"When I was younger,
I spend my days
Wondering to whom
I Was suposed to pray.
It's you.
(PJ Harvey).
quinta-feira, 19 de julho de 2012
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Delicadeza ou Desespero?
O amor é intoxicação. Quando não envenenamento. E eu penso nisso sempre que olho o número de livros, filmes, poemas, musicas e afins. E nem é preciso olhar o conteúdo, os títulos já entregam. Aliás, a quantidade de filmes que tinham a palavra "amor" (e seus derivados) essa temporada nos cinemas foi de lascar. Não que eu não goste, mas essa verve monotemática me enjoa às vezes.
(Ok, já pensei sobre a possibilidade disso ser recalque de pessoa mal-amada. Não precisa me lembrar. Mas mesmo em minha amargura em relação ao amor eu ainda consigo manter um olhar de longe pra falar sobre isso. Aliás, uma coisa é falar de amor na arte e falar dele como é. Sou principiante sim em termos de amor. Mas não somos todos? Segundo Truffaut, no amor os homens são sempre amadores e as mulheres profissionais. No que concordo absolutamente).
Mas voltando.
Há um filme em cartaz - que não vou assistir, of course - chamado "A Delicadeza do Amor". Por uma dessas coincidências, eu passava de ônibus em frente a um cinema com esse filme em cartaz e no meu celular tocava "The Desperate Kingdon of Love", da minha musa PJ Harvey.
Difícil contraste maior. Amor ou desespero? Porra, não acho o amor delicado. No meio do amor pode haver delicadeza, como pode haver delicadeza em passar manteiga no pão ou ao entrar no ônibus. Mas no fundo, é desespero. É tesão e medo de perder o ser amado. Claro que não tô julgando o filme que não vi e nem vou ver. O título em si não diz muito. Poderia ser sobre a delicadeza que pode haver no amor, e sem dúvida há (mas pelo que soube, o filme é isso mesmo: o amor é delicado). Tanto faz. Mas me chamou atenção o fato de os nomes enfatizarem aspectos tão diferentes do amor. Ou talvez momentos diferentes. Momentos. A delicadeza existiria após a fúria, o furacão que varre todas as nossas certezas? Há quem viva desses vendavais. E, após a explosão inicial, rompem e partem em busca de um novo amor. E há quem não conheça essa explosão, que só desfrutam o que no amor há de delicado e calmo e... pouco. Existe amar pouco? O amor é sempre demasiado, carrega consigo uma porção desesperada. Sublimar esse desespero não significa extirpá-lo. Mas e o amor sem delicadeza, resiste? Não sei. Sei que o amor feito de som e fúria é uma vela que queima dos dois lados, e que não vai durar a noite inteira. Mas, como diria Neil Young, é melhor arder em chamas do que evaporar.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Sem Resposta
Até onde posso ver, nada está
suficientemente claro. E eu tento entender por que. O senhor que veio até mim
no ponto de ônibus, há dez anos, pra me contar que sua filha havia suicidado
porque não passou no vestibular pra medicina, ele tentava entender. A jovem que
ia toda noite ao mesmo ponto esperar pelo amante que prometeu que viria e nunca
veio, queria entender. E eu sempre imaginei que os jogadores daquela seleção da
Hungria em ’54, por muito tempo devem ter acordado sobressaltados no meio da
noite tentando entender. E o cachorro expulso do bar, esperando do lado de fora
algum resto de comida de presente, também ele tenta entender. A todos falta
alguma coisa. Há mais na foto do que o olho pode enxergar, me diz a canção, e
isso vale pra todo mundo, então porque me sentir tão deslocado? Será que entre
os andrajos e veredas de uma vida torta não há espaço para um pouco de
suavidade? Ou este gosto de decepção já está tão impregnado na boca que mesmo
as canções mais doces soarão sempre amargas? Eu só sei que o homem que se olha
no espelho pela manhã não é o mesmo que faz suas orações antes de dormir, e se
um dia este rio resolver correr na direção contrária, não será por não ter
tentado seguir a corrente comum e ele não deixará de ser um rio por conta
disso. Não sei. Em algum lugar entre a violência do gozo e a resignação de um
adeus devem estar a calma, sorrisos e um café da manhã livre de pressa. Em
algum lugar que meus olhos ainda não alcançam, deve estar aquela que com a
suavidade da voz me põe em contato comigo mesmo, e faz o mundo girar como se
existisse mesmo um eixo.
Da Mão Impossível
Eu não quero mais que uma mão,
uma mão ferida, se possível.
Eu não quero mais que uma mão,
ainda que passe mil noites sem leito.
Seria um pálido lírio de cal,
seria uma pomba amarrada a meu coração,
seria o guardião que na noite de meu trânsito
proibiria absolutamente a entrada à lua.
Eu não quero mais que essa mão
para os diários óleos e o lenço branco da minha agonia.
Eu não quero mais que essa mão
para ter uma asa de minha morte.
Tudo mais passa.
Rubor já sem nome, astro perpétuo.
O demais é o outro; vento triste,
enquanto as folhas fogem em bando.
terça-feira, 10 de julho de 2012
Nylon Smile
"I'd like to laugh at what you said
but i just can't find a smile.
Wonder why you can't.
I struggle with myself.
Hoping I might change a little
Hoping that I might be someone I wanna be".
Portishead.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
domingo, 8 de julho de 2012
Calmo e distante. Não fui eu
que pedi por esse ar indiferente e magoado. Eu, que nem sempre demonstro exatamente
o que se passa. É a suavidade do ar quando a noite chega, uma
borboleta voa trêmula sobre meu ombro, e eu calmo, calmo e distante, com a
mente em lírios, violetas, o ou que quer que sejam estas pétalas que povoam meu
pensamento. O Nada possui essa virtude peculiar de me trazer de volta, e quando você me vir assim, distante, saiba que estou centrado em mim
como a árvore que produz o próprio alimento (ou talvez um cachorro atrás do
próprio rabo); o Nada me protege e me afasta. As ondas do mar soam distantes
agora, um fantasma melancólico assovia uma canção, não há mais tumultos ou
pessoas: mesmo no epicentro do furacão, estou calmo e distante. Eis o que sou,
um caos calmo.
Sobre a Arte (VII e VIII)
VII (Pina)
A dança como uma obsessão
Os movimentos são poesia para o olhar
E um desafio para as palavras
Que, não servindo para medir, descrever ou narrar,
Contentam-se com a medíocre tarefa de exaltar,
Elogiar o encanto dos corpos.
Mas o olho com a Câmera vai além
Propõe um casamento nunca tentado
Entre a paixão e os fotogramas,
Entre os sonâmbulos no palco e os sonhadores ante a tela.
Eu apenas observo,
E por um instante imagino estar encarando nos olhos
A mulher que criava tempestades.
Apenas uma ilusão,
Com qualquer casamento,
Como qualquer paixão.
sábado, 7 de julho de 2012
Essas violetas
As flores de outubro são as delicadas violetas
Para as quais ninguém olha,
Ninguém posa, ninguém pergunta
Ninguém há que note seus olhares inquietos
Suas vozes dissonantes
Seus desejos ocultos, sua euforia discreta.
São essas as flores que enfeitam as janelas
De quem vive no escuro
Na solidão de um quarto nos fundos,
Separados da leve alegria das
Crianças na sala de estar;
Assim são as flores de outubro e
Eu só queria te falar de como é
Ter estórias e não ter ouvintes;
Ser para poucos e desejar a todos;
Mas você não pode ouvir
Esses lamentos lilases
Essas rosas que não deram certo
Esse amor que é desmedido e manchado,
Essa dor que recusa a exatidão dos termos
E que nega até mesmo ser contada nos mais lindos versos.
Auge
A mulher está perfeita.
Morto,
Seu corpo mostra um sorriso de satisfação,
A ilusão de uma necessidade grega
Flui pelas dobras de sua toga,
Nus, seus pés
Parecem nos dizer:
Fomos tão longe, é o fim.
Cada criança morta, uma serpente branca
Em volta de cada
Vasilha de leite, agora vazia.
Ela abraçou
Todas em seu seio como pétalas
De uma rosa que se fecha quando o jardim
Se espessa e odores sangram
Da garganta profunda e doce de uma flor noturna.
A lua não tem nada que estar triste,
Espiando tudo de seu capuz de osso.
Ela já está acostumada a isso.
Seu lado negro avança e draga.
(Sylvia Plath)
Morto,
Seu corpo mostra um sorriso de satisfação,
A ilusão de uma necessidade grega
Flui pelas dobras de sua toga,
Nus, seus pés
Parecem nos dizer:
Fomos tão longe, é o fim.
Cada criança morta, uma serpente branca
Em volta de cada
Vasilha de leite, agora vazia.
Ela abraçou
Todas em seu seio como pétalas
De uma rosa que se fecha quando o jardim
Se espessa e odores sangram
Da garganta profunda e doce de uma flor noturna.
A lua não tem nada que estar triste,
Espiando tudo de seu capuz de osso.
Ela já está acostumada a isso.
Seu lado negro avança e draga.
(Sylvia Plath)
terça-feira, 29 de maio de 2012
Um Lugar Legal para Estar (When the Music Stops)
Ela me disse casualmente
Que havia notado a mancha de sangue na minha camisa
Disse a ela: “Não se preocupe, não é nada”
Ela respondeu “Eu não to preocupada”
Resmunguei: “É melhor assim”
Achei que podia me divertir um pouco
Assistindo uma luta de boxe na TV
Tirei a camisa manchada de sangue e joguei no tanque
Ela vestiu uma microssaia e saiu para a rua
Abri uma cerveja e resolvi esperar
Os ponteiros do relógio eram guilhotinas no meu pescoço
Quando ela voltou, não falei nada
Fiquei no escuro vendo ela se mexer
Deixando cair sua saia
No caminho pro banheiro
Deixou a luz acesa e ouvi o barulho
Não vou usar de eufemismos nesse momento
Pra dizer o que ela estava fazendo
Somos um casal com tempo de serviço
Nossa indiferença mútua provava isso
Meu enorme peso no sofá atestava isso
Ela acendeu um cigarro no escuro da sala
E a chama do isqueiro fez com que ela me notasse
“é mais difícil do que você imagina”, ela disse
E o seu desprezo me acertou como um blefe de pôquer
Ainda ficou um tempo olhando pra mim
Antes de vencer o orgulho e perguntar
“O que era a mancha na sua camisa?”
“Já disse. Não é nada. Não precisa se preocupar”
Ela soltou um foda-se e foi pro quarto,
Deitou e ficou fumando olhando o teto
Levantei e fui andando até o banheiro
Cambaleei e tive que me apoiar na porta
Abri o armário e peguei o mercúrio-cromo
Ou você não sabia que a maioria das histórias de amor
Terminam com alguém limpando as feridas?
- Mário Bortolotto
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Mais duas citações.
"Só utiliza a razão quem nela incorpora suas paixões" (Raduan Nassar, "Um Copo de Cólera").
"Essas botas foram feitas para pisar. É tudo que sabem fazer. Um dia essas botas irão pisar sobre você" ("These Boots Were Made for Walking", Lee Hazlewood).
Nunca fez tanto sentido.
domingo, 27 de maio de 2012
Ode
Ora, e de que
adianta que eu me aproveite neste instante de pequenos eufemismos circulantes para
expressar este amor? Chegas até mim devastadora em teus saltos altos e olhos
arrebatadores e esperas comedimento de minha carne? És os últimos degraus da
escadaria que subo suplicante de joelhos, és minha derradeira parada, minha
última tentativa de ser santo. Nos desolados estaleiros da noite, canta o bardo
a canção que fiz para ti em desespero. Não fosse por ti, ainda estaria sóbrio,
esta e tantas outras noites. Não fosse por ti, seria apenas uma vela acesa, e
não centenas. Não fosse por ti, seria a morte a que tanto anseio e não esta vida, com
meu desejo resplandecendo na noite. Não sejamos hipócritas. Há santos que
morreram por motivos bem menos nobres e até hoje são lembrados. E só o que
importa é que agora aqui corre sangue e outros tantos fluídos que nem sei se
são meus. E desculpe por estar falando de fluídos em linhas que só deveriam
conter sentimentos, mas afinal creio que não sei separar as coisas como se
pertencessem a mundos diferentes. Tudo passa pelo sexo, pelo instinto e no fim
por fluídos trocados e celebrados em idas e vindas escaldantes. E de nada me
serve florir de atenuantes verbais estas indecências: é de seu corpo colado ao
meu, incendiando minhas entranhas, que preciso. E para o inferno com tudo
aquilo que é morno. Em minha cama entenderás que esta calma que vês só existe três
polegadas acima da pele.
sábado, 26 de maio de 2012
Se
Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filho!
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filho!
(Rudyard Kipling, tradução Guilherme de Almeida).
domingo, 20 de maio de 2012
Eu prometo contar tudo se você prometer não fugir assustada com o que ouvir.
Não ligo se você ficar assustada, mas não fuja.
Se eu te decepcionar, releve.
Se eu confessar um pecado, absolva-me.
Existem os crimes da alma e os crimes do amor, cometi-os aos montes
Sendo eu mesmo a unica vítima.
Não te peço que me proteja, muito menos que me entenda.
Só não fuja batendo a porta, pois precisaremos dela aberta para os dias que virão.
Não ligo se você ficar assustada, mas não fuja.
Se eu te decepcionar, releve.
Se eu confessar um pecado, absolva-me.
Existem os crimes da alma e os crimes do amor, cometi-os aos montes
Sendo eu mesmo a unica vítima.
Não te peço que me proteja, muito menos que me entenda.
Só não fuja batendo a porta, pois precisaremos dela aberta para os dias que virão.
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