quarta-feira, 8 de agosto de 2012



A razão de tudo é eu sair por aí procurando alguma coisa que faça meu sangue ferver. É o motivo pra beber tanto, pra ouvir rock, pra iniciar conversações suspeitas, pra ficar acordado até tarde. Acho que até a razão pra me levantar da cama pela manhã tem a ver com esperar que alguma coisa perigosa aconteça. E nada mais perigoso suas pernas movendo-se com graça por entre os objetos espalhados pela sala. Em sincronia com seus olhares, os movimentos de suas pernas a aproximam de mim como a serpente que hipnotiza. E eu que  me levantei da cama apenas para isso fico indefeso diante de tamanha provocação, nenhuma outra reação diante de teu corpo além de aceitar este convite para o regresso à cama, agora incendiada. Sua boca é meu ponto fraco e seus seios o lugar onde repousa meu desejo, do início ao fim. Todos os dias acordando com a certeza de que és a fonte de todos os meus problemas e ainda assim vou esperar que você chegue com suas sapatilhas mortais, seu toque de Midas, perturbando minha existência com mais um punhado de doces problemas aos quais eu me lanço pretensiosamente a tentar solucionar obsessivo. Você vai pisar em meu coração. E do furo feito pelo teu salto, jorrará um sangue quente feito o inferno.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Caras como eu não deveriam viajar de avião


Quando o avião acelerou na pista, se preparando para a decolagem, eu olhei pela janela e me vi do lado de fora, menino, correndo ao lado dele. O avião arremetendo contra as nuvens me lembrou de mim quando criança, tomando distância da lagoa lá embaixo, correndo, correndo, mais rápido e mais rápido, ganhando velocidade para, a um passo do fim, saltar buscando o céu e finalmente caindo dentro d’água não sem uma pontada de frustração. E desta vez, ao invés de despencar, eu subi. E subi, cada vez mais. E uma vez acima das nuvens, foi inevitável o deslumbramento, a fascinação diante do improvável, mas regada a certa melancolia vinda não sei de onde.  Tudo era tão claro e tão cheio de paz, que contrastava com essa inquietação de espírito que não me abandonava mesmo ali. Eu desejava aquele silêncio do mundo lá fora, a paz do infinito. Era como se, aprisionado dentro de uma gaiola de ferro, eu houvesse sido lançado para fora do espaço e do tempo, tentando cruzar uma barreira há muito esquecida por quem já se habituou a voar, claro, sem asas. Pela primeira vez desempenhava uma viagem e a estrada não estava lá, arrancada de sua nobreza e santidade, não havia nada nas nuvens que lembrassem as rodovias que ligam cidades e corações como artérias de concreto e poeira, e lentamente as nuvens iam assumindo para mim um tom enegrecido, um tipo de deserto particular, um inferno próximo ao céu, uma cor azul de um vazio anômalo, entediante, sinistro até. O céu não te permite visões. Eu estava próximo de meu destino, sem sentir que havia realmente deixado algum lugar, e mesmo quando revolvia meus pensamentos a algo menos terrível, alguma turbulência me trazia de volta do meu caos interior e eu encarava a paz infinita lá de fora, o avião sacudia e sacudia, e eu murmurava para que apenas eu pudesse ouvir: “caia de uma vez, caia, apenas dessa vez, caia, maldição”. Ele não caía, e do meu lado via a senhora olhando para mim com um misto de espanto e reprovação no olhar. Pelo visto eu não murmurei baixo o suficiente. Eu ri, meu primeiro sorriso desde a decolagem. Caras como eu não deveriam viajar de avião. Senti uma saudade enorme do garoto que não decolava e caía n’água, mas ri porque sabia que lá embaixo haveria uma estrada pra mim como há para todo mundo.

A melhor canção de amor já composta?

Leonard Cohen: "One of Us Cannot Be Wrong".




Perfeita.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Números de uma viagem.

Três ladeiras abaixo.
Dois ônibus daqueles.
Duas horas de avião em direção ao sul.
Uma van cheia de "buenas muchachas".
Um trem para o mercado.
Mais um ônibus.
Cheguei.
Só pra te ver?
Não, nunca mais.
Por mais que te ame, PoA,
Você é só mais uma estação no caminho.

domingo, 22 de julho de 2012

A lanterna mágica



“Wilhelm, que seria, para o nosso coração, o mundo inteiro sem amor? O mesmo que uma lanterna mágica apagada! Assim que a gente coloca aí uma lâmpada, imagens de todas as cores se projetam na tela branca... E quando fosse apenas isso, fantasmas efêmeros, nós encontramos a felicidade postando-nos diante deles, como as crianças se extasiam ao contemplar aquelas aparições maravilhosas!” (Werther, Johann Wolfgang Von Goethe).
A lanterna mágica foi o ancestral direto do cinema. Uma caixa ou cilindro de metal em que dentro queimava uma lâmpada e que, através de um passa-lentes no qual se colocavam pinturas diversas, projetava em uma tela ou parede branca imagens assombrosas. Encantou muito mais do que crianças. Sábios, cientistas, reis e plebes inteiras maravilharam-se com aquela que também era conhecida como lanterna do medo.
A lanterna mágica projetava sonhos e medos. E suas imagens se abasteciam de um fogo que se consumia depois de algum tempo. Também a vida se nutre de um sentido maior que o de meramente estar vivo. Por isso a metáfora é perfeita. Não possuímos mais lanternas mágicas. Temos o cinema.

E minha vida tem sido um projetor sem filme.

Shame



"I don't need no rising sun
I don't need no ball and chain
I don't need anything, but you.

Such a shame, shame, shame.
Shame is the shadow of love."

sábado, 21 de julho de 2012

Eu previ o futuro, e sei que essa previsão, diferente de muita coisa na minha vida, está certa. O problema é que o futuro não chega, não chega, e até lá me desespero, choro, bebo, sim, fico bêbado e durmo sonhando com fadas, violinos, putas, navalhas e uma porção de assombrações, rostos de mortos que jamais deixam de me perseguir por que eu não quero, eu não deixo. Lá se vão anos desde que (...) partiu, anos desde que (...) pela primeira vez, anos desde que (...) foi assassinado e tudo isto retorna, dia a dia, como se eu não pudesse fazer nada a respeito. Todos os dias eu digo a mim mesmo que não devo alimentar estes fantasmas, tento cantar pra mim canções alegres, tento acreditar que todo o problema está apenas na minha cabeça, mas isto não é o suficiente. Nem toda a paixão do mundo pelas coisas próximas é capaz de varrer essa doença pra longe - ainda que com um passe de mágica através do movimento rápido de suas mãos ela consiga, por instantes, afastar todas as sombras e exibir o sol que se oculta entre nuvens negras, mas elas sempre voltam quando ela se vai, ou quando não vem - então eu fico sempre acreditando que o problema é maior, mais profundo e inabalável. E o que desejo é uma porção tão ínfima de tudo que eu poderia ter. E que terei. Talvez falte a mim o sangue que banha as mais gloriosas conquistas, a chama exígua que aquece e consome.

sexta-feira, 20 de julho de 2012


O maior pecado então será esse.
Você e eu cercados por nossos fantasmas desejando talvez
estar longe dali,
e ainda assim, desfrutando aquela pontada de prazer
que o medo traz.
Você nunca saberá se aquela excitação
vem do ranger de dentes destes animais ferozes
ou de minha mão entre suas pernas.
Em todo caso, abrirá elas um pouco mais
enquanto sussurro mentiras leigas,
nada de muito novo ou especial.
Apenas um tipo peculiar de embriaguez,
um antigo pecado conhecido.
Nenhum crime que não tenha sido catalogado,
vil como da primeira vez que nos tocamos
na escuridão de nossas almas,
na tristeza que vagava ao nosso redor naqueles dias,
na imensidão de desassossego
que insiste em nos perseguir até os dias de hoje,
na falha de caráter comum a todas as pedras que rolam,
na inocência abandonada na infância
e recuperada naquele último suspiro antes do gozo.  

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Certezas:

As pessoas estão cheias delas.

Eu também estou cheio delas.

Delas, e de suas certezas.

It's You

"When I was younger,
I spend my days
Wondering to whom
I Was suposed to pray.

It's you.

(PJ Harvey).

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Delicadeza ou Desespero?



O amor é intoxicação. Quando não envenenamento. E eu penso nisso sempre que olho o número de livros, filmes, poemas, musicas e afins. E nem é preciso olhar o conteúdo, os títulos já entregam. Aliás, a quantidade de filmes que tinham a palavra "amor" (e seus derivados) essa temporada nos cinemas foi de lascar. Não que eu não goste, mas essa verve monotemática me enjoa às vezes.
(Ok, já pensei sobre a possibilidade disso ser recalque de pessoa mal-amada. Não precisa me lembrar. Mas mesmo em minha amargura em relação ao amor eu ainda consigo manter um olhar de longe pra falar sobre isso. Aliás, uma coisa é falar de amor na arte e falar dele como é. Sou principiante sim em termos de amor. Mas não somos todos? Segundo Truffaut, no amor os homens são sempre amadores e as mulheres profissionais. No que concordo absolutamente).
Mas voltando.
Há um filme em cartaz - que não vou assistir, of course - chamado "A Delicadeza do Amor". Por uma dessas coincidências, eu passava de ônibus em frente a um cinema com esse filme em cartaz e no meu celular tocava "The Desperate Kingdon of Love", da minha musa PJ Harvey.
Difícil contraste maior. Amor ou desespero? Porra, não acho o amor delicado. No meio do amor pode haver delicadeza, como pode haver delicadeza em passar manteiga no pão ou ao entrar no ônibus. Mas no fundo, é desespero. É tesão e medo de perder o ser amado. Claro que não tô julgando o filme que não vi e nem vou ver. O título em si não diz muito. Poderia ser sobre a delicadeza que pode haver no amor, e sem dúvida há (mas pelo que soube, o filme é isso mesmo: o amor é delicado). Tanto faz. Mas me chamou atenção o fato de os nomes enfatizarem aspectos tão diferentes do amor. Ou talvez momentos diferentes. Momentos. A delicadeza existiria após a fúria, o furacão que varre todas as nossas certezas? Há quem viva desses vendavais. E, após a explosão inicial, rompem e partem em busca de um novo amor. E há quem não conheça essa explosão, que só desfrutam o que no amor há de delicado e calmo e... pouco. Existe amar pouco? O amor é sempre demasiado, carrega consigo uma porção desesperada. Sublimar esse desespero não significa extirpá-lo. Mas e o amor sem delicadeza, resiste? Não sei. Sei que o amor feito de som e fúria é uma vela que queima dos dois lados, e que não vai durar a noite inteira. Mas, como diria Neil Young, é melhor arder em chamas do que evaporar.

           

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Sem Resposta


Até onde posso ver, nada está suficientemente claro. E eu tento entender por que. O senhor que veio até mim no ponto de ônibus, há dez anos, pra me contar que sua filha havia suicidado porque não passou no vestibular pra medicina, ele tentava entender. A jovem que ia toda noite ao mesmo ponto esperar pelo amante que prometeu que viria e nunca veio, queria entender. E eu sempre imaginei que os jogadores daquela seleção da Hungria em ’54, por muito tempo devem ter acordado sobressaltados no meio da noite tentando entender. E o cachorro expulso do bar, esperando do lado de fora algum resto de comida de presente, também ele tenta entender. A todos falta alguma coisa. Há mais na foto do que o olho pode enxergar, me diz a canção, e isso vale pra todo mundo, então porque me sentir tão deslocado? Será que entre os andrajos e veredas de uma vida torta não há espaço para um pouco de suavidade? Ou este gosto de decepção já está tão impregnado na boca que mesmo as canções mais doces soarão sempre amargas? Eu só sei que o homem que se olha no espelho pela manhã não é o mesmo que faz suas orações antes de dormir, e se um dia este rio resolver correr na direção contrária, não será por não ter tentado seguir a corrente comum e ele não deixará de ser um rio por conta disso. Não sei. Em algum lugar entre a violência do gozo e a resignação de um adeus devem estar a calma, sorrisos e um café da manhã livre de pressa. Em algum lugar que meus olhos ainda não alcançam, deve estar aquela que com a suavidade da voz me põe em contato comigo mesmo, e faz o mundo girar como se existisse mesmo um eixo. 
Parece que, no final das contas,
Todos temos nossas uvas verdes.

Da Mão Impossível


Eu não quero mais que uma mão,
uma mão ferida, se possível.
Eu não quero mais que uma mão,
ainda que passe mil noites sem leito.

Seria um pálido lírio de cal,
seria uma pomba amarrada a meu coração,
seria o guardião que na noite de meu trânsito
proibiria absolutamente a entrada à lua.

Eu não quero mais que essa mão
para os diários óleos e o lenço branco da minha agonia.

Eu não quero mais que essa mão
para ter uma asa de minha morte.

Tudo mais passa.
Rubor já sem nome, astro perpétuo.
O demais é o outro; vento triste,
enquanto as folhas fogem em bando.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Nylon Smile




"I'd like to laugh at what you said
but i just can't find a smile.
Wonder why you can't.
I struggle with myself.
Hoping I might change a little
Hoping that  I might be someone I wanna be".

Portishead.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

"Não há comparação entre o que está perdido por não ter sucesso
 e que se perde por não tentar." 


Francis Bacon

domingo, 8 de julho de 2012




Calmo e distante. Não fui eu que pedi por esse ar indiferente e magoado. Eu, que nem sempre demonstro exatamente o que se passa. É a suavidade do ar quando a noite chega, uma borboleta voa trêmula sobre meu ombro, e eu calmo, calmo e distante, com a mente em lírios, violetas, o ou que quer que sejam estas pétalas que povoam meu pensamento. O Nada possui essa virtude peculiar de me trazer de volta, e quando você me vir assim, distante, saiba que estou centrado em mim como a árvore que produz o próprio alimento (ou talvez um cachorro atrás do próprio rabo); o Nada me protege e me afasta. As ondas do mar soam distantes agora, um fantasma melancólico assovia uma canção, não há mais tumultos ou pessoas: mesmo no epicentro do furacão, estou calmo e distante. Eis o que sou, um caos calmo.

Sobre a Arte (VII e VIII)


VII (Pina)

A dança como uma obsessão
Os movimentos são poesia para o olhar
E um desafio para as palavras
Que, não servindo para medir, descrever ou narrar,
Contentam-se com a medíocre tarefa de exaltar,
Elogiar o encanto dos corpos.
Mas o olho com a Câmera vai além
Propõe um casamento nunca tentado
Entre a paixão e os fotogramas,
Entre os sonâmbulos no palco e os sonhadores ante a tela.
Eu apenas observo,
E por um instante imagino estar encarando nos olhos
A mulher que criava tempestades.
Apenas uma ilusão,
Com qualquer casamento,
Como qualquer paixão.


sábado, 7 de julho de 2012

Essas violetas


As flores de outubro são as delicadas violetas
Para as quais ninguém olha,
Ninguém posa, ninguém pergunta
Ninguém há que note seus olhares inquietos
Suas vozes dissonantes
Seus desejos ocultos, sua euforia discreta.

São essas as flores que enfeitam as janelas
De quem vive no escuro
Na solidão de um quarto nos fundos,
Separados da leve alegria das
Crianças na sala de estar;

Assim são as flores de outubro e
Eu só queria te falar de como é
Ter estórias e não ter ouvintes;
Ser para poucos e desejar a todos;

Mas você não pode ouvir
Esses lamentos lilases
Essas rosas que não deram certo
Esse amor que é desmedido e manchado,
Essa dor que recusa a exatidão dos termos
E que nega até mesmo ser contada nos mais lindos versos. 

Auge

A mulher está perfeita.
Morto,

Seu corpo mostra um sorriso de satisfação,
A ilusão de uma necessidade grega

Flui pelas dobras de sua toga,
Nus, seus pés

Parecem nos dizer:
Fomos tão longe, é o fim.

Cada criança morta, uma serpente branca
Em volta de cada

Vasilha de leite, agora vazia.
Ela abraçou

Todas em seu seio como pétalas
De uma rosa que se fecha quando o jardim

Se espessa e odores sangram
Da garganta profunda e doce de uma flor noturna.

A lua não tem nada que estar triste,
Espiando tudo de seu capuz de osso.

Ela já está acostumada a isso.
Seu lado negro avança e draga.

(Sylvia Plath)

terça-feira, 29 de maio de 2012

Um Lugar Legal para Estar (When the Music Stops)


Ela me disse casualmente
Que havia notado a mancha de sangue na minha camisa
Disse a ela: “Não se preocupe, não é nada”
Ela respondeu “Eu não to preocupada”
Resmunguei: “É melhor assim”
Achei que podia me divertir um pouco
Assistindo uma luta de boxe na TV
Tirei a camisa manchada de sangue e joguei no tanque
Ela vestiu uma microssaia e saiu para a rua
Abri uma cerveja e resolvi esperar
Os ponteiros do relógio eram guilhotinas no meu pescoço
Quando ela voltou, não falei nada
Fiquei no escuro vendo ela se mexer
Deixando cair sua saia
No caminho pro banheiro
Deixou a luz acesa e ouvi o barulho
Não vou usar de eufemismos nesse momento
Pra dizer o que ela estava fazendo
Somos um casal com tempo de serviço
Nossa indiferença mútua provava isso
Meu enorme peso no sofá atestava isso
Ela acendeu um cigarro no escuro da sala
E a chama do isqueiro fez com que ela me notasse
“é mais difícil do que você imagina”, ela disse
E o seu desprezo me acertou como um blefe de pôquer
Ainda ficou um tempo olhando pra mim
Antes de vencer o orgulho e perguntar
“O que era a mancha na sua camisa?”
“Já disse. Não é nada. Não precisa se preocupar”
Ela soltou um foda-se e foi pro quarto,
Deitou e ficou fumando olhando o teto
Levantei e fui andando até o banheiro
Cambaleei e tive que me apoiar na porta
Abri o armário e peguei o mercúrio-cromo
Ou você não sabia que a maioria das histórias de amor
Terminam com alguém limpando as feridas?

- Mário Bortolotto

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mais duas citações.


"Só utiliza a razão quem nela incorpora suas paixões" (Raduan Nassar, "Um Copo de Cólera").

"Essas botas foram feitas para pisar. É tudo que sabem fazer. Um dia essas botas irão pisar sobre você" ("These Boots Were Made for Walking", Lee Hazlewood).


Nunca fez tanto sentido.

I Started a Joke



Tola, mas dilacerante.

domingo, 27 de maio de 2012

Maria de Medeiros, linda.






Pois,
Causa espanto viver entre
Longas tardes de apatia e
Espasmos de loucura;
Num canto qualquer como este,
Uma simples brisa serve como um toque
Do infinito.

Ode


Ora, e de que adianta que eu me aproveite neste instante de pequenos eufemismos circulantes para expressar este amor? Chegas até mim devastadora em teus saltos altos e olhos arrebatadores e esperas comedimento de minha carne? És os últimos degraus da escadaria que subo suplicante de joelhos, és minha derradeira parada, minha última tentativa de ser santo. Nos desolados estaleiros da noite, canta o bardo a canção que fiz para ti em desespero. Não fosse por ti, ainda estaria sóbrio, esta e tantas outras noites. Não fosse por ti, seria apenas uma vela acesa, e não centenas. Não fosse por ti, seria a morte a que tanto anseio e não esta vida, com meu desejo resplandecendo na noite. Não sejamos hipócritas. Há santos que morreram por motivos bem menos nobres e até hoje são lembrados. E só o que importa é que agora aqui corre sangue e outros tantos fluídos que nem sei se são meus. E desculpe por estar falando de fluídos em linhas que só deveriam conter sentimentos, mas afinal creio que não sei separar as coisas como se pertencessem a mundos diferentes. Tudo passa pelo sexo, pelo instinto e no fim por fluídos trocados e celebrados em idas e vindas escaldantes. E de nada me serve florir de atenuantes verbais estas indecências: é de seu corpo colado ao meu, incendiando minhas entranhas, que preciso. E para o inferno com tudo aquilo que é morno. Em minha cama entenderás que esta calma que vês só existe três polegadas acima da pele.

sábado, 26 de maio de 2012

Se


Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filho! 


(Rudyard Kipling, tradução Guilherme de Almeida).

domingo, 20 de maio de 2012

Eu prometo contar tudo se você prometer não fugir assustada com o que ouvir.
Não ligo se você ficar assustada, mas não fuja.
Se eu te decepcionar, releve.
Se eu confessar um pecado, absolva-me.
Existem os crimes da alma e os crimes do amor, cometi-os aos montes
Sendo eu mesmo a unica vítima.
Não te peço que me proteja, muito menos que me entenda.
Só não fuja batendo a porta, pois precisaremos dela aberta para os dias que virão.


terça-feira, 27 de março de 2012

In Loco

Olha, eu sei que tô na mesma merda de cinco malditos anos atrás, mas veja, ao menos li mais livros e corri mais alguns quilômetros, dezenas deles na verdade, não que isso seja essencial, mas ao menos cria a ilusão de movimento, de que as coisas estão indo para frente e não para trás, afinal, não se pode desler o que já foi lido então tá tudo certo, eu estou bem, garanto, ter mudado a marca do cigarro pra um mais fraco não altera em nada o resultado do processo, a morte ainda virá e ela é bem vinda, ora bolas, nos contorcemos sempre por causa do mesmo sal que atiram sobre nossa pele e eu sei, vai chegar um tempo em que isso tudo não fará mais sentido nenhum e até isso deve ser considerado um avanço, nossas nobres mentes aprendendo com erros triviais, meus sonhos ruins e aquele meu problema (não vou inscrevê-lo aqui) continuam, mas quem realmente achou que isso mudaria merece minha admiração porque, e eu não sei quanto de vaidade ou orgulho cabe nisso, mas eu não mudarei jamais, no máximo terei visto outros filmes e isso em si já é muita história pra contar, eu tenho que te contar que eu ainda me imagino em Memphis, Amsterdan e St. Louis, apenas adicionado desta vez de Buenos Aires, e já que estamos falando em progresso, Buenos Aires está bem perto de acontecer e eu queria que você fosse a primeira a saber disso, mas como te ligar só pra dizer que vou conhecer Buenos Aires, você acharia que é só uma desculpa estúpida (dentre as tanto que invento - ora, sou expert nelas, como você bem sabe - mas eu garanto que isso é só uma forma de não te aborrecer, nem a você nem a ninguém, sobre as verdades idiotas sobre minha vida, e isso não é uma queixa, mas até hoje ninguém me convenceu da primazia da verdade sobre a mentira, mas definitivamente a verdade pode facilitar as coisas e eu estou aos poucos aprendendo a facilitar e não complicar minha vida com planos que se adiam por um ano inteiro, e mesmo essas mentirinhas já estão me enchendo o saco e estou decidido a pará-las), só uma desculpa estúpida pra ouvir tua voz, e sei lá, não quero que você desligue o telefone na minha cara, seria deprimente demais depois de tudo, então eu acho que vou te mandar só um cartão postal de Buenos Aires e espero mesmo que você entenda que eu quero que assim que você abra o envelope, pense "oh, ele conseguiu então", sempre penso se você pensa em minha vida no Rio de Janeiro, é uma conquista, mesmo estando na merda em que estou, vai ver que mudanças tem mais a ver com qualidade que quantidade, então, se não mudei tudo que devia, coisas essenciais  não são mais as mesmas e aquilo que ontem parecia tão importante eu só me lembro mesmo quando arrumo minha coisas e mexo nas minhas lembranças, nos vexames e tristezas e outras coisas das quais eu devia ter vergonha, mas sabe de uma coisa? 
Eu só sinto uma puta vontade de gritar. 
Nada mudou, é sério. O gosto na boca ainda é o mesmo e até meus dedos têm seu cheiro.
Acho que vou parar por aqui. 
Hei, acho também que vou escrever um poema.
 Como há cinco anos. 

quarta-feira, 14 de março de 2012

De repente, Nós

Por, Camila Fraga (aqui)


De repente o dia é só uma
Chuva torrencial que não pára de
Cair
Tu cantando no banheiro depois de
Nos esfregarmos num edredom
Sujo
De repente a vida é só nós dois
engolindo bebidas
enquanto olhamos um nos
Olhos doutro
Enquanto tudo lá fora desaba
De repente tudo sou eu e você
Enquanto crianças choram
Por sorvetes derrubados no chão
Nós dois rindo pra caralho por
Qualquer merda
Enquanto o ônibus pula em solavancos
Escrotos
Seus dedos pelas minhas coxas
Calcinhas
De repente é você caminhando
pelo nosso quarto
fumando um cigarro na janela
enquanto eu cravo minhas unhas nas
pernas
Louca de vontade de te beijar os pés
De repente a gente num passa de dois
Desajustados
Sem nenhum charme
Passando shampoo um no outro
Enquanto te dou um banho de água gelada
Gosto quando tu bebe a água em mim
E a gente ri sem motivo
Como duas crianças babacas
De repente tudo é
Só eu e você e nada
Mais.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Incandescente

Porque nem tudo que reluz no escuro
São brinquedos fluorescentes
Interruptores de luz ou fantasmas;
Algumas pessoas têm estrelas cadentes no lugar dos olhos
E, em chamas, meu coração grita por elas.

E assim surge uma pequena trilha iluminada
No meio das trevas em que caminho.

A Morte de Sylvia







para Sylvia Plath

Ó Sylvia, Sylvia,
com um féretro de pedras e colheres,

com dois filhos, dois meteoros
vagando livres numa pequena sala de jogos,

com sua boca contra o lençol,
na viga do teto, na silenciosa prece,

(Sylvia, Sylvia
onde você foi
depois de me escrever
de Devonshire
sobre cultivar batatas
e criar abelhas?)

o que reparou
justamente quando se deitou?

Ladra —
como se rastejou,

rastejou sozinha
para a morte que desejei tanto e por tanto tempo

a morte que ambas dissemos ter vencido,
a mesma que carregamos em nossos peitos mirrados,

a mesma que conversamos freqüentemente
cada vez que engolimos três martinis extra secos em Boston,

a morte que falava de analistas e curas,
a morte que talava como noivas com tramas,

a morte que nós bebíamos,
os motivos e a taciturna realidade?

(Em Boston
os moribundos
viajam em táxis,
sim outra vez a morte,
viaja pra casa
com nossa criança.)

Ó Sylvia, lembro do sonolento baterista
que batia em nossos olhos com uma velha história,

como queríamos deixá-lo vir
como um sádico ou uma fada de Nova Iorque, 

para fazer seu trabalho,
uma necessidade, uma janela numa parede ou um berço,

e desde então ele esperou
sob nossos corações, nossas despensas,

vejo agora que
ano após ano, velhos suicídios

e sinto ante a notícia de tua morte
um horrível sabor, como o sal

(E eu,
eu também.
E agora, Sylvia
você outra vez
com a morte outra vez
viaja pra casa
com nossa criança.)

E digo apenas
com meus braços estirados naquele pedregal,

que é tua morte
senão uma antiga possessão,

uma verruga que caiu
de um dos teus poemas?

(Oh amiga,
enquanto a lua é má,
e o rei parte,
e a rainha perde a razão
o bêbado deve cantar!)

Ó mãezinha,
você também!
Ó estranha duquesa!
Ó coisa loura!

17 de fevereiro de 1963

Tradução de Priscila Manhães
Anne sexton

Inseguro



“Odeio esta maldita palavra. Inseguro. O termo da moda para os bundões, criado pela psicologia pop do fim dos anos 80. Você é livre e solteiro? Inseguro. Toma um drinque de vez em quando? Inseguro. Não quer falar sobre seus sentimentos? Inseguro. Não acredita que o porra do Woody Allen fala por todos nós? Inseguro. Não quer que comam teu rabo? Um puta inseguro”.

Foi o Pastor (da foto) quem disse.

New Dawn Fades


O tempo de ser legal passou. Definitivamente. Quem não gostar disso, que não venha reclamar comigo, vai ter de falar com meu rifle. O Senhor é meu rifle e nada vai ficar no caminho daquilo que eu tenho que fazer, porque não será tratado com sorrisos e abraços dessa vez. O tempo de ser legal passou. É o fim. Das gargalhadas e mentiras suaves, como diz aquela música. A última pá de terra sobre toda paz, amor e esperança. Não. Sobre o amor, não. Mas sobre todas as outras pequenas porcarias que inventam para amenizar a coisa toda. Entre ratos e anjos, a hora é de ficar do lado dos ratos. E isso não é aquele papo de encantar-se com a decandence ou qualquer coisa do tipo. É sobre preservar o equilíbrio. Se você fica tempo demais de um lado apenas, ele passa a ter vantagem sobre o outro. Não estou interessado em saber quem vai vencer, só espero ir pra cama com os dois antes de morrer. Então, por hora, chega de candura. Porque não vou mais ser fodido pelo lado que se diz bonzinho. Sempre tive uma convicção que até hoje não foi destruída por ninguém (e olha que os malditos abutres tentaram!) de que só porque você vive numa época idiota, isso não é desculpa pra você se tornar idiota também. Não tem nada a ver com isso. Não se trata de fazer jogo nenhum. Mas reconhecer a necessidade de uma mudança de postura é necessário. Então, é o fim da lua-de-mel com os sorrisos alheios e a festa dos contentes. Agora sou só eu e este calibre doze que está comigo. Isto vai doer um bocado. Espero realmente que doa mais neles do que em mim. Não vai ser fácil. Mas, ninguém disse que seria, não é? Então que venha o apocalipse. E todo o inferno que se seguir. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012


Às vezes o tempo esquece você
E te permite sorrir com um pouco mais de calma,
Sem aquele desespero característico dos sorrisos alheios.
Quando o tempo se esquece de você,
É possível traçar planos e mover-se com leveza
Por entre as sombras do dia e o braço de amantes,
Só quando o tempo não liga para você.

This Life


De volta a esta estrada,
Solitário.
Deus tenha sua alma
Você está por sua conta;
O corvo voa reto:
Uma linha perfeita.
Sobre a cama do Diabo
Até você morrer;

Você precisa viver essa vida;
Precisa olhar esse mundo nos olhos;
Tem que viver essa vida até morrer

Musica: "This Life", Curtis Stigers and The Forest Rangers. Tema de abertura de Sons of Anarchy.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Das Pétalas Amadurecidas

Texto de minha etérea amiga Thalita Sophie, que se abre mais ainda aqui: http://paroi-de-lamentation.blogspot.com/
Simplesmente linda.

Das pétalas amadurecidas

Um corpo em cima de uma vida macia e morena de areia e água de sal
vento de narinas que sentem
Que esse cheiro que vem da minha pele é necessidade de abertura

As pernas se amolecem
As suas se esticam sobre as minhas

O cheiro da sua pele, dos pêlos, dos cabelos
Convidando-me a abrir mais
e eu abro

Mão do meu domingo silencioso
e dos cafés e da insônia
e do meu quarto organizado e dos livros e dos
cigarros

abro
as portas, as vidraças, a couraça
Abro as pernas, te enrolo nos braços
O sol entrando em raios pela fresta da janela
que eu vou abrir quando me levantar daqui...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O amor é de performances e exibições, algumas gratuitas, outras nem tanto. Eu sei disso. Ali, em plena escuridão da casa, enquanto minha mãe, única habitante além de mim, dormia, eu me exibia num palco sem público. Agarrado ao telefone com o mesmo ardor de um monge ao santo crucifixo, eu escutava a voz dela em êxtase religioso. Ela talvez suspeitasse de minha devoção. Em nossos melhores momentos, éramos capazes de confissões dissimuladas, fantasiadas de trivialidades, mas plenas de significados. O essencial não era nunca dito de maneira direta, mas já conhecíamos a dificuldade de ambos em expor o que havia de mais profundo. Com a sabedoria de antigos como Sêneca, tínhamos consciência de que “os prazeres leves são loquazes, as grandes paixões silenciosas”. Como consequência do mutismo, em parte auto-imposto, em parte natural, eu deixava esse amor exibir-se nu e sem vergonha, mas sem ser visto, já que o aparelho que levava a ela minha voz não desenhava formas. Enquanto isso ela falava de suas vidas e seus sentimentos, e de como ela achava que amar se assemelhava a abrir uma garrafa térmica que você imagina estar cheia de café, e descobri-la vazia, e aquele sentimento que vai do êxtase à frustração seria o que chamamos de amor; eu escutava aquelas palavras com a disciplina de um boxeador diante do técnico, meneando com a cabeça afirmativamente, quando minha vontade era me enforcar nos fios daquele telefone e imortalizar aquele momento e aquele sentimento de alguma maneira, morrer como um mártir desse amor por você, sem palavras ditas ou escritas, apenas mais uma performance desta paixão abstrata e ao mesmo tempo tão sensível. Tivesse feito isso, não estaria hoje escrevendo estas linhas tortas, desnecessárias no oásis dos corações dos apaixonados.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Fazia frio, e...


Por acaso, me peguei relendo tuas mensagens. E, atrevido, fui prestar atenção a tudo que estava nas entrelinhas, os recados, as pistas que você deixava, de maneira mais ou menos direta. Por acaso, de repente era sua voz que eu ouvia. De repente, sua boca. De repente, seus cabelos e suas mãos. E tudo que é doçura e embriaguez nos seus encantos. E então o que era calafrio se fez paz. Pensando bem, não foi tão por acaso assim.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

11-01-11


Quando menos esperava, voltei a contemplar os pequenos movimentos dos insetos nas paredes de minha casa. Voltei a pendurar fotos no espelho. A chorar ouvindo canções sobre prostitutas e homens que não crêem em Deus. Retornei aos dias sem vozes e sem mistérios. Voltei a me masturbar com pensamentos torpes. Ao álcool. Não muito inesperadamente, voltei a não cumprimentar as pessoas que conheço na rua, a esquecer de pegar o troco na padaria, a tomar o ônibus errado de propósito. Voltei a ser o cara que recusa convites, que engana pretendentes, o cara preguiçoso que sabota os próprios projetos. De um dia para o outro, voltei a freqüentar lugares duvidosos. Bares de mau gosto. Alcovas onde crimes são tramados. Os irreverentes escritórios da loucura. E isso não é nem o começo. No semblante de todos aqueles que me olham, um apaixonante casamento entre a frustração e o horror.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Elementar

"Perante o jurí eu fiquei mudo;
Lisonjeado com o insulto:
'Um orador limitado a um idioma morto'."

- Ludovic, "Trégua".


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Ó Capitão! Meu Capitão!




Ó Capitão! Meu Capitão!




Ó capitão! Meu capitão! terminou a nossa terrível viagem,

O navio resistiu a todas as tormentas, o prêmio que

buscávamos está ganho,

O porto está próximo, ouço os sinos, toda a gente está

exultante,

Enquanto seguem com os olhos a firme quilha, o ameaçador e

temerário navio;

Mas, oh coração! coração! coração!

Oh as gotas vermelhas e sangrentas,

Onde no convés o meu capitão jaz,

Tombado, frio e morto.



Ó capitão! meu capitão! ergue-te e ouve os sinos;

Ergue-te – a bandeira agita-se por ti, o cornetim vibra por ti;

Para ti ramos de flores e grinaldas guarnecidas com fitas –

para ti as multidões nas praias,

Chamam por ti, as massas, agitam-se, os seus rostos ansiosos

voltam-se;

Aqui capitão! querido pai!

Passo o braço por baixo da tua cabeça!

Não passa de um sonho que, no convés,

Tenhas tombado frio e morto.



O meu capitão não responde, os seus lábios estão pálidos e

imóveis,

O meu pai não sente o meu braço, não tem pulso nem

vontade,

O navio ancorou são e salvo, a viagem terminou e está

concluída,

O navio vitorioso chega da terrível viagem com o objectivo

ganho:

Exultai, ó praias, e tocai, ó sinos!

Mas eu com um passo desolado,

Caminho no convés onde jaz o meu capitão,

Tombado, frio e morto.

                                                     - Walt Whitman



sexta-feira, 18 de novembro de 2011

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Into the Black



Estonteante. Vejam, por favor. Senão pela música, pelo público.
Neil Young. "Hey Hey, My, My";
Rock'n'roll não pode morrer jamais.
O Rei está morto, mas não foi esquecido.

sábado, 12 de novembro de 2011

O fundo

The face of the painter - Marlene Dumas


“Se eu te deixo, você me faria destruir a mim mesmo.
De modo que para sobreviver a você, eu devo primeiro sobreviver a mim.
Não posso afundar mais, e eu não posso te perdoar.
Não escolha senão te confrontar, te acoplar, te apagar.
Eu estive por longas distâncias para expandir minha fortaleza de dor.
Usarei meus enganos contra você, não há outra escolha.
Não tenho vergonha agora, não tenho nome agora, sou nada agora, sou ninguém agora;
Mas minha alma deverá ser ferro pois meu medo está despido,
Eu estou despido e destemido
E meu medo está despido”.

"Bottom" - Tool

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Questão de tempo

Há uma hora para se encontrar, e uma hora para se perder. E a loucura também começa a bater à minha porta.

E chega aquela hora em que a porta está aberta a sua frente, e você sabe que se atravessá-la, ela se fechará atrás de ti, e aí já era, ela vai se fechar de uma vez por todas. Nem sempre é assim, a maioria das vezes ela se fecha só por um tempo, e torna a abrir, e tudo que você tem a fazer é estar lá na hora certa... 
Mas não é sempre que é assim. E quando penso nisso eu lembro daquela guria que me perguntava se eu ia continuar a encontrá-la depois que ela estivesse casada e com filhos, se ainda seria seu amante, e eu sorria e dizia que sim, não porque acreditasse nisso, mas porque me sentia mais feliz em fazê-lo, ela via a porta aberta, pra longe de mim, e aquela vertigem a chamava, pra longe do caos, pra longe das drogas pesadas que eu não usava mas ela só aplicava na minha presença (tinha medo de uma overdose), pra longe das conversas sobre terrores noturnos, longe do calor, pra longe daquele sótão, pra longe, enfim, do sexo ao som de "the velvet underground & Nico", pra longe de muita coisa que, na boa, até hoje eu não sei se sinto falta, mas que me deixaram uma marca que arde.
E hoje a loucura se insinua de outras formas, e é sempre insinuante. E eu tenho consciência de algumas coisas sobre mim que não sabia há três anos, às vezes eu acho que o tempo também passa para o tempo e ele já não é tão sábio quanto antes, não tão sábio como quando Céline escrevia sobre ele, o tempo chega para todos, até para o tempo, mas sobre isso eu não sei muita coisa;
Como, na real, eu não sei sobre porra nem uma. Eu não sei, mas conheço. E conhecer já é um começo. É o primeiro passo para aceitar.
É o tempo passando. E eu aqui, olhando o mar...

There will Never Be Another You



É isso aí, Chet. Nunca haverá outro você.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O poder da canção


Por um instante, esqueci o ano em que vivia. Era como se nada mais existisse. Quando o show terminou, lembrei de algumas atitudes da banda que já conheço há 15 anos. Ou seja, desses vinte anos, estive presente em 15, vibrando a cada álbum lançado. A banda que deixou de fazer clipes pra MTv porque queria que as pessoas lembrassem da musica, não dos vídeos. Que parou de dar entrevistas porque Eddie queria que as pessoas escutassem Pearl Jam pela música, não porque o vocalista é bacana ou fala coisas legais. Que iniciou um mega processo contra o monopólio de uma empresa de venda de ingressos para shows que lesava seus fãs, e voltou a fazer shows com essa empresa porque isso estava afetando ela, a música. E toda essa fidelidade à canção acima de tudo rende frutos, como nessa noite de 06 de novembro de 2011, ao menos pra mim, mas tenho certeza que ela é renovada a cada show para milhares de pessoas. Porque ali naquele local, só a música importava. Ver o quanto aqueles caras ainda sentem prazer tocando, e a felicidade pura com as canções, uma após a outra, pessoas de olhos fechados apenas sentindo, outras tantas pulando, cantando, still alive, todas elas. Mais vivas do que nunca eu diria. Não é qualquer banda que tem um tamanho repertório, que não são reféns de alguns hits fáceis e inescapáveis, que fazem questão de ficar o maior tempo possível em cima do palco. Comparem com um show dos Stones: As “explosões” de energia movidas a tubos de oxigênio, deveras ensaiadas, os caras que nem se falam no palco, o tédio em tocar certas canções... não, isso é outra coisa. Esta banda que acabou de encantar 35 mil pessoas no Rio de Janeiro vai saber quando parar. E a sensação é que esse dia ainda está longe, longe. Até lá, continuarão abrindo os shows com musicas inesperadas, tocando “even flow” na metade da primeira parte do show pra lembrar o ano de 1991, chamando o público pra gritar em “Daughter”, e por aí vai. A felicidade é assim, fluída, cabendo em 2 horas e 40 minutos de puro rock’n’roll, sem gelo.

sábado, 5 de novembro de 2011

De "Sons of Anarchy"

"Todos nós causamos danos.
O que dita o caráter é como os consertamos".

Come Back (pearl jam)

Para alguém muito especial que não irá ver isso.





Se eu continuar a resistir,
A luz continuará a brilhar?
Sob este teto destruído,
É só chuva o que consigo sentir;
Eu tenho desejado por todos esses dias,
Volte.

Eu tenho planejado
Tudo aquilo que eu te diria;
Desde que você desapareceu
Saiba que eu permaneço verdadeiro.
Eu tenho desejado pelos dias.
Por favor me diga que se você não tivesse partido agora
Eu não te perderia de nenhuma outra maneira;
De onde quer que você esteja,
Volte.

E estes dias, eles persistem;
E à noite, eu tenho esperado
A real possibilidade de encontrá-la em meus sonhos e
Vou dormir.

Se eu não desmoronar,
Minha memória permanecerá clara?
Então, você teve que ir
E eu tive que permanecer aqui.
Mas a coisa mais estranha a notar é que
Tão distante e ainda assim te sinto tão próxima.
Eu não vou questionar isso de maneira alguma;
Deverá haver sempre uma porta aberta para você
Voltar.

E estes dias, eles persistem;
E à noite, eu tenho esperado
Uma possibilidade real de encontrá-la em meus sonhos
Às vezes você está lá e está falando comigo;
Chega a manhã e eu posso jurar que você está perto de mim.
E está tudo bem.

Eu estarei aqui, volte.
Eu estarei aqui.


(Vedder)

As canções que salvaram minha vida

Gracias.

A primeira vez em que ouvi “Ten”, (o primeiro disco do Pearl Jam), tinha 15 anos e ele não foi a primeira coisa que ouvi da banda. Quando ouvi falar na banda pela primeira vez (assistindo a um VHS da turnê de “nevermind”, do Nirvana) ela estava lançando “Yield”, um álbum incrível que, além de me transformar em fã do grupo, fez com que me interessasse por outras vertentes do rock, para além daquela coisa punk que marcou meu primeiro contato com o rock, e que era um pouco a do Nirvana, também. Mas o importante é que não é musicalmente que este nome (“pearl jam”) está inscrito na minha vida, do mesmo jeito como essa tatuagem marcada na minha pele. A primeira vez que ouvi “Alive”, chorei. Foi a primeira vez que isso aconteceu comigo. E se repetiria. Procurando pessoas para conseguir mais material da banda, enviando cartas por todo o Brasil e até fora (essa prática pré-histórica), conheci algumas pessoas que foram e são pra mim mais que amigas. Essas cartas foram fundamentais no que eu me tornaria depois. O nível de afeição, sinceridade, cumplicidade, carinho com esses estranhos familiares, o amor que cresceu em cantos inesperados, tudo isso me fez ver o que é mais fundamental numa amizade. Não tenho dúvidas de que esse meu jeito peculiar de me envolver com as pessoas hoje e valorizá-las é fruto disso. Nunca neguei que o rock estragou minha vida. Digo isso com uma dose de ironia, é lógico. Mas o fato é que a música me fez ter um apetite pela vida e conhecer coisas que estavam muito além do que eu esperaria. Coisas, lugares, pessoas e sentimentos. E o Pearl Jam tem a ver com essa história. Só resta agradecer. Muito obrigado.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O verdadeiro final escuro da rua




Difícil vai ser não pensar em você todos os dias desta semana.
Porque assim estava combinado,
Seria neste dia, neste show, sob esta chuva.
Eu estaria lá com os tênis molhados
Tentando proteger dos pingos as cartas que faltavam lhe entregar;
Você em sua capa de chuva como se nada acontecesse.
Lentes cor-de-rosa e sonhos em cores.
Pensaríamos as mesmas coisas ao mesmo tempo
Mas não perderíamos tempo com isso.

Assim estava combinado. Seria neste show.
Pois seria ali aquele abraço,
Durante aquela música que sei que é a sua música.
Como Tom Waits,
Eu te contaria todos os meus segredos,
Mas mentiria sobre meu passado, pra te fazer sorrir.
Eu não sei se conseguiria, mas tentar é o mínimo que poderia fazer;
Diante de todas as madrugadas
Que fui salvo de um afogamento mais que certeiro.

E se eles tocassem “thumbing my way”,
Aí eu tomaria sua mão e diria “essa é pra você”;
Sorriríamos com orgulho e desfaçatez
Desta delicada comédia,
Eu e você, calados e rindo por dentro de tudo ao redor
Como se fossemos dois velhos cúmplices
Que acabaram de se conhecer.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Mamas don't let your babies grow up to be cowboys



Há muito uma musica não me fazia chorar. Karen O (yeah, yeah, yeahs) interpretando um clássico de Willie Nelson.

"Mães, não deixem seus filhos crescerem e se tornarem cowboys.
 Eles nunca ficam em casa e estão sempre sozinhos.
Mesmo com quem eles amam."

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Assim, despido;

(...) e, se quisesse, teria motivos de sobra pra pegar no seu pezinho, não que eu fosse ingênuo a ponto de lhe exigir coerência, não esperava isso dela, nem arrotava nunca isso de mim, tolos ou safados é que apregoam servir a um único senhor, afinal, bestas paridas de um mesmíssimo ventre imundo, éramos todos portadores das mais escrotas contradições, mas, fosse o caso de alguém se exibir só como pudico, admitisse nessa exibição, logo de partida, a sua falta de pudor, a verdade é que me enchiam o saco essas disputas todas entre filhos arrependidos da pequena burguesia, competindo ingenuamente em generosidade com a maciez de suas botas, extraindo deste cotejo uns fumos de virtude libertária, (...)

- Raduan Nassar, "Um Copo de Cólera".
Audrey Hepburn, por Yousuf Karsh


De novo, sim.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

sábado, 15 de outubro de 2011

Pássaros que voam solitários sobre o campo de lírios

O café e os cigarros estão lá, quando ninguém mais está. Boas companhias, mas que cobram o alto preço do vício e da culpa sem chance de redenção. Quem me dera a prescrição médica necessária para comprimidos que anestesiem o coração. Mas mesmo minha entrada no mercado negro de afetividades ilícitas, onde poderia encontrar tais drogas, está condicionada a teu perdão. Então postulo teorias malignas neste inferno particular, mas isso é apenas uma forma de me livrar delas, para que reste em meu coração apenas a ternura de dias deixados para trás, de cafés que não tiravam o sono e cigarros que não deixavam um gosto tão ruim na boca. Dias em que até rimos desses vícios sem sentido, dessas estradas sem rumos e das noites sem fim. Dias de ritmo, que é também beleza. Mas também dos espelhos sem reflexos. E da vontade cruel de deixar tudo pra trás, não sem antes deixar no ar o curto rastro de nosso voo, como uma linha de fumaça negra descrevendo uma parábola dentro da qual os mais espertos dentre os nossos lerão aquela tal palavra. 
Colhamos logo estes lírios.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Cores


Amarelo-manga
Azul-safira
Vermelho-violeta
Rosa púrpura
Toda cor é um estado de espírito
Mas, quando te encontrar,
Será vestido em preto e branco
E me farei tela
Para o quadro que quiseres
Tabula rasa para seus desejos.

Miss Celie's Blues



Cena do Filme "A cor Púrpura" (1985, Spielberg)

sábado, 1 de outubro de 2011

Sangria

Eu realmente pensei que seria muito pior
ter suas unhas cravadas em meu peito, mas,
eu deveria ter desconfiado:
o pior só veio quando a última unha saiu...

Deixa eu bagunçar você

Durmo na esperança de sonhar contigo Acordo somente pro desejo de te encontrar Menos que obsessivo, meu amor por você é abrigo ...