a cabeça contra a almofada enquanto a luz da janela da sala entra por um espaço pequeno o bastante para iluminar apenas o meu sorriso enquanto penso em você, em musica, em tardes de domingo e em gatos – o que afinal sonham os gatos quando dormem em grandes almofadas lilases de cetim?

quinta-feira, 23 de junho de 2011

"Então me vens e me chega e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque assim que és..."


Caio Fernando Abreu

Mulheres e cigarros

Anna Karina


Marlene Dietrich - o anjo azul


Charlotte Gainsbourg

Jeanne Moreau

Uma Thurman, como Mia Wallace

E inúmeras xícaras de café. E a mesma canção.

memórias (falsas)

Diz-se da memória que se trata de um estoque de experiência que reservamos e ao qual recorremos para enfrentar situações análogas, identificar padrões e estar preparados para contingências futuras, seja para corresponder ou frustrar expectativas de outros. De qualquer maneira, é uma forma de organizar e entender as coisas. Entretanto, pouco se sabe sobre o funcionamento deste mecanismo de armazenamento de experiências passadas, esta caixa preta; apenas que – óbvio – não retemos aquilo que não vivemos e que ninguém vive se só vive no presente.
Naquele princípio de noite, agíamos como se nada houvesse acontecido na manhã anterior. Nossos passos graves e nosso silêncio felino estavam em ressonância, mas o que havia acontecido parecia tão fora de todos os esquemas mentais que criáramos com a intenção de nos precaver do mundo, que daquela experiência só guardamos sensações sem ter aprendido coisa alguma com elas, como dois amadores à véspera de um grande acontecimento. Temíamos voltar àquilo que, independente de ter ocorrido há pouco mais de vinte e quatro horas, parecia não existir em nossa memória, enquanto os sentidos alertavam que algo estava fora do lugar, como um vulto que vemos com o canto de um dos olhos, ou a sensação de estar sendo perseguido ou um sonho do qual não nos lembramos, mas que deixa um leve incômodo. Quase falei para você: “pensei muito nas últimas palavras que você disse”, mas algo me impelia a pensar que essas poucas palavras poderiam fazer explodir o universo inteiro, ou talvez retirar a solene lua de sua órbita. Então, apenas prosseguimos. Seu olhar, ou melhor, os poucos olhares que você me lançou, me levaram a crer que dentro de ti se passava algo semelhante, certo temor de cometer um pecado tão grande, tão grande quanto derramar sal nas chagas de Cristo. Então, prosseguimos. Uma velha cruza nosso caminho e em sua sabedoria ela nos observa, certamente imaginando que fazemos aquilo que todos fazem com nossa idade: perdendo tempo pensando em como não se arrepender de alguma coisa. Ela sorri então afável, sabe que isso é da juventude e ela mesma deve ter desperdiçado muito tempo desse mesmo jeito. Uma chuva fina começa a cair, seguimos caminhando tentando não pensar no assunto. Em frente a uma loja de calçados, você pára e observa um sapato idêntico ao que você perdeu naquela manhã, e que eu sabia muito bem como. E me diz que perdeu um sapato como aquele, com um olhar triste. “Como você o perdeu?”. A pergunta é a deixa, e você, preparada, animada com a possibilidade aberta de eliminar de uma vez aquele desconforto causado por um corpo estranho no campo de suas memórias, responde: “quando desci do trem, chegando de N****” e me conta toda uma estória sobre um lugar, uma família, um mar infinito e um trabalho, todos hipotéticos, improváveis, mas eu acredito plenamente, enquanto você fala a própria verdade se delineia no contorno de seus lábios e eu silenciosamente rezo para que você não deixe de falar, não hesitaria um segundo entre escolher entre sua boca e a verdade; e se você esteve onde disse que esteve, então nunca estivemos juntos, naquela manhã nublada, e estas sensações não passam de devaneios. E criamos, enfim, uma memória, juntos lapidamos uma experiência para nos livrar de um sentimento e assim continuar nossos projetos paralelos, sem precisar esperar pelo próximo abalo sísmico, ou pelo próximo trem, que sabemos que inevitavelmente virá, e do qual nos esqueceremos, olvidados em nossas memórias arquitetadas.

domingo, 19 de junho de 2011

Oração para a chegada do inverno

Que você venha com teus poderes de assombro e conforto;
Que minha casa esteja fechada para os corvos do paraíso e aberta para suas noites de frio;
Não te temerei, ainda que esteja desabrigado, desamparado e só,
Porque sei que em tuas brisas há mais do que arrepios: Há também calor,
em uma forma estranha e delicada, mas ainda assim, para as almas sensíveis, calor;
Dias e mais dias ainda nos separam,
Mas te espero com a ansiedade e angústia dos amantes apartados;
Desde que findo o verão da histeria,
aguardo-te, inverno da temperança e suavidade,
dos abraços demorados e
das noites sem fim,
que começam com beijos insidiosos
e se prolongam noite adentro em sonhos com paisagens chuvosas.

Ao inverno, que ele venha
carregando em seus ventos as melodias das ninfas.

sábado, 18 de junho de 2011

Nos Salões do Sonho

Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?

Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!

Mário Quintana

domingo, 12 de junho de 2011

Gaviões Noturnos














"Nighthawks", Edward Hopper.


Os Gaviões noturnos
Só saem quando sabem que estarão a sós;
juntos, cada um em sua própria solidão
Se encontram num canto solitário da cidade
E beber, até se lembrarem de seus amores perdidos.


                                                                    R.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Walking after you

Foo Fighters:



Uma amiga me fez lembrar dessa música linda. Já paguei muito pau pra essa banda. E ainda sorrio melancolicamente quando escuto essa letra...

* Prometo que até o fim da semana volto a postar textos meus!

sábado, 28 de maio de 2011

O que o médico disse

 Ele disse não parece bom
 ele disse parece mau aliás muito mau
 ele disse eu contei trinta e dois deles em um pulmão antes
 de parar de contar
 eu disse fico feliz não ia querer saber
 que tem mais do que isso lá
 ele disse por acaso você é religioso você se ajoelha
 em bosques na floresta e se permite pedir ajuda
 quando encontra uma cachoeira
 a névoa soprando contra seu rosto seus braços
 você para e pede clareza nesses momentos
 eu disse não mas pretendo começar hoje mesmo
 ele disse sinto muito ele disse
 gostaria de ter outro tipo de notícia para dar
 eu disse Amém e ele disse algo mais
 que eu não entendi e sem saber mais o que fazer
 e sem querer que ele precisasse repetir aquilo
 e que eu realmente precisasse digeri-lo
 apenas olhei para ele
 por um minuto e ele olhou de volta foi então
 que me ergui num salto e apertei a mão daquele homem que
 acabara de me dar
 algo que ninguém no mundo jamais tinha me dado
 talvez eu tenha até agradecido por força do hábito.

 Raymond Carver

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Bukowski, again.

" Vemos isso tarde demais
Depois que o pau é engolido
O coração vai atrás"

Ou vice-versa.

Um outro jeito de dizer que "o amor é sexualmente transmissível" (Marçal Aquino).

terça-feira, 17 de maio de 2011

Último Copo de Tristeza





Sim, eu vi estrelas despencarem como se fossem lágrimas do céu. E eu jamais diria para ti que tive uma visão tão triste se você aparecesse de repente com seu sorriso de noite fria, seu olhar lânguido de gata. Enrolados em meus dedos, teus cabelos contariam uma estória. Vaga, como a lua. Sem sentido e sublime. Com algum brilho. Beijaria teu pescoço e guardaria pra mim essa visão triste, e mais todos os pesadelos que me assaltavam quando não conhecia esse frescor sublime de seu abraço. Pra não te assustar. Odiaria ver você fugir por aquela porta com medo do que quer que fosse que viste em meus olhos. Sou como a heroína de histórias de terror que só no fim descobre que ela é a única que pode destruir o fantasma que persegue ela e seus amigos, como um sobrevivente de um massacre que se escondeu e só muito tempo depois do ocorrido sai de seu quarto pra ver o que restou. E o que sobra é esse misto de solidão e alívio, e um imperativo de recomeço que ronda cada gesto, cada palavra que sai de minha boca. É essa sensação e o prazer da sua presença que, se não me sustentam, me permitem encarar mais um dia de sol com um sorriso incerto nos lábios, de quem não sabe direito o que vai fazer nem como, mas que sabe que vai dar certo só porque não foi tentado antes. E sobre aquelas estrelas cadentes que caíram em chamas no mar, eu devo dizer que delas mantive um retrato em minha memória, e em alguma noite amena te conto com um sussurro ao ouvido. 

domingo, 8 de maio de 2011

A paz que não quero

Algumas vezes eu encontro uma paz que é absurda. E não é uma paz construída, buscada, que vem surgindo aos poucos com o correr das horas. É uma paz que explode, transborda, não acalma - fere. E, na verdade, é ela que me encontra, como os olhos de uma mulher a me encarar. Ela recusa bebidas e musicas e companhias, deseja apenas cigarros e silêncio, vazio. Às vezes quase sinto ela arrebentando meu peito como uma bomba. Ela se assemelha a uma pequena certeza de que tudo que havia pra acontecer já passou, que não há mais nada para esperar e que não há motivos nem pra ansiedade nem pra vontade. Ela é como uma mãe velha que diz "é assim mesmo". Eu só conheço essa paz, dos desesperados. E ela é violenta, maligna. Só que eu, que caminho chutando poças d'água quando estou triste, que me arrepio com seu toque, que não sei dedilhar nenhuma bela melodia no violão, eu, preferiria, a esta paz, a insanidade em tua cama.

terça-feira, 26 de abril de 2011

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Ainda vai demorar pra passar


A tristeza ainda vai demorar pra passar. Eu não vou tomar anti-depressivos e nem vou beber até morrer. Só vou beber, porque faria isso de qualquer jeito. As cicatrizes vão demorar pra sumir. Mas eu vou começar fazendo algo. Eu que já não acredito em quase nada. Eu tenho que começar de alguma maneira. E a melhor maneira que descobri é tirando alguns quadros da parede. Parece fácil, mas posso garantir que não é. Ou você já tentou arrancar seu coração e colocar ele em cima do aparelho de tv?


(Mário Bortolotto)

sábado, 16 de abril de 2011

Monólogo; de Luana Vignon

"Quando entendi que essa coisa de literatura era irreversível resolvi experimentar de tudo, Vinícius de Moraes, Henry Miller, Rimbaud, Verlaine, toda a corja. Eu achava que tinha que viver tudo muito, muito rápido e preferencialmente de porre, perder o controle era um tipo de sublimação. Bullshit. (Tenho uma gastrite e uma filha de 9 anos). Enquanto isso você tomava pilequinhos inocentes e passava a mão na bunda da professora de literatura inglesa (eu dava mole pro frentista do posto 24h). Você traduzia Baudelaire (eu dormia em hoteizinhos sujos).  Eu tentava extrair poesia das dezenas de feridas que eu mesma me infligia, mas tudo só serviu para alimentar esse pequenino monstro alojado no meu tórax. Esse traidor".


- Luana Vignon, http://luanavignon.wordpress.com

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Um poema

o universo é infinito
como a luz do
primeiro olhar
e a escuridão do
último beijo


(Fernanda Tatagiba)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Se os anjos escutassem jazz

As trombetas do apocalipse
Soariam como um solo de Miles Davis
E não seriam assim tão ruins,
Sons dissonantes, notas perfuro-cortantes,
“bye, bye, blackbird” em pleno fim do mundo.
Anjos são seres estranhos
Eles estão por aí o tempo todo;
Aparecendo pra Drummond,
Anunciando o filho da virgem Maria,
Apaixonando-se por trapezistas alemãs;
Mas acredito que nunca escutaram jazz.
Jazz é pra quem tem alma.
Ainda que seu choro seja um piano,
Suas asas batendo, um contrabaixo
E sua voz um saxofone.
Mas não podem ouvir jazz.
Por isso Lúcifer se revoltou.
E convocou os melhores jazzistas
Pra uma grande jam no inferno.

Sei que anjos não ouvem jazz.
Pois sua beatitude é de outra natureza.
Por isso eles se debruçam ao nosso lado enquanto escutamos,
Para contemplar em nossa face
A plenitude da verdadeira anunciação entorpecida.

terça-feira, 5 de abril de 2011

A festa em que não vou estar

Desta vez, quiseram as circunstâncias que esta celebração eu perdesse. Ou talvez tenha sido deus, em seu jogo de dados astrais. Logo eu, que celebro até sozinho com uma garrafa de conhaque. É uma sensação estranha. Como rezar pela chuva e não estar acordado quando ela cai, cortejar uma bela mulher e não ter outra coisa pra fazer quando ela te convida pra jantar, um semeador que jamais colherá aquilo que plantou, beber sem embriagar-se. Não obstante, acho que é o momento perfeito pra explicitar minha euforia com essa conquista. Pra deixar bem claro, não há nada meu nesse feito. Só compartilhei do processo, a ansiedade, o desejo, as ternas palavras. Mas o sentimento de conquista fica claro quando se olha a partir da perspectiva do destino, das coisas que se encaminham de maneira tortuosa, quando aquilo que julgávamos trivial se torna fonte de prazeres e tormentos inexplicáveis, do ponto de vista daqueles que para si só acumulam intangíveis bens. Nem tão intangível desta vez, só um pouco turvo. Só posso dizer que já está sendo inesquecível e que gostaria de compartilhar esse momento de perto. Faço meu brinde de longe, nesta cidade auto-indulgente e mal-educada, para elogiar Fernanda pelo presente que ela nos deu publicando um livro. É emocionante. “À Sombra das Coisas Turvas” não é pra ser lido, mas degustado... logo depois da festa. Então, compareçam.

capa deliciosa!


Entre o sonho e a realidade, escolho um poema.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Sobre os dissabores dessa minha vida

Você me diz que eu tenho que virar o disco (virar o disco: expressão arcaica que designa uma maneira obsoleta de escutar musica, em que a ordem das canções importava e o som era interrompido pelo barulho suave da agulha se afastando do vinil, e era preciso ir até o aparelho e DELICADAMENTE recolocá-lo para tocar, um certo ritual de materialidade que aos poucos se esvai...). Que eu preciso mudar essa cara. Parar com esse discurso. Você tem razão. Diz que eu sempre estou triste quando te encontro. É verdade. Que é melhor ser feliz do que triste (ah, baby, de felicidade não entendo, apenas sei de prazeres saciados) e que eu devo voltar, eu sempre sumo quando estou triste. E se eu disser que amo minhas amizades quando me deixam estar tristes sem que me cobrem pelo meu sumiço? Que eu peço que entendam esse gesto salutar e voluntário de exílio? Você me diz, não sem alguma razão, que preciso deixar de lado o que me faz triste, que a vida é mais que isso. Querida, e se eu te disser que sei disso, mas que temo quem serei caso abandone tudo isso? Não sei quem eu seria se eu simplesmente esquecesse. Eu poderia resolver ser feliz e parar que procurar aquilo que hoje não passa de uma possibilidade remota. Mas eu persigo aquilo que parece estar cada vez mais longe, e se eu abandonasse a busca, não sei o que restaria de mim, seria outra pessoa, um alguém que, de longe, me parece frio e sem vida. Quem sabe eu congele nesse cômodo frio tentando abrir as portas dos fundos – trancadas só pra mim – enquanto a porta da frente está aberta. Pode ser. Mas eu só sei ser assim. Talvez a felicidade realmente não esteja entre as minhas prioridades. Como uma amiga me disse, talvez os únicos problemas que existem são aqueles que nós procuramos. Talvez. E talvez – apenas talvez – eu tenha me enamorado de alguns de meus distúrbios de personalidade e de sono. Talvez eu fique com esta sede jamais saciada. Prefiro encarar esta sede, esta fome, conviver com elas a abandoná-las. Continuar com esta velha quimera, querer o que não é pra mim. Além do mais, me importo com meus fantasmas, veja só. Tenho medo de deixá-los pra trás, medo que se sintam sozinhos. Tão solitários quanto eu.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Pois ele buscava o mar

Pois ele buscava o mar. Enquanto cruzava longas distâncias sob o sol de outubro e olhares curiosos, vislumbrava em delírios o momento em que encontraria aquilo que ele só entendia como sendo uma rota de fuga definitiva e adequada para longe dos mares revoltos de sua consciência turva, ou talvez como seu ondulante leito de morte, de qualquer modo é ele, o Oceano sua perfeita imagem da beleza e eternidade, altar ou túmulo, a um só instante. Um instante líquido, agitado e profundo, como tudo em sua vida, sua tristeza, amores e gozos, todos líquidos, agitados e profundos.
Seus dedos dos pés, havendo recém-tocado a areia, contraíram-se de maneira angustiada diante da soberania vasta do mar, enquanto seus olhos se fechavam em reverência. E de olhos fechados, subitamente o mar se calou, sua violência se interrompendo num silêncio que fere. A brutal mudez oceânica, como duzentos cadáveres cobrindo uma planície descampada, como um grito sufocado no meio da madrugada, como uma porta deixada aberta por quem acabou de partir.
Frio como um infindável esquife de gelo.
Em meio a soluços e lágrimas, ele pronunciou uma oração que sequer compreendia. Não é de nossa natureza se agarrar ao mistério quando tudo que é óbvio não parece mais surpreender? Ele acreditava que sim, e foi por isso que naquela noite, enquanto crianças nasciam, bêbados se perdiam voltando para casa, casais se beijavam e toda a dor do universo parecia ser curada com um simples sax jazzístico, ele se atirou ao mar silencioso em comunhão com a única coisa que, supunha ele, pudesse afogar sua solidão, infinita,
A lua assassina escondeu sua face esta noite.
Certas tristezas não devem ser testemunhadas nem mesmo por uma divindade tão antiga como Selene. 

sexta-feira, 4 de março de 2011

Pequeno poema didático

(Mário Quintana)


O tempo é indivisível. Dize,
Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vário.

A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconseqüente conversa.

Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre...
Todas as horas são horas extremas...

E todos os encontros são adeuses!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O excesso de luz que sempre cega

            Nos lugares escuros que não precisam de luz, onde a luz seria uma mentira, dando relevo excessivo ao que melhor se compreende quando mantido invisível, é possível resistir ao puxão do Tempo. O corpo envelhece, morre, mas a mente é livre. Se o corpo é pessoal, a mente é transpessoal, sua amplitude não é limitada pela ação nem pelo desejo. Sua amplitude não é limitada pela identidade.
            Preciso dos lugares escuros pra me livrar do senso comum. Para ultrapassar o presunçoso círculo da luz elétrica que supõe iluminar o mundo.

(Jeannete Winterson - Arte & Mentiras)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Áspero; direto ao ponto.

"Prova minha boca em teu ouvido"
Prova a realidade se desmanchando
Em correntes de sensações infinitesimais
Prova meu engano contra tua certeza
Minha chaga contra teu peito
Prova meu tormento em tua paz
Deixa-me
Provar  a crueza do teu corpo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Provaremos as ilhas e o mar

sei que em alguma noite
em algum quarto
logo
meus dedos abrirão
caminho
através
de cabelos limpos e
macios


canções como as que nenhuma rádio
toca


toda a tristeza, escarnecendo
em correnteza.



(Charles Bukowski)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Reverendo Gary Davis.



"keep your lamps trimmed and burning". Amém!!

"(...) Com seus truques de malabarismo/com seu cinismo incompreendido//ela vai pisar com suas sandálias de névoa/em meu coração"

(Foto de: Laurence Tarquin Von Thomas)

Perdas e retratos

Não sou do tipo que põe suas lembranças em altares; Tão pouco minhas cicatrizes ficam expostas. E, embora meus erros fiquem claros à luz do dia, é a noite que revela o que tenho de melhor e de pior. É quando aspiro a fumaça, lanço-a pra dentro do copo de whisky e trago de volta. É quando me perco em meus próprios gestos gentis. E colho os frutos que já nascem apodrecidos destas escolhas erradas. E eu sei que não há virtude minha que seja capaz de reparar tamanho estrago. Então baixo as persianas, me recolho a uma trégua inevitável. Cuido de minhas feridas com poesia, filmes e musica, e quando escuto “Don’t let it bring you down”, mobilizo minhas armas não para tentar voltar atrás, mas para demonstrar o quanto sinto. E, se houver quebrado algo, recolherei os cacos. De minhas perdas, não faço troféus. De minhas perdas, que já são tantas, não tenho sequer retratos.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Lisa tenta ser boa

O inverno lhe dá asas, ela me diz, me encarando com olhos supersticiosos que eu não sei se verei em outro lugar me diz que chegará o dia em que minhas preocupações não passarão de distrações infantis daquilo que realmente importa e que o futuro não estará permanentemente sob o julgo desses erros cotidianos, e eu claro meneio com a cabeça sugerindo um entendimento que é tudo menos sabedoria, eu que cruzo insinuantes e intermináveis desertos em minha mente até no ato banal de atravessar uma rua. Tenta ser boa, me olhando com olhos sensuais e acariciando meus cabelos contando das viagens que ainda serão feitas sem o peso enorme da dúvida, da descrença, apenas suaves deslocamentos entre um sonho e outro tendo como porto seguro uma cama ao retornar da longa jornada, enquanto eu de olhos fechados visualizo uma segurança nunca imaginada, pretendida ou plenamente aceita nos dias ferozes de verão desta cidade em chamas. Tenta ser boa, beijando o canto de meus lábios sussurrando qualquer coisa sobre minha força interior, essa desconhecida, meu talento, esse monstro, sobre as possibilidades de quietude da maneira que eu necessito, conquistando pouco a pouco, grão por grão, a serenidade que persigo e eu só faço um esforço pra deixar de lado esse sorriso cínico e concordo com essas palavras que só podem ser de um anjo que não conhece a imundice e o caos ou que talvez conheça, mas que tenha passado por eles com a graça de quem usa uma coroa de plumas nos arranha-céus mais altos da beleza e imaginação. Ela tenta ser boa e me transmitir essa bondade que não parece real, muito menos humana, e minhas lágrimas querem dizer que eu estou tentando -

garota, estou tentando acreditar que existe algo para além desse verão que não seja a danação eterna, talvez esse inverno aconchegante que te pinta tão belas asas que me acolhem quando estou triste.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Araguari II (Meus Dias de Vândalo)

(Jair Naves)

Como eu me defendo desse sentimento de inadequação
Que me destrói por dentro, pro qual eu não vejo explicação? 
Bandeira a meio mastro, um afago áspero, a voz do cantor
Eu criei um certo faro para esse tipo de enganador 

(Graças a você)

Ladeira abaixo, assim foi dito
uma obra-prima de eufemismo
para as dores da inaptidão,
para o sufocante calor da afobação
Ninguém imagina o que eu enfrentei
o quanto doeu, o quanto eu rezei
minha reza de ateu
num desespero que eu nunca me atrevo a demonstrar


Bêbada e vingativa,
o amor como eu o conhecia
de peito estufado, cheia de si
cantando em copos por aí
na madrugada eterna e ardente
que te deixou toda em carne-viva

Uma adoração inconcebível (em mim você devia confiar)
todo o amor que me é possível (eu vejo tanto de mim mesma em você)
recolhido, quieto, ensimesmado
meu refém conformado e imperturbável
na madrugada eterna e ardente
que me deixou todo em carne-viva

Agora, convenhamos: eu nunca me expus tanto, você nem pra impedir
Com todo esse alvoroço, eu só engoli meu almoço, não senti gosto algum
A torneira que eu esqueci aberta não tardou a inundar todo o prédio
mas eu sobrevivi, eu sobrevivi

O tempo que a gente passou aqui morando de favor
nos tornou parte da mobília sem valor
na percepção pobre e turva daquele que nos abrigou

E foi nesse corredor que eu vi o fantasma de um senhor 
e de um labrador
magro, manco e ameaçador
Eu é que não vou me meter com esses dois

Nem queira saber o que eu ambiciono,
o que me mantém vivo, porque eu não cedo ao sono
Eu te aconselho: nem queira saber


Assim que os meus dias de vândalo terminarem, 
eu sei que me levarão pro céu
E farão com que eu narre os meus escândalos 
sem que eu me gabe, 
com o constrangimento abatido de um réu
Talvez fosse preferível
que eu nunca tivesse saído
de onde eu nasci,  de Araguari

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Sobre as resoluções de ano novo

“Cuidado, anunciar seus planos é uma boa maneira de fazer Deus dar risada”.


E tudo em paz no inferno.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Index Res Prohibitorum

Minha pequena coleção de objetos vivos:
Um armário que uiva durante a noite;
Uma gaveta cheia de memórias;
Um cinzeiro que me repreende
(porque fumo demais);
Uma cama cheia de dores na coluna
(pois que não saio de cima dela);
Uma gaita que chora notas tristes;
Minhas chaves que se escondem;
Livros que são mais que bons amigos;
Cartas que escrevi, não mandei e não param de falar,
Declamando e repetindo seu conteúdo
“ela teria gostado de receber isso”, me dizem.
E falam, falam, falam.
Retratos que me observam, e, acima de tudo,
Um telefone o tempo inteiro mudo, mudo, mudo.
Está tudo quase certo: Semana que vem, me mudo.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Changes

Acontece que esse fim de ano tem me fodido mesmo. Não sei nem mais o que é. Só sei que, seja lá o que for, foi se acumulando. E agora, no momento em que preciso fazer algumas mudanças realmente significativas na minha vida, não tenho tempo, preciso terminar este trabalho, o prazo está se esgotando e eu não tenho a menor vontade de terminar algo que não estou gostando. Me acostumei a não levar a frente projetos naufragados. Nunca tive vocação pra capitão, nunca afundarei junto com o navio, meu papel desde que nasci é de afundar embarcações. E agora vivo um paradoxo, porque basicamente todos os planos que venho fazendo dependem essencialmente de concluir um plano mal-sucedido. Quero sair e conhecer e sentir, mas não tenho tempo. Quero me deitar, beber, sonhar, e não tenho tempo. Não tenho tempo nem pra ficar em casa, nem casa tenho. Deveria ter um só pensamento em minha cabeça, mas tenho 1.750 planos prontos para serem colocados em prática. Isso não vai levar a nada, não é mesmo? Eu sei. Resolução. Reconhecimento. Perseverança. Palavras estranhas, que vou aos poucos buscando encaixar em meu vocabulário tão pobre, tão carente. Fica na cabeça uma frase que serve de epígrafe no livro do Saulo: “É muito perigoso aplicar à conduta idéias literárias” (não lembro de quem é, neste momento). É mesmo. Muito perigoso.
Ana C. César, me salva.

CASABLANCA

Te acalma, minha loucura!
Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!
Este som de serra de afiar facas
Não chegará nem perto de teu canteiro de taquicardias...

Estas molas a gemer no quarto ao lado
Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia
O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente ao cinema...

As chaminés espumam pros meus olhos
As hélices do adeus despertam pros meus olhos
Os tamancos e os sinos me acordam depressa na
Madrugada feita de binóculos de gávea
E chuveirinhos de bidê que escuto rígida nos lençóis de pano.”

sábado, 4 de dezembro de 2010

My Bloody Valentine



Ter segurado você em meus braços agora soou como ouvir uma melodia que foi esquecida através dos tempos; foi como agarrar com mãos firmes não você, mas sua essência; como ter chegado enfim a algum lugar depois de ter os pés sangrando por tanto caminhar a esmo. Eu sei que o caminho que nos trouxe até aqui foi complicado, perdemos muitas coisas, desperdiçamos outras tantas, mas foi o que escolhemos, queimamos os remos e nos colocamos conscientemente à deriva, então agora será apenas isso, minhas mãos em volta da sua cintura, o sabor dos seus lábios mornos tomando conta dos meus, seus cabelos molhados e um distante sentimento de desaparecimento. Nenhuma recompensa além deste vazio, nenhuma sensação além dessas dores excruciantes: A sua, física, letal, queimando em seu abdômen e esvaziando sua mente de qualquer pensamento que não seja – dor, dor, dor; A minha, uma dor no peito, uma angústia sem fim, a incapacidade de pensar em qualquer além de tudo que fizemos, uma dor sem marcas no corpo, mas nem por isso menos real que a tua. Estamos os dois morrendo aqui, cada um a sua maneira, minha doce delinqüente. Não pense que é mais fácil pra mim, nunca é”.

Ele finaliza este bilhete. Ajoelha-se ao lado dela, beija-lhe os lábios mais uma vez – ele faria isso por toda a eternidade, essa é a verdade – e deixa o pedaço de papel em cima dela.
Ela, que agoniza no chão, emitindo os últimos suspiros a que até um cão tem direito, deitada num chão cheio de garrafas quebradas, poemas rabiscados, um cinzeiro lotado, um revólver ainda quente e uma camisinha usada, sinal de que a morte não era esperada, não ainda, mas não teve jeito.
Suas mãos e roupas manchadas com o sangue jovem dela, em seus ouvidos o barulho do disparo se misturam aos gemidos de minutos antes – é tudo tão confuso quanto só a vida real pode ser.
Ele não conseguiu pensar numa saída digna pra tudo isso, pra esse carrossel vil e violento em que entraram desde aquela noite em que se viram na galeria de arte, quando ele finalmente conheceu sua vítima.
E pela primeira vez pensou em sim como algoz. Não mais um mero profissional, mas desta vez um anjo da morte cumprindo desígnios muito maiores que suas forças.
Nem seu corpo esguio sob o dele, nem suas mãos delicadas procurando as partes mais sensíveis do corpo dele foram capazes de evitar isso.
Ele não a teria matado. Em outras circunstâncias. Nem mesmo quando ela permitiu que seu amante quebrasse três dentes dele com uma paulada certeira.
Nem mesmo quando ela zombou dele no dia em que se pau não queria trabalhar.
Nem mesmo quando ela o fez esperar três horas na chuva, no território de seu inimigo, correndo o risco de uma emboscada a qualquer momento.
Mas era uma garota que vivia em busca de limites perigosos. E ela tinha mexido com as pessoas erradas dessa vez.
Nem mesmo ela, com suas pernas lascivas, seus olhos verdes fatais e seus sorriso de ninfa.

Para ele, um dos trabalhos mais árduos a que foi submetido, mas ainda assim um trabalho. Uma missão.
Pensou no tamanho de sua covardia.
Um homem impedido de proteger a quem ama é uma figura digna de pena.
Só lhe resta agora limpar tudo, talvez beijar uma vez mais aqueles lábios, e recolher todos os cacos do chão.
Cacos de dentro, e de fora.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Whitman

Eu me contradigo?
Muito bem, então eu me contradigo
(Sou grande, eu contenho multidões)

- Walt Whitman, "Song of myself"

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

E La Nave Va

Talvez ainda caiba um pouco de vida
Neste corpo embalsamado.
Embalado por lembranças,
velejo por um mar sem ondas,
Sem vento, sem horizonte, sem volta;

Não será minha vontade a me conduzir
Quando eu decidir que é chegada a hora de zarpar.

sábado, 27 de novembro de 2010

Marca

Aquela ali está marcada a ferro. Aquele outro, traz a marca do demônio, é melhor se manter afastado. Aquela traz a marca de três filhos e um casamento de conveniência. Vai poder te dizer algo sobre acordar 20 anos ao lado da mesma pessoa. Esse que amarra o cadarço com os pés sobre o banco e carrega uma marca que ganhou num sonho, dizem que é esquizofrênico. Aquela ali foi marcada pelos 20 e poucos rapazes que já passaram pela sua cama. Aquela de vestido azul traz a marca da cinta de seu pai no rosto, bem abaixo do olho direito, você vê? E tem aquela ali, que canta maravilhosamente desde que foi deixada pelo último amante, e agora vive por aí interpretando Chet Baker, que a marcou muito e na verdade foi o motivo de sua separação. Este que acabou de passar por você eu não sei, mas ele carrega uma .45 na cintura, o que por si é uma marca perigosa. Ela, de preto, traz a marca de dedos, unhas, dentes, todo tipo de perversão. É assim desde que se deitou com outra mulher, que lhe cortou com uma navalha. Aquele lá, não sei se é homem ou mulher ou anjo, é portador de uma marca triste e misteriosa. A mulher de jaqueta jeans está a mais de cinco anos tentando terminar seu livro, está marcada por um fracasso, semelhante ao meu e seu. Como você pode ver, todos têm uma marca, todos algum dia em algum momento tiveram suas individualidades transformadas e nem por isso desmoronaram. É aí que está o charme, o segredo, a única verdade, seja ela fruto do acaso, de intenção ou de mentiras, existe algo que nos define e que escapa ao entendimento, mas basta chegar um pouco mais perto para se ver. A marca. Do assombro. Em nossos corpos. 

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Para Billie, Ella, Aretha, Bessie...




Tempestades elétricas
Nuvens de saxofones, trompetes e trombones
Ar carregado de f(r)icções musicais
Em menos de um minuto, uma voz se sobrepõe a tudo isso
E meu coração transborda junto

Deixa eu bagunçar você

Durmo na esperança de sonhar contigo Acordo somente pro desejo de te encontrar Menos que obsessivo, meu amor por você é abrigo ...