sábado, 17 de maio de 2014
Trípitico
(Amélia Pais)
I
desamada
desarmada
vem o vento
vai-se o tempo
nem o tempo
nem o vento
dá o tempo
de sarar
de repente
vem o dia
chega a hora
borda a fora
a acostar
volta atrás ó cavaleiro
volta atrás se quer's teu bem
tua amada
tua armada
com o tempo
desarmada
traz também
II
o que se sente
entre o que se pensa e diz
o que se pensa
entre o que se sente e cala
o que se cala
entre o sentir e o ser
o que se diz
entre o que se ama e sonha
nós
no mais fundo de nós
nós perdidos
nós vazios
nós à margem.
III
Quem vai responder
o que não tem resposta
Quem vai falar
o que não tem palavra
Quem vai te achar
o que em nós esquece
Quem vai roer
o que em nós sufoca
Vem noite ou pranto ou dia ou vento
Quem quer que sejas que seja o novo
Abrindo o canto na carne clara
segunda-feira, 12 de maio de 2014
O Abismo que Cavaste com Teus Pés
"A Lonely Roman", Pavel Svedomsky
Porque o céu hoje cedo, silenciou, depois de uma madrugada
de trovões e muita água;
Porque todos os seres noturnos cessaram seus lamentos;
Porque perdeste tua medalha da sorte em meio à multidão
indiferente;
Porque nas águas do Atlântico aprendeste que o Mar é
insuperável;
Porque gemendo descobriste que amar é um verbo intransitivo;
E foi também gemendo que descobrira que há sempre um novo
amor;
Porque caminhando a estrada sempre parece mais longa,
enquanto
de tua cama parece a ti que não há estrada alguma;
Porque com Cioran percebeste que todos os seres são tristes;
E com Shakespeare repetiste que o Inferno está vazio e todos
os demônios estão aqui;
Porque desperdiçaste teus melhores dias crendo estar
enfermo;
Porque conheceste cedo o mistério divino e rechaçaste-o;
Porque não te apetece a cólera ou a fé;
Porque és tu, jovem Narciso, teu único algoz e enfermeiro;
Porque as pedras rolam em teu peito;
Porque tens consciência daquilo que deveríamos ser
ignorantes;
Por tudo isso, deves deixar de contemplar a este abismo
interior,
E reparar na inefável sutileza da canção que apenas tu és
capaz de ouvir.
Agora dorme, pois que essa tristeza é passageira.
domingo, 11 de maio de 2014
Wallace Stevens
Song
There are great things doing
In the world,
Little rabbit.
There is a damsel,
Sweeter than the sound of the willow,
Dearer than the shallow water
Flowing over pebbles.
Of a sunday,
She wears a long coat,
with twelve buttons on it.
Tell that to your mother.
Canção
Há coisas esplêndidas acontecendo
No mundo,
Coelhinho.
Há uma donzela,
Mais doce que o som do salgueiro,
Mais suave que água rasa,
Correndo sobre seixos.
No domingo,
Ela veste um casaco longo,
Ela veste um casaco longo,
Com doze botões.
Conta isso a tua mãe.
sexta-feira, 9 de maio de 2014
O raciocínio é reto e tenta seguir
a precisão cínica das formas geométricas
em seu percurso, é atingido no peito
pela insensatez curvilínea e imprevisível das paixões.
A ferida, quase fatal, não mata, mas também
não torna mais forte.
O Amor é um predador.
E a Razão, sua presa predileta.
Há quem o coloque num pedestal, e
não são poucos. Não o trate desta maneira.
O seu amor é o que há de melhor
e pior em você
tal qual seu ódio, e seu raciocínio
não pode te salvar de nenhum dos dois.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
A Última Declaração
Eu quase te amei. Faltou pouco.
Foi por bem pouco, na verdade. Talvez tenha sido até por acaso que não tenha te
amado. Se eu tivesse segurado sua mão enquanto você entrava naquele táxi,
poderia ter sido, mas... o motorista me perguntou algo, eu desviei o olhar,
você fechou a porta e partiu, sem que eu tivesse te amado. Foi quase, mas eu
não te amei. No máximo, podemos dizer que me entreguei sem medo e com ardor,
com a fúria incontrolável de uma manada de búfalos, com um prazer quase
assassino, mas não te amei. Invadi o templo do seu corpo com sede e fome de
tudo que era você, lancei promessas desesperadas ao seu ouvido, mas não pude
dizer “eu te amo”, pois que eu não te amava, mas foi quase. Havia algo. Fui
perverso e santo a um só tempo, reconheci em ti o que reconhecia de melhor e de
pior em mim, mas não te amei. Existe algo nas estórias de amor que eles contam,
uma pedra fundamental que une definitivamente os seres que amam, e este algo
não nos visitou todo aquele tempo que estivemos juntos. E esse desconhecido
ente surgiria fatalmente em algum momento se permitíssemos que esse tempo
viesse, mas, quando você disse que iria embora, eu sabia que aquilo era
definitivo. Furtivamente, quis que você ficasse. Talvez fosse o tempo de mais
um drink. Ou um café. A gente poderia ter escutado junto sua banda preferida e
elegeríamos uma musica para ser a “nossa música”; mas você queria ir. E eu não
segurei sua mão. E eu não te amei, de verdade. Não sei se foi melhor assim. Eu
ainda não sei o que você queria. Eu não me importo se você saiu satisfeita. Porque
não houve nada no mundo que fosse mais perfeito. Apenas posso imaginar que
algum dia, em algum momento de distração, eu acabaria por te amar. E eu cairia como
caiu o mais nobre dos anjos. Mas eu quase te amei. Ali. Em algum lugar entre o
gozo e a exaustão, eu olhei dentro de teus olhos. E vi tudo aquilo que eu
desejava, tudo que precisava, mas não vi o amor. Mas você estava tão bonita que
poderia ser minha última visão antes da morte. Sem orações, sem vida passando
diante dos olhos, sem amor, sem nada. Apenas você, fugaz, trêmula, subterrânea,
diante dos meus olhos.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Tudo, que não seja tédio
"Waiting for a friend", Malcolm Liepke
Em tempos como este
você apenas deseja qualquer coisa, e uma
dose forte desta coisa
talvez uma tragédia que
te arremesse pra longe de sua zona de conforto
como um caminhão que te acerta
enquanto você caminha tranquilamente pela calçada.
Talvez seja uma ligação
uma notícia ruim, um segredo revelado
coisas frágeis que se quebrem
no momento oportuno
apenas qualquer coisa
que te faça quebrar uma promessa ou
trair alguém que você ama, até mesmo partir
para nunca mais voltar, um lugar distante
onde você nunca mais tenha que mentir.
Em tempos como este
não lhe é mais permitido deitar-se
com as mãos sob a cabeça e os olhos
cerrados contemplando seu
nada interior sua chaga seu medo
apenas qualquer coisa
que te faça levantar e brigar
por algo que seja impossível
pode ser o amor daquela mulher ou talvez
uma noite de sono tranquilo.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Fim de Festa
Meu amor por você chegou ao fim
É tudo que tenho a dizer
Também não precisa sair assim
Espere o dia amanhecer.
(Itamar Assumpção)
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Homesick Blues
O quão triste é alguém sentir falta dos bares que frequentava?
A nostalgia é um senhora que se masturba pensando nos piores amantes que já teve.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Estar Sozinho
Estar Sozinho
(Charles Bukowski)
Quando você pensa em quantas vezes
tudo dá errado
você começa a olhar para as paredes
e permanece lá dentro
porque as ruas são o
mesmo filme antigo
e todos os heróis acabam como o
velho herói do filme:
bunda gorda, cara gorda e o cérebro
de um lagarto.
Não é de admirar que
um homem sábio irá
escalar uma montanha de 10.000 pés
e sentar-se lá esperando
e vivendo de baga de arbusto
em vez de apostar em duas covinhas dos joelhos
que certamente não vão durar a vida inteira
e 2 em cada 3 vezes
não sobreviverá por uma noite.
Montanhas são difíceis de escalar.
as paredes são suas amigas.
conheça suas paredes.
O que eles nos deram lá fora
é algo que mesmo as crianças
se cansaram.
Permaneça com suas paredes,
elas são seu amor mais verdadeiro.
Construa onde ninguém constrói.
É o último caminho que resta.
(Imagem: Peter Lorre as Raskolnikov, "Crime e Castigo", de Lusha Nelson)
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
"Ele nada compreendia desse insondável mistério que é a existência humana, individual ou coletiva; que escapava ao seu entendimento a mais ínfima malha desse inextricável e infinito emaranhado destes milhões de destinos individuais que se entrecruzam e se separam por artes do acaso; que o mundo provavelmente não tem, a rigor, nenhum sentido (e aqui reproduzia, de memória, confusa citação) 'porque, possivelmente, tudo que existe é fragmentado, incompleto, abortado; eventos com término mas sem começo; outros com apenas o segmento intermediário; coisas que tem a parte anterior ou a posterior, mas não ambas; e tudo isso boiando como num prato de sopa, non qual vez ou outra alguns fragmentos se juntam por acaso para formar um todo'; que somente a Razão alucinada pode pretender ser possível ordenar esse caos, descobrir causalidades nessa infinita cadeia de acidentes".
- Edmundo C. Coelho, "Crônica da Sociologia Assassinada ou Ao Mestre, com Carinho".
Raduan Nassar, Jorge Luis Borges, Baudelaire e, agora, Edmundo Campos, não deixando eu me sentir tão sozinho....
sábado, 25 de janeiro de 2014
Cigano*
Num outono qualquer, ele aprendeu a ler mãos. De
terceiros. Mas nada de linhas, eram as mãos seres autônomos, independentes do
resto do corpo, cheias de vida própria e desejos tão incompreensíveis quanto
reveladores. Os movimentos, a superfície da pele, os toques, a cor, o cheiro,
tudo nas mãos lhe surgia como uma ligação do indivíduo com o infinito. Haviam
mãos cansadas pelo labor diário que constrói a máquina; mãos furtivas que
perturbam a paz de quem se deixa tocar; as assassinas e as inquietas, que
determinam a danação de seus donos; mãos com estilo, belas como o olhar
misterioso dos gatos; Bastava olhar para dois amantes de mãos entrelaçadas e
saberia dizer quando se separariam. Podia ver alguém dedilhando uma guitarra e
saberia qual o blues mais adequado. Dependendo do modo como uma mão de dedos
longos e unhas vermelhas segurava um cigarro, poderia dizer se ela era feliz.
Leu as mãos de todos os seus amigos, e lhes trouxe boas novas. Leu as mãos de
empresários, e previu suas falências. Leu as mãos de loucas, dançarinas,
prostitutas e escritoras e se apaixonou por todas elas. Mas não podia ler as
próprias mãos. Tentou diversas manhãs, duzentas madrugadas, mas não conseguia.
Tentou ensinar seu dom a sua amante, mas tudo em vão. Uma noite, sentado à
beira-mar, com uma garrafa de vodka, passou quatro horas e vinte e três minutos
observando as próprias mãos, e só via marcas de cigarro, sinais de nascimento,
pontas de dedos amareladas e furos de agulha. Esvaziou a garrafa, e chorou.
Nunca mais souberam dele. Mas uma vez ou outra surgem estórias de um homem em
algum lugar, não se sabe se no Amazonas ou no Marrocos, capaz de beijar sua mão
como se adivinhasse um segredo.
*Republicado com alterações.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
"No more going to the darkside with your flying saucer eyes/No more falling down a wormhole that I have to pull you out/The wroggling, squiggling worm inside/Devours from the inside out/No more talk about the old days, it's time for something great/I want to get out and make it work/So many lies/So feel the love come off of them/And take me in your arms."
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Senso Comum
Assim choram os homens:
Escondidos
e as mãos encharcadas de lágrimas
são enxutas nos lençóis que contem
sobras de noites que ficaram para trás,
e que gritam como os internos de uma casa de custódia.
É de conhecimento geral:
não há desespero em vão, e depois da tempestade
sempre esperamos (...)
E esperamos.
Todos sabem – os pássaros não voam para o lado certo
por senso de direção:
- É instinto de sobrevivência.
R.
R.
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Minas
(Ana Martins Marques)
Se eu encostasse
meu ouvido
no seu peito
ouviria o tumulto
do mar
o alarido estridente
dos banhistas
cegos de sol
o baque
das ondas
quando despencam
na praia
Vem
escuta
no meu peito
o silêncio
elementar
dos metais
sábado, 18 de janeiro de 2014
Hotel das Estrelas
Algumas pessoas não percebem que
estavam perdidas até que estejam enfim trilhando o caminho correto. O contrário
também pode acontecer, e a descoberta raramente é indolor. Nenhum deles dois
esperava que aquela fosse uma noite comum, mas tampouco esperavam a madrugada
ardente e corrosiva que os consumiria num hotel barato onde encontrariam
redenção. Abrigo enfim dos perigos sobre os quais tanto falaram em suas
conversas que seguiam noite adentro à distância. Eles foram para o bar como
dois amigos que não se viam há tempos, ainda que no passado deles existisse uma
marca, uma pequena cicatriz deixada por um encontro que eles preferiram, mais
por receio que por educação, ignorar ao se abraçarem passados dois anos. Mas,
se fizeram isso pensando que seu encontro não reacenderia aquele fogo antigo, a
pequena chama que nasceu numa noite de ano-novo qualquer, enganaram-se
clamorosamente. Demorou pouco para que nem todas as cervejas geladas pudessem
baixar suas temperaturas corporais e que qualquer recato impedisse o tráfico de
olhares e toques furtivos de mãos e pernas que não tardariam a se transformar
em beijos. Digamos que tenha sido apenas tempo o suficiente para falarem das
desventuras que se abateram sobre ambos, algumas alegrias que vieram e pudessem
confirmar que ainda se alegravam na presença um do outro. Nada mais precisava
ser dito, apenas feito. E eles fizeram. Da melhor maneira, no pior hotel,
esquecendo seus pudores no bar recém-deixado e sujaram-se com cada gota que
pingava de seus corpos penetrando-se mutuamente, ela com sua língua na boca
dele, seus gemidos em seus ouvidos, suas unhas em sua carne e ele buscando à
vontade os orifícios dela que lhes dessem prazer, seu pau indo e vindo de sua
buceta úmida e quente, seus dedos procurando seu rabo e seus dentes marcando
seu pescoço tudo isso sob a luz das estrelas que teimavam em entrar pela janela
aberta junto com o vento, o único capaz de trazer algum resquício de frescor na
noite abafada naquele hotel e devorando-se pedaço por pedaço amanheceram enfim um
dia em chamas que se prolongou além do sol nascente.
O que veio depois, entretanto,
transformou esta noite em um sonho distante que por vezes parece não ter
acontecido. Aos poucos os amantes foram se descobrindo dois estranhos sem ter o
que compartilhar. Quando essa percepção abateu-se sobre os dois é difícil
precisar mas o fato é que eles não conseguiram mais se ver ou conversar como
antes. Ainda assim, algo permanecia grudada a ela feito um parasita a
roubar-lhe as energias, a lembrança dele e daquela noite sobreviveram de algum
modo nela, e se a mente não reconhecia naquele homem o mesmo que a desbravara
com doçura selvagem, seu corpo ressentia-se de sua ausência. Uma noite,
alucinada pela falta que aquele agora estranho fazia a ela, depois de masturbar-se
mais de uma vez sem conseguir criar uma imagem sequer dele, porém sabendo
exatamente em que pensava, ela saiu de casa. Acreditou estar sem rumo, mas em
algum momento de sua jornada sua consciência retornou e ela reconheceu o
trajeto que fazia: caminhava na direção daquele hotel. Subiu as escadas
enquanto um calafrio percorria sua espinha e sentia-se cada vez mais
lubrificada. Pediu à atendente o mesmo quarto e lá se deitou. A maneira como se
satisfez assustou-a, mas aquela seria sua primeira noite de sono tranquila
desde que ele se foi.
Ele, no entanto, não pareceu
sofrer do mesmo mal. Parecia indiferente à estranha distância que se pôs entre
os dois. Partiu de volta para sua cidade sem falar com ela. Lembrava daquela
noite sempre com um sorriso no rosto, mas curiosamente distinguia os
acontecimentos mais tórridos do hotel da mulher que sujeitou-se ativamente a
seu desejo, que cavalgou-lhe impetuosamente e que colhera em sua boca o seu
fruto. Em suma, lembrava-se da canção, mas ignorava a cantora. Recebeu em seu
e-mail os detalhes da noite em que ela sozinha havia ido até o hotel das
estrelas. Tratou o fato como uma leve excentricidade, sem maior peso e sem se
dar conta do desespero que se abatia sobre ela. O tempo passou e a memória
daquela noite se esvaia de sua mente. Demorou um ano até que voltasse à cidade.
Ele já não era o mesmo, nem a cidade. Não se animava com a possibilidade de
reencontrar conhecidos, antigos casos, velhos lugares. Algum impulso o fez
ligar para ela – a velha convicção masculina de que ela sempre estará lá,
esperando-o. Ela disse que o encontraria, mas não sabia quando. Os dias se
passaram, o momento em que ele partiria novamente se aproximava e ela não dava
sinais de que apareceria, e aquilo ia causando uma sensação estranha nele. A
cada noite, a lembrança dela se tornava mais nítida. Seu corpo, sua boca, suas
curvas, até mesmo sua voz. Não conseguia falar com ela. Solitário, ébrio, uma
noite procurou-a ativamente sem sucesso. Seu coração fazendo menção de saltar
de seu peito a qualquer instante. Uma saudade repentina de todos os lugares
pelos quais havia passado com ela. Passou pelos mesmos bares, pela mesma orla,
até se encontrar em frente ao hotel em que treparam pela última vez. Lembrou-se
do e-mail dela. Tentou lutar contra a força que o havia levado até ali, mas se
viu incapaz de resistir e em pouco tempo estava deitado sobre a cama e seus
lençóis suspeitos, no mesmo quarto em que ela estivera meses atrás e poderia
jurar que sentia seu cheiro. Não conseguia mover-se, nem mesmo para se
masturbar, ainda que as lembranças estivessem mais claras que nunca. Chorou
como há muito não fazia, copiosamente, digno de pena. Passou uma noite inteira
acordado. Pensava apenas na ironia perversa que subjazia à punição que recebia
graças a seu cinismo e descrença. Quando o sol entrou pela janela aberta,
encontrou-o estático, com certo sorriso triste a enfeitar-lhe a face.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Aos descuidados a flor da pele
Só não ando por aí carregando meu coração na mão
porque esqueceria-o na mesa do bar.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
Para o Ano Novo
Precisava de algum dinheiro para
ter paz. Garantir-me o café, os cigarros, as cervejas e as entradas para o
cinema nos dias que viriam. Foi com isso em mente que me preparei para a virada
do ano. Minha camisa azul displicentemente abotoada sobre meu corpo, a calça
branca, colar no pescoço, um digno filho de Iemanjá, parti para a praia naquele
dia 31. Eu fui para a praia porque precisava de algum dinheiro para ter paz.
Para enviar as cartas que escrevi com tanto esforço e sinceridade sobre-humana.
A garrafa de vinho pela metade foi enfim esvaziada porque eu não precisava
estar sóbrio para o que iria fazer. O vinho é um licor que só pode ser
apreciado se você se deixa possuir por ele. Permiti. E Decidi que iria
caminhando até a praia. Mentira. Eu não tinha dinheiro. Era por isso que estava
indo. Para colocar em prática o desonesto e mau-caráter plano. No caminho, nas
ruas, toda a euforia ritualística do ano-novo. Todos pareciam felizes, menos eu,
mas é claro que as aparências enganam. Eu estava apenas melancólico. Porque fim
de ano é assim mesmo. Lembrava que há algum tempo que não me apaixonava, e isso
definitivamente não era bom. Se cicatrizes são boas lembranças, feridas abertas
não são boa coisa, são piadas que perdem a graça muito fácil. Somente as
paixões me fazem parar de cutucar essas feridas do amor. E eu não tinha
nenhuma. Falo de paixões, não de feridas. Mas essa cidade possui atalhos, eu já
conheço alguns deles, e antes que essas dúbias reflexões pudessem ameaçar
minhas intenções, como num passe de mágica, tenho a minha frente o mar, seus
perigos. Vejo-o de cima, e sinto-me altivo. Quantas vezes já o desafiei? Até
aqui, venci. Não o temo, ainda que o venere. O mar não é Deus. Vejo também as
pessoas. Milhares delas. Dezenas de milhares. Centenas de milhares. Ainda falta
algum tempo para a hora certa. Sento-me à beira do mar infinito. Retiro o colar
do meu pescoço e entrego em
oferenda. Brinco com as ondas que chegam até meus pés. Estou
vestido com a graça formidável dos indecisos. Será que devo. Claro que devo.
Estou jogando, entenda. É preciso arriscar. E eu necessito de dinheiro. Para
ter paz. Acendo um cigarro – ele sempre está, e sempre estará nessas minhas
histórias – e percebo alguém se aproximando. Uma pessoa bem-vestida, cores
diversas nos tecidos que vestem seu corpo e nas tatuagens que vestem sua pele.
Ela me pede um cigarro. Acende. Com toda a sensualidade com que um cigarro
merece ser aceso, nenhum gesto desperdiçado, mãos, boca, olhos, até mesmo os
cabelos conspirando para uma fotografia perfeita da beleza esfumaçada de um
fumante. “O mar não se acalma, mesmo à noite”. Pronuncia essas palavras e sai.
Fumo meu cigarro; quase disse que essa agitação do mar é apenas na superfície,
talvez ele tente nos intimidar para não penetrarmos nele, mas sob essas ondas
está uma paz inigualável e é para lá que quero ir quando morrer. São quase
meia-noite. Quando chegar a hora, fogos de artifício agitarão o céu, e todas
essas pessoas que vieram de longe para vê-los, estarão com seus olhos vidrados
no céu, e bolsas e carteiras estarão à mercê de mãos habilidosas. E eu as
tenho. Ela dizia que eu tinha mãos habilidosas. Mas agora que minhas mãos já
não servem para moldá-la em prazer, como quem toca a argila molhada, deixo para
utilizá-las em outros movimentos sutis, como bater bolsos alheios. Os fogos
estouram na grande noite do avô ancestral, eu me movo como um sussurro por
entre os distraídos, levando o que consigo. Mas havia alguém que não olhava o
céu. Alguém entediado. Detenho-me ante essa figura. Estou olhando fixo em seus
olhos, a desafio como desafio o mar. Sou beijado, sinto o gosto do cigarro que
presenteei em seus lábios.
É manhã, volto para minha casa
com tudo aquilo que precisava para minha paz: Dinheiro, promessas e um coração
deixado na areia da praia.
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