quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Discurso para um outubro sem demônios

Foi assim:
Primeiro eu achava que não precisava me preocupar com essa vida porque a que viria depois seria infinitamente melhor.
O importante era me manter respirando e não vacilar muito com os outros, tava tudo certo. Amar o próximo como a ti mesmo. Aham, sei.
Daí que a guria me deu um toco na igreja.
(Ok. Visando não perder a verossimilhança, devo confessar que nem houve toco. Nem tentei, mas ver a guria pra quem lançava olhares que eu acreditava serem de desejo desfilar com o cara mais tosco de todos arrebentou minhas esperanças. Demorei a descobrir que amor tinha muito mais a ver com sexo do que com gentilezas, e sim, ele tinha pinta de quem sabia foder alguém).
Depois, eu acreditei que era possível comprar ou forjar uma vida pra si. “Temos todas as opções, pode escolher, o cliente é quem manda.”
“Temos o rebelde sem causa que mora com os pais e sempre bebe até vomitar; o nerd que vive pelos cantos, não come ninguém e se julga incompreendido; o cara inteligente e boa praça que namora a mais bonita da turma; o machão encrenqueiro que come todas, conta pros amigos e chora à noite porque sabe que é sozinho... A lista não acaba”.
Não topei nenhuma dessas, ainda que tenha tentado algumas.
Nessa época coisas estranhas aconteceram. E nem falo da voz que muda e dos hormônios que surtam. Andei pra lá e pra cá, descobri o poder que se pode ter sobre alguém, o valor da negação pura das afirmações vazias (“sim, claro, você tem razão”), Velvet Underground, Sade, Coca, Baudelaire, Drummond, maconha, O curto verão da anarquia... Vivi minha década de 60 particular, anos incríveis, ateu graças a deus.
E então o vazio. “Viver por algo maior”, dizia pra mim mesmo. Adolescentes são mesmo seres dignos de pena.
Aí que resolvi colonizar minha vida com a política do cotidiano. Socialismo, anarquismo, existencialismo, desconstrutivismo, feminismo... Viver era transformar. E não bastava comer merda, ainda tinha que convencer os outros de que a merda era boa. Missão impossível pra quem prefere enfiar o dedo na tomada a subir em qualquer espécie de palanque.
Tudo ótimo. O idealismo realmente disfarça bem a mediocridade. Farras, orgias, super estimativa da própria importância, loucura. Por sorte, e eu sempre contei com a sorte, fiz amigos. E me apaixonei. De verdade. Nada a ver com a história da igreja.
E aí foi pisar fundo no acelerador. Rumo a um viaduto inacabado. E não tirar o pé ao ver a altura da qual despencaria. E isso justamente quando achei que estava dando um jeito na minha vida. Uma pessoa adulta, saca? Foi foda. Adrenalina e medo são viciantes. Viver no limite, andar no fio da navalha, o amor é um cão dos diabos, não é Velho Safado? Conheci tudo isso. Não me prostrava de joelhos desde a época da igreja. E cansei de rastejar. Caminhar pelo lado mais louco. E viver era isso. Desejar, sofrer, frustrar-se. Sentir. Sentir. E parar de sentir. Sem aviso prévio. O império dos sentidos cobra seu preço. A paixão vicia mais que a cocaína, e o veneno demora muito mais pra sair de seu corpo. Dizem que depois de algumas semanas, é como se você nunca tivesse cheirado. Amar não. Arrumar um grande amor pra substituir outro não encerra o vício, só muda a procedência e a qualidade da droga. Eis o truque do jogo. E descobrem-se outros vícios. Viver torna-se um vício. Minha mais nova ideologia, o vício, a certeza de dar para o mal. O resto é resíduo. Distrações enquanto a madrugada não chega ou pra ela passar mais rápido.
E o acaso. Minha religião. Não consegui nada que não fosse por ele, então nem ouse atacá-lo. Somos governados por um tirano endiabrado, que brinca com nossos pequenos dramas. Não há sentido. Uma grande piada. Elvis morreu sentado na privada, então não me venha chamá-lo de rei.
Beijarei teus lábios e vou te morder entre as pernas, não espere muito de mim além disso. Não posso oferecer muito além de minha confusão, minha história sem nexo, minha sina maldita, minha ausência de fé, minha vida imaginária tão real, meus caminhos, minhas veredas, veredas sinuosas, veredas blues. O resto é sombra. Mais rápido amigo, o mundo está atrás de você. É hora de testar a vida, descobrir enfim se ela é sólida, líquida ou etérea.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Notícias do front - Saulo Ribeiro



Leio coisas do Saulo desde os tempos do Duda Bandit (que, por falar nisso, deixa saudades). Felizmente, o blog morreu, mas não o ímpeto criativo. Já sabia disso. O trabalho como dramaturgo seguia, e textos eram atirados ao mar virtual vez ou outra, com muito menos frequência que antigamente, é verdade. Mas dava pra ver que a criatividade não havia cessado, afinal de contas, a "ferrugem nunca adormece", como diria Neil Young. E agora parece que ele resolveu soltar um livro de contos. Chama-se "Diana no Natal" (título intrigante), pela editora Cousa. Não sei exatamente o que se passa naquela terra, nem sei se pode ser atribuído à terra, mas vejo bons ventos soprando lá com relação à área literária. Diferente do Rio de Janeiro, esse balneário sombrio onde vim passar uns tempos (quanto tempo, nem perguntem!), ainda se faz poesia lá. Me entendam. Por aqui, uma tal poesia-performance domina o cenário. Todos poetas são atores/performers de seus escritos. Sinais dos tempos, talvez. Mas escritores que  se relacionam de modo íntimo com a palavra e confiam no vigor dela por si só, como "antigamente" (nem tão antigamente assim), esses estão em franca extinção. Então, talvez seja um bom sopro de anacronismo que algumas pessoas preservem este senso estético diferenciado, e dominem sua arte. Porque sim, e esse é o ponto, é muito bom.  E tento não acreditar que aconteceu de simplesmente conhecer os bons escritores da minha terra (é possível achar alguns deles nos links deste blog, ainda que nem todos/todas ainda escrevam, ou pensem em transformar o que escrevem em algum tipo de livro), creio sinceramente ser algo maior. Um sopro, ou melhor ainda, bons ventos. Espero coisas boas desse livro, gostaria de estar presente no lançamento. Quem puder, vá e me conte. E se quiserem comprar um pra mim, melhor. Prometo escrever algo aqui quando lê-lo. Porque cheira a coisa boa.

E abaixo o vídeo que tava rolando por aí:



Um brinde, com conhaque desse vez.

Em "homenagem ao dia de ontem"



Mark Lanegan, "Ugly Sunday".

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Encontrando Mário Bortolotto

21 - 09 - 10

Eu estava lá, na fila pra comprar o livro do cara, e a letra de "Nossa vida não vale um Chevrolet" não saía da minha cabeça. "Eu sangro, eu te ligo no meio da noite, pra dizer que o Mal, o Mal mora em mim". Nem vou entrar nesse papo de identificação e da sintonia com alguém que não conheço. Mas esse assunto do fantasma que habita em cada um, o "inimigo interno", sempre me perturbou. E é inevitável que, acompanhando os textos do cara, eu arrisque dizer que sei do mal que ele está falando. Mais inevitável ainda que eu compare com meus próprios demônios, comece a especular. Sei lá. Não acredito nisso, mas devemos ter nascido sob a mesma lua, sob o mesmo "signo ruim" daquela música que Hendrix regravou. Destinados a manter distância da humanidade, a mesma que desejamos conhecer, observar, e (por que não?), amar. É que eu não sei usar o amor, como diria Clarice? Pode ser. Mas não vai adiantar nem todo amor do mundo pra retirar esse tumor maléfico, essa certeza de ter nascido do outro lado do rio, esse prazer em caminhar em silêncio na escuridão. Só pra não ser notado. Para que, imensos e escuros, somente meus olhos resplandeçam, nada mais. A violência dessa certeza. Há dias em que acordo com a vontade de encontrar com alguém, qualquer pessoa, e iniciar aquele tipo de desabafo sobre mim que termina quase que inevitavelmente por espantar definitivamente meu interlocutor. Mas não quero afastar aqueles que amo. Há realmente coisas assustadoras aqui dentro e já me sinto vitorioso de não deixar isso vir à tona sempre. No máximo, os mais observadores vão notar pequenos sinais enquanto tomo meu gole de cerveja e fico distante da conversa que se desenrola, viajando por sabe-se lá quais outras veredas. Talvez daí esse cancro que só aumente e que vai acabar me matando. É que é muito difícil explicar para as pessoas que, por mais que todo carinho não adiante para afastar a sensação de que nasci errado, o esforço delas não é em vão. Mas é assim, vai sempre parecer ingratidão, egoísmo, cegueira. E quem sabe se no fundo não é mesmo? Espero que não. Mas até que fique provado, é só instinto de sobrevivência. Mas algumas coisas aliviam essa sensação. Cúmplices, amantes, soulmates. E esse mundinho indecente do cinema, poesia, música, muita música. E a banda do Bortolotto, "Saco de Ratos", é o tipo de som que deve rolar no inferno se ele for um tipo de bar; e ficar ali, curtindo aquele som, enchendo minha cabeça de pensamentos perversos, felizes e melancólicos ao mesmo tempo, fez a diferença. E agora vou passear meus dedos pelas páginas de seu livro, "Um bom lugar pra morrer". Título adequado, epitáfio pronto. Não saí de lá conhecendo nem mais nem menos o Mário, mas fiz um acordo comigo mesmo, que não posso inscrever aqui. Mas não tem problema, algumas coisas não foram feitas pra ser acendidas, algumas velas foram feitas para não serem acendidas em orações. E eu ainda não entendi o que ele escreveu pra mim no livro que ganhei naquela noite, mas bem que poderia ser um mapa pro inferno mais próximo.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Rearranjos

"Opa!"; Ele já entrou tropeçando, esbarrando em alguma coisa estranha na escuridão da casa. Se deteve. Não deveria ficar assustado, afinal de contas aquele já não era mais o seu lar, aquilo ia acontecer em algum momento. Já não há mais tempo sequer para um triste olhar de despedida, um adeus a toda uma obra erguida a partir de momentos que agora teria de deixar para trás. "Nem ao menos um instantâneo final, nenhuma saideira", pensava ele enquanto tateava cauteloso objetos potencialmente fatais, arranjados de uma maneira que a suas mãos pareciam aleatórias. A sala já não era aquela cheia de fumaça e música e conversas madrugada adentro. O quarto, que jogos perigosos e excitantes ele poderia guardar agora? Preferiu nem entrar. Cruzou a cozinha, com cuidado mas tentando ser o mais ligeiro possível para ir direto ao que importava naquele momento. Foi até o local que os dois costumavam chamar de escritório, resgatar daquela casa os discos de vinil e os livros contra o provável incêndio sentimental de que ela seria vítima; antes que o furacão sob o nome de esquecimento resolvesse se abater sobre eles, se é que ele já não se anunciava naquela súbita mudança dos móveis de seus lugares. Já quando se retirava, seus dedos que procuravam o vidro da janela para orientarem a viagem de volta, tocaram um nervo exposto. As violetas na janela, eram elas, ali, prontas para morrer junto com as lembranças. as violetas que lembravam as promessas de manter as flores intactas, a despeito de todo ódio, toda dor e toda loucura que pudesse se erguer naquele lugar. As flores ficariam intactas, um símbolo de que nem tudo precisa sucumbir, que algo sempre resta. Uma luz que nunca se apaga. E agora ele estava no escuro. Só assim permitiu que aquela lágrima caísse, solitária e vã. Empurrou os dois vasos de violetas e suspirou. Agora era só ele de novo. Porque ele não era nada mais que um homem e as canções que o acompanham, um homem e seus pecados, um homem e sua melancolia, tudo que ele tinha a oferece a qualquer pessoa cabia em uma caixa apenas, ou talvez no seu olhar. Se sentiria mal por toda uma vida depois de virar aquela chave na porta de uma vez por todas e atirá-la de cima da ponte na água suja do rio. Seus olhos já estavam habituados à escuridão. Poderia ter pensado em sentar-se no sofá, olhar para tudo que deixava pra trás e refletir se não poderia tentar mais uma vez ficar ali. Inútil tarefa. Escreveria cartas quando se instalasse num inferno mais confortável, e essa busca por si só ele já sabia ser motivo suficiente para retirar tudo seu que havia ali. 

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Hallelujah


Jeff Buckley interpretando "Hallelujah", de Leonard Cohen.
Mais um que morreu muito cedo...


"Eu soube que havia um acorde secreto


Que David tocava, e que agradava o Senhor


Mas você não liga para música, não é?


É assim..., a quarta, a quinta,


O menor cai, e o maior sobe,


O rei frustrado compõe aleluia





Aleluia, aleluia


Aleluia, aleluia





Sua fé era forte mas você precisava de provas


Você a viu tomando banho do telhado


A beleza dela e o luar arruinaram você


Ela amarrou você à cadeira da cozinha


Ela destruiu seu trono, e cortou seu cabelo


E dos seus lábios ela tirou um aleluia





Aleluia, aleluia


Aleluia, aleluia





Talvez eu já estivesse aqui antes


Eu vi este quarto, eu andei neste chão


E, sabe, eu vivia sozinho antes de conhecer você


E eu vi sua bandeira no arco de mármore


O amor não é uma marcha da vitória


É um frio e sofrido aleluia





Aleluia, aleluia


Aleluia, aleluia





Mas houve um tempo em que você me disse


O que realmente acontecia lá embaixo


Mas agora você nunca me mostra, não é?


Mas você se lembra quando eu entrei em você


E o Espírito Santo também entrou


E todo o suspiro que dávamos era um aleluia





Aleluia, aleluia


Aleluia, aleluia





Talvez haja um deus lá em cima


Mas tudo que eu já aprendi com o amor


Era como atirar em alguém que excluiu você


E não é um choro que você pode ouvir de noite


Não é alguém que viu a luz


É um frio e sofrido aleluia





Aleluia, aleluia


Aleluia, aleluia"

domingo, 26 de setembro de 2010

Pequenas Alegrias

Há um pequeno poema caindo do bolso da minha calça
Há estrelas caindo do teto da igreja
Há a garota assustada encolhida no canto da cama
Há o homem grande e triste segurando um copo de whisky
Há a mãe mentindo para o seu filho dizendo um dia ele vai ser feliz
Há os que acreditam em mães carinhosas e bem-intencionadas
esses se tornam psicopatas ou suicidas
Mães não vão para o inferno
Há uma espécie de limbo para as mães e elas estão todas lá
Há os que não prestaram atenção em suas mães
esses assobiam swamp music no metrô
e voltam para suas casas lendo "o monstro do pântano"
esses terão apenas pequenas alegrias
como afagar a cabeça de um cachorro
ou abraçar o porteiro do restaurante
Mensagens fúnebres na noite de Natal
Mas eles já estavam preparados
por isso apenas enchem seus olhos de lágrimas
enquanto servem outra dose
ao contrário dos outros que arrancam os cabelos
e arremessam telefones contra a parede
esses querem vingança
e acham que enganam Deus quando se ajoelham pra rezar
Os que não ouviram suas mães não rezam
apenas andam por aí com seus pequenos poemas caindo
do bolso de suas calças
e fazem de suas pequenas alegrias uma farra eterna
Há essas pessoas simples e evidentemente tristes
que enchem de alegria meu coração presciente
E há essas mulheres lindas que querem conquistar o mundo
e que inevitavelmente perdem todo o charme
quando procuram esbaforidas algo em suas bolsas

                                           (Mário Bortolotto)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Cuidando de feridas, compreendendo as cicatrizes

Finalizou aquela garrafa de vinho como quem conclui um poema.
Ébrio, pensou em quanto tempo ainda teria pela frente. Quantas noites febris, monótonas, singulares ou solitárias ainda teria de suportar admiravelmente. Houve um tempo em que se considerava fraco. Bobagem; É preciso estômago pra suportar tanto. Lembrou de Tom Waits:

"Você precisa me dizer, Mr. Siegal,
Por que os arrasados são tão fortes?
Como os anjos fazem pra dormir quando os demônios deixam a luz da varanda acesa?"

Era verdade. Aqueles para quem a realidade costuma bater mais dura, que sofrem mais com simples contratempos, que deliram, que se auto-flagelam sem motivos, não são fracos. Pelo contrário. Reúnem forças de suas entranhas para superar as tormentas, Cada noite de sono é uma guerra, e conseguir sair cama pela manhã é uma vitória (ou coisa que o valha).

Revirou o quarto de bagunças que era sua memória e recordou o tempo em que negava essa dor constante, essa melancolia crônica. E percebeu a maneira pela qual esses horrores, por contraste, faziam brilhar ainda mais suas pequenas alegrias. No efeito claro-escuro que era sua vida, sempre houve tempo para a morte e para o amor. Não sabia ao certo como, mas havia feito mesmo dos seus mais belos dias, obras de arte expressionistas. Olhou no espelho e conseguiu enxergar alguma beleza, sem se importar se algum dia alguém perceberia aquilo. Era tarde da noite, e o ultimo cigarro queimava no cinzeiro. No dia seguinte, acordaria em desespero, mas haveria uma música para lhe trazer a paz, para abrandar as ondas no interior de sua alma, talvez haveria até uma voz para lhe dizer que, até que você esteja morto, os abutres não pousam sobre si. 

Deixou o telefone tocar indefinidamente, poderiam ser boas notícias, poderiam ser más. Sorriu. O que importa é que não dependeria delas pra decidir o que fazer quando a peste invadisse o agridoce refúgio do seu lar.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Fixação


A tentação
De ouvir uma doce musica em tuas asas.
Seria a morte menos triste que esse suave blues?

*********

Ninguém ampara
o cavaleiro do mundo delirante...

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Lábios que não se abrem, lábios




Lábios que não se abrem, lábios
com seu segredo
calado
 

Segredo no ermo da noite
resiste à rosa dos ventos
calado.
 

Flauta sem a vibração
do sopro.
Luar e espelho, frente a frente,
em calada
vigília.
 

Fria espada unida
ao corpo.
 

Resto de lágrimas sobre
lábios
calados.
 

Borboleta da morte
em sorvo
pousada à flor dos lábios
calados
calados.

Henriqueta Lisboa, "A face Lívida"

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Quem esquece um furacão?

No terceiro dia, seu terceiro encontro, era a terceira noite de lua cheia e eles já dispensavam todo o estágio da conversa, das amenidades, dos meios pra se chegar a um fim, todas as mesuras e cortesias, toda “conversa fiada”, como se diz por aí. Reagiram, e só.  Pois, desde a última vez que se viram, ele só pensava em quando a teria de novo, quando sentiria mais uma vez o calor de sua pele a escaldá-lo, a faca de seus olhos violadores, o palpitar de suas veias e órgãos mais íntimos. A impulsividade deste novo encontro só se igualava em violência ao tamanho de sua insegurança, diante da mulher que ele não conseguia compreender. Sua economia de palavras era fonte de pesadelos e mortes todas as noites. A cada encontro seguiam-se febres, arrebatamentos, crises de insônia. No décimo - primeiro encontro, no dia em que completara vinte e nove anos e em que Saturno retornava, o peso foi demais. Queria saber dela, seus segredos (ele jurava que ela tinha mais de um, segredos mortais que assombrariam seu sono o resto da vida), sua história, seus pequenos medos, os cantos não-iluminados de seus pensamentos quando ela simplesmente se apoiava na janela, fumava um cigarro e deixava o tempo passar, alheia à presença do homem que se revira em suores, desejando não apenas seu corpo, mas sua mente. Ele importunou-a com perguntas, novas inquisições, torturas rasas. Exigia explicações para o comportamento daquela que lhe deu tudo o que podia (ela não poderia dar nada além de amor), e apenas lhe avisa que o que ele quer não está ao seu alcance, de que adiantaria dizer a ele o conteúdo do livro que era ela se não poderia contar o significado daquela flor achatada e amarelada entre suas páginas? Ele não entendia, e o que ele não entendia era que entre dois amantes poderia haver entrega sem conhecimento pleno. Não era o que ela achava. Se a poeta estiver certa, então o mistério da mulher está em cada afirmação ou abstinência, na malícia das plausíveis revelações, no suborno das silenciosas palavras, e ele estava lendo-a com as lentes erradas. Ela já havia contado tudo e um pouco mais, sem precisar espremer seu ser até que todo seu conteúdo jorrasse pra fora de si como suco. E ele não vira. Depois desse dia, ela nunca mais voltou, e ele nunca mais voltou. A si. Um furacão devastou sua terra, e ele estaria condenado a nunca mais esquecê-lo.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

As Sementes do Mal (Ou A Correta Incerteza)

Guardo em mim as sementes de tudo o que odeio.
E guardo também o medo dela brotar,
Pois me prometeram o céu,
Mas o preço é uma breve estada no inferno...

Quero viver cem vezes antes de desaparecer,
Pois aquilo que vejo grita para não ser esquecido,
E mesmo se calasse meus olhos ainda ouviria meu
Coração.

Por que nada pode vir sem um preço?
Por que até os menores prazeres
Cheiram a enxofre?

Não vejo certo o que é errado
E até me engano no que é certo.

Faço o que acho certo
E mais tarde pago por estar errado.

Ah! Mas como é bom viver errado!

                                           

                                                              - Flávio André (o "Alemão"), poema de "A Ultima Luz de Narciso", ed. Ixtlan.

New Orleans

... E quando veio a tempestade, tudo parecia estar perdido.
Era uma criatura sem raízes, sem peso, sem âncoras.
Não suportaria um sopro tão opressivo.
Procurou na bolsa e encontrou um bilhete deixado ali por muito tempo.
Sentiu uma lágrima rolar (e ser levada pelo vento),
E foi tomado de súbita esperança:
Agora sim tinha onde se agarrar.
E um temporal tem sempre hora pra cessar.
Esperaria calmamente, e faria de si uma New Orleans Pós-Katrina:
Com jazz, com calma, com força que nem imaginou que tivesse.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Direitos de autor

Fiquei sabendo hoje dessa declaração do Godard sobre as novas restrições ao uso de obras alheias:

"Direitos de autor? O autor tem deveres!".

Não gosto de entrar nesse assunto porque minha posição quanto a direitos intelectuais sempre foi muito particular. Não reconheço nenhuma propriedade sobre o que digo, escrevo ou mesmo penso. Mas é bom ver que não estou sozinho.

Verídico

Conheço uma pessoa que é um aglomerado de massa adiposa comandada pelo pênis. Conheço outra que é uma salamandra. Tem uma terceira que é um prédio destruído habitado por espíritos de baixa harmonia. Também há um casal que é um cadáver. Tem um homem que parece um chapéu e mais um que daria tudo para ser uma joaninha. Já eu sou uma TV sem som passando um filme antigo em um quarto de hotel.

Greta Benitez.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

06:45 AM

Bem cedo,
O cano de um revólver sorri pra mim
Me oferecendo uma charada, mas não uma fuga.
Bem cedo,
O6: 45, eu penso em me mandar.
Na falta de um inferno blues com garotas e Whisky,
Penso em qualquer outro lugar.
Um fim de tarde na praia;
Um samba no Estácio;
Um pueblo abanbonado no meio do deserto;
Qualquer lugar, menos aqui.
Já pensou se a cidade fosse toda feita de giz
E pudéssemos desenhar nosso próprio esconderijo longe dos olhos alheios?
Já, já pensei.
E juro, é a única ilusão que me sobra.
Uma alucinação, mas ainda assim cheia de esperança.

The Last Time I Saw You



Helio Flanders (Vanguart) & Mallu Magalhães.

Deixa eu bagunçar você

Durmo na esperança de sonhar contigo Acordo somente pro desejo de te encontrar Menos que obsessivo, meu amor por você é abrigo ...