Você me diz que eu tenho que virar o disco (virar o disco: expressão arcaica que designa uma maneira obsoleta de escutar musica, em que a ordem das canções importava e o som era interrompido pelo barulho suave da agulha se afastando do vinil, e era preciso ir até o aparelho e DELICADAMENTE recolocá-lo para tocar, um certo ritual de materialidade que aos poucos se esvai...). Que eu preciso mudar essa cara. Parar com esse discurso. Você tem razão. Diz que eu sempre estou triste quando te encontro. É verdade. Que é melhor ser feliz do que triste (ah, baby, de felicidade não entendo, apenas sei de prazeres saciados) e que eu devo voltar, eu sempre sumo quando estou triste. E se eu disser que amo minhas amizades quando me deixam estar tristes sem que me cobrem pelo meu sumiço? Que eu peço que entendam esse gesto salutar e voluntário de exílio? Você me diz, não sem alguma razão, que preciso deixar de lado o que me faz triste, que a vida é mais que isso. Querida, e se eu te disser que sei disso, mas que temo quem serei caso abandone tudo isso? Não sei quem eu seria se eu simplesmente esquecesse. Eu poderia resolver ser feliz e parar que procurar aquilo que hoje não passa de uma possibilidade remota. Mas eu persigo aquilo que parece estar cada vez mais longe, e se eu abandonasse a busca, não sei o que restaria de mim, seria outra pessoa, um alguém que, de longe, me parece frio e sem vida. Quem sabe eu congele nesse cômodo frio tentando abrir as portas dos fundos – trancadas só pra mim – enquanto a porta da frente está aberta. Pode ser. Mas eu só sei ser assim. Talvez a felicidade realmente não esteja entre as minhas prioridades. Como uma amiga me disse, talvez os únicos problemas que existem são aqueles que nós procuramos. Talvez. E talvez – apenas talvez – eu tenha me enamorado de alguns de meus distúrbios de personalidade e de sono. Talvez eu fique com esta sede jamais saciada. Prefiro encarar esta sede, esta fome, conviver com elas a abandoná-las. Continuar com esta velha quimera, querer o que não é pra mim. Além do mais, me importo com meus fantasmas, veja só. Tenho medo de deixá-los pra trás, medo que se sintam sozinhos. Tão solitários quanto eu.
segunda-feira, 28 de março de 2011
sexta-feira, 25 de março de 2011
Pois ele buscava o mar
Pois ele buscava o mar. Enquanto cruzava longas distâncias sob o sol de outubro e olhares curiosos, vislumbrava em delírios o momento em que encontraria aquilo que ele só entendia como sendo uma rota de fuga definitiva e adequada para longe dos mares revoltos de sua consciência turva, ou talvez como seu ondulante leito de morte, de qualquer modo é ele, o Oceano sua perfeita imagem da beleza e eternidade, altar ou túmulo, a um só instante. Um instante líquido, agitado e profundo, como tudo em sua vida, sua tristeza, amores e gozos, todos líquidos, agitados e profundos.
Seus dedos dos pés, havendo recém-tocado a areia, contraíram-se de maneira angustiada diante da soberania vasta do mar, enquanto seus olhos se fechavam em reverência. E de olhos fechados, subitamente o mar se calou, sua violência se interrompendo num silêncio que fere. A brutal mudez oceânica, como duzentos cadáveres cobrindo uma planície descampada, como um grito sufocado no meio da madrugada, como uma porta deixada aberta por quem acabou de partir.
Frio como um infindável esquife de gelo.
Em meio a soluços e lágrimas, ele pronunciou uma oração que sequer compreendia. Não é de nossa natureza se agarrar ao mistério quando tudo que é óbvio não parece mais surpreender? Ele acreditava que sim, e foi por isso que naquela noite, enquanto crianças nasciam, bêbados se perdiam voltando para casa, casais se beijavam e toda a dor do universo parecia ser curada com um simples sax jazzístico, ele se atirou ao mar silencioso em comunhão com a única coisa que, supunha ele, pudesse afogar sua solidão, infinita,
A lua assassina escondeu sua face esta noite.
Certas tristezas não devem ser testemunhadas nem mesmo por uma divindade tão antiga como Selene.
quinta-feira, 24 de março de 2011
sexta-feira, 4 de março de 2011
Pequeno poema didático
(Mário Quintana)
O tempo é indivisível. Dize,
Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vário.
A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconseqüente conversa.
Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre...
Todas as horas são horas extremas...
E todos os encontros são adeuses!
O tempo é indivisível. Dize,
Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vário.
A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconseqüente conversa.
Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre...
Todas as horas são horas extremas...
E todos os encontros são adeuses!
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
O excesso de luz que sempre cega
Nos lugares escuros que não precisam de luz, onde a luz seria uma mentira, dando relevo excessivo ao que melhor se compreende quando mantido invisível, é possível resistir ao puxão do Tempo. O corpo envelhece, morre, mas a mente é livre. Se o corpo é pessoal, a mente é transpessoal, sua amplitude não é limitada pela ação nem pelo desejo. Sua amplitude não é limitada pela identidade.
Preciso dos lugares escuros pra me livrar do senso comum. Para ultrapassar o presunçoso círculo da luz elétrica que supõe iluminar o mundo.
(Jeannete Winterson - Arte & Mentiras)
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Áspero; direto ao ponto.
"Prova minha boca em teu ouvido"
Prova a realidade se desmanchando
Em correntes de sensações infinitesimais
Prova meu engano contra tua certeza
Minha chaga contra teu peito
Prova meu tormento em tua paz
Deixa-me
Provar a crueza do teu corpo.
Prova a realidade se desmanchando
Em correntes de sensações infinitesimais
Prova meu engano contra tua certeza
Minha chaga contra teu peito
Prova meu tormento em tua paz
Deixa-me
Provar a crueza do teu corpo.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Provaremos as ilhas e o mar
sei que em alguma noite
em algum quarto
logo
meus dedos abrirão
caminho
através
de cabelos limpos e
macios
canções como as que nenhuma rádio
toca
toda a tristeza, escarnecendo
em correnteza.
(Charles Bukowski)
em algum quarto
logo
meus dedos abrirão
caminho
através
de cabelos limpos e
macios
canções como as que nenhuma rádio
toca
toda a tristeza, escarnecendo
em correnteza.
(Charles Bukowski)
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Perdas e retratos
Não sou do tipo que põe suas lembranças em altares; Tão pouco minhas cicatrizes ficam expostas. E, embora meus erros fiquem claros à luz do dia, é a noite que revela o que tenho de melhor e de pior. É quando aspiro a fumaça, lanço-a pra dentro do copo de whisky e trago de volta. É quando me perco em meus próprios gestos gentis. E colho os frutos que já nascem apodrecidos destas escolhas erradas. E eu sei que não há virtude minha que seja capaz de reparar tamanho estrago. Então baixo as persianas, me recolho a uma trégua inevitável. Cuido de minhas feridas com poesia, filmes e musica, e quando escuto “Don’t let it bring you down”, mobilizo minhas armas não para tentar voltar atrás, mas para demonstrar o quanto sinto. E, se houver quebrado algo, recolherei os cacos. De minhas perdas, não faço troféus. De minhas perdas, que já são tantas, não tenho sequer retratos.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Lisa tenta ser boa
O inverno lhe dá asas, ela me diz, me encarando com olhos supersticiosos que eu não sei se verei em outro lugar me diz que chegará o dia em que minhas preocupações não passarão de distrações infantis daquilo que realmente importa e que o futuro não estará permanentemente sob o julgo desses erros cotidianos, e eu claro meneio com a cabeça sugerindo um entendimento que é tudo menos sabedoria, eu que cruzo insinuantes e intermináveis desertos em minha mente até no ato banal de atravessar uma rua. Tenta ser boa, me olhando com olhos sensuais e acariciando meus cabelos contando das viagens que ainda serão feitas sem o peso enorme da dúvida, da descrença, apenas suaves deslocamentos entre um sonho e outro tendo como porto seguro uma cama ao retornar da longa jornada, enquanto eu de olhos fechados visualizo uma segurança nunca imaginada, pretendida ou plenamente aceita nos dias ferozes de verão desta cidade em chamas. Tenta ser boa, beijando o canto de meus lábios sussurrando qualquer coisa sobre minha força interior, essa desconhecida, meu talento, esse monstro, sobre as possibilidades de quietude da maneira que eu necessito, conquistando pouco a pouco, grão por grão, a serenidade que persigo e eu só faço um esforço pra deixar de lado esse sorriso cínico e concordo com essas palavras que só podem ser de um anjo que não conhece a imundice e o caos ou que talvez conheça, mas que tenha passado por eles com a graça de quem usa uma coroa de plumas nos arranha-céus mais altos da beleza e imaginação. Ela tenta ser boa e me transmitir essa bondade que não parece real, muito menos humana, e minhas lágrimas querem dizer que eu estou tentando -
garota, estou tentando acreditar que existe algo para além desse verão que não seja a danação eterna, talvez esse inverno aconchegante que te pinta tão belas asas que me acolhem quando estou triste.
sábado, 8 de janeiro de 2011
Araguari II (Meus Dias de Vândalo)
(Jair Naves)
Como eu me defendo desse sentimento de inadequação
Que me destrói por dentro, pro qual eu não vejo explicação?
Bandeira a meio mastro, um afago áspero, a voz do cantor
Eu criei um certo faro para esse tipo de enganador
(Graças a você)
Ladeira abaixo, assim foi dito
uma obra-prima de eufemismo
para as dores da inaptidão,
para o sufocante calor da afobação
Ninguém imagina o que eu enfrentei
o quanto doeu, o quanto eu rezei
minha reza de ateu
num desespero que eu nunca me atrevo a demonstrar
Bêbada e vingativa,
o amor como eu o conhecia
de peito estufado, cheia de si
cantando em copos por aí
na madrugada eterna e ardente
que te deixou toda em carne-viva
Uma adoração inconcebível (em mim você devia confiar)
todo o amor que me é possível (eu vejo tanto de mim mesma em você)
recolhido, quieto, ensimesmado
meu refém conformado e imperturbável
na madrugada eterna e ardente
que me deixou todo em carne-viva
Agora, convenhamos: eu nunca me expus tanto, você nem pra impedir
Com todo esse alvoroço, eu só engoli meu almoço, não senti gosto algum
A torneira que eu esqueci aberta não tardou a inundar todo o prédio
mas eu sobrevivi, eu sobrevivi
O tempo que a gente passou aqui morando de favor
nos tornou parte da mobília sem valor
na percepção pobre e turva daquele que nos abrigou
E foi nesse corredor que eu vi o fantasma de um senhor
e de um labrador
magro, manco e ameaçador
Eu é que não vou me meter com esses dois
Nem queira saber o que eu ambiciono,
o que me mantém vivo, porque eu não cedo ao sono
Eu te aconselho: nem queira saber
Assim que os meus dias de vândalo terminarem,
eu sei que me levarão pro céu
E farão com que eu narre os meus escândalos
sem que eu me gabe,
com o constrangimento abatido de um réu
Talvez fosse preferível
que eu nunca tivesse saído
de onde eu nasci, de Araguari
Como eu me defendo desse sentimento de inadequação
Que me destrói por dentro, pro qual eu não vejo explicação?
Bandeira a meio mastro, um afago áspero, a voz do cantor
Eu criei um certo faro para esse tipo de enganador
(Graças a você)
Ladeira abaixo, assim foi dito
uma obra-prima de eufemismo
para as dores da inaptidão,
para o sufocante calor da afobação
Ninguém imagina o que eu enfrentei
o quanto doeu, o quanto eu rezei
minha reza de ateu
num desespero que eu nunca me atrevo a demonstrar
Bêbada e vingativa,
o amor como eu o conhecia
de peito estufado, cheia de si
cantando em copos por aí
na madrugada eterna e ardente
que te deixou toda em carne-viva
Uma adoração inconcebível (em mim você devia confiar)
todo o amor que me é possível (eu vejo tanto de mim mesma em você)
recolhido, quieto, ensimesmado
meu refém conformado e imperturbável
na madrugada eterna e ardente
que me deixou todo em carne-viva
Agora, convenhamos: eu nunca me expus tanto, você nem pra impedir
Com todo esse alvoroço, eu só engoli meu almoço, não senti gosto algum
A torneira que eu esqueci aberta não tardou a inundar todo o prédio
mas eu sobrevivi, eu sobrevivi
O tempo que a gente passou aqui morando de favor
nos tornou parte da mobília sem valor
na percepção pobre e turva daquele que nos abrigou
E foi nesse corredor que eu vi o fantasma de um senhor
e de um labrador
magro, manco e ameaçador
Eu é que não vou me meter com esses dois
Nem queira saber o que eu ambiciono,
o que me mantém vivo, porque eu não cedo ao sono
Eu te aconselho: nem queira saber
Assim que os meus dias de vândalo terminarem,
eu sei que me levarão pro céu
E farão com que eu narre os meus escândalos
sem que eu me gabe,
com o constrangimento abatido de um réu
Talvez fosse preferível
que eu nunca tivesse saído
de onde eu nasci, de Araguari
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Sobre as resoluções de ano novo
“Cuidado, anunciar seus planos é uma boa maneira de fazer Deus dar risada”.
E tudo em paz no inferno.
E tudo em paz no inferno.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Index Res Prohibitorum
Minha pequena coleção de objetos vivos:
Um armário que uiva durante a noite;
Uma gaveta cheia de memórias;
Um cinzeiro que me repreende
(porque fumo demais);
Uma cama cheia de dores na coluna
(pois que não saio de cima dela);
Uma gaita que chora notas tristes;
Minhas chaves que se escondem;
Livros que são mais que bons amigos;
Cartas que escrevi, não mandei e não param de falar,
Declamando e repetindo seu conteúdo
“ela teria gostado de receber isso”, me dizem.
E falam, falam, falam.
Retratos que me observam, e, acima de tudo,
Um telefone o tempo inteiro mudo, mudo, mudo.
Está tudo quase certo: Semana que vem, me mudo.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Changes
Acontece que esse fim de ano tem me fodido mesmo. Não sei nem mais o que é. Só sei que, seja lá o que for, foi se acumulando. E agora, no momento em que preciso fazer algumas mudanças realmente significativas na minha vida, não tenho tempo, preciso terminar este trabalho, o prazo está se esgotando e eu não tenho a menor vontade de terminar algo que não estou gostando. Me acostumei a não levar a frente projetos naufragados. Nunca tive vocação pra capitão, nunca afundarei junto com o navio, meu papel desde que nasci é de afundar embarcações. E agora vivo um paradoxo, porque basicamente todos os planos que venho fazendo dependem essencialmente de concluir um plano mal-sucedido. Quero sair e conhecer e sentir, mas não tenho tempo. Quero me deitar, beber, sonhar, e não tenho tempo. Não tenho tempo nem pra ficar em casa, nem casa tenho. Deveria ter um só pensamento em minha cabeça, mas tenho 1.750 planos prontos para serem colocados em prática. Isso não vai levar a nada, não é mesmo? Eu sei. Resolução. Reconhecimento. Perseverança. Palavras estranhas, que vou aos poucos buscando encaixar em meu vocabulário tão pobre, tão carente. Fica na cabeça uma frase que serve de epígrafe no livro do Saulo: “É muito perigoso aplicar à conduta idéias literárias” (não lembro de quem é, neste momento). É mesmo. Muito perigoso.
Ana C. César, me salva.
CASABLANCA
“Te acalma, minha loucura!
Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!
Este som de serra de afiar facas
Não chegará nem perto de teu canteiro de taquicardias...
Estas molas a gemer no quarto ao lado
Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia
O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente ao cinema...
As chaminés espumam pros meus olhos
As hélices do adeus despertam pros meus olhos
Os tamancos e os sinos me acordam depressa na
Madrugada feita de binóculos de gávea
E chuveirinhos de bidê que escuto rígida nos lençóis de pano.”
sábado, 4 de dezembro de 2010
My Bloody Valentine
“Ter segurado você em meus braços agora soou como ouvir uma melodia que foi esquecida através dos tempos; foi como agarrar com mãos firmes não você, mas sua essência; como ter chegado enfim a algum lugar depois de ter os pés sangrando por tanto caminhar a esmo. Eu sei que o caminho que nos trouxe até aqui foi complicado, perdemos muitas coisas, desperdiçamos outras tantas, mas foi o que escolhemos, queimamos os remos e nos colocamos conscientemente à deriva, então agora será apenas isso, minhas mãos em volta da sua cintura, o sabor dos seus lábios mornos tomando conta dos meus, seus cabelos molhados e um distante sentimento de desaparecimento. Nenhuma recompensa além deste vazio, nenhuma sensação além dessas dores excruciantes: A sua, física, letal, queimando em seu abdômen e esvaziando sua mente de qualquer pensamento que não seja – dor, dor, dor; A minha, uma dor no peito, uma angústia sem fim, a incapacidade de pensar em qualquer além de tudo que fizemos, uma dor sem marcas no corpo, mas nem por isso menos real que a tua. Estamos os dois morrendo aqui, cada um a sua maneira, minha doce delinqüente. Não pense que é mais fácil pra mim, nunca é”.
Ele finaliza este bilhete. Ajoelha-se ao lado dela, beija-lhe os lábios mais uma vez – ele faria isso por toda a eternidade, essa é a verdade – e deixa o pedaço de papel em cima dela.
Ela, que agoniza no chão, emitindo os últimos suspiros a que até um cão tem direito, deitada num chão cheio de garrafas quebradas, poemas rabiscados, um cinzeiro lotado, um revólver ainda quente e uma camisinha usada, sinal de que a morte não era esperada, não ainda, mas não teve jeito.
Suas mãos e roupas manchadas com o sangue jovem dela, em seus ouvidos o barulho do disparo se misturam aos gemidos de minutos antes – é tudo tão confuso quanto só a vida real pode ser.
Ele não conseguiu pensar numa saída digna pra tudo isso, pra esse carrossel vil e violento em que entraram desde aquela noite em que se viram na galeria de arte, quando ele finalmente conheceu sua vítima.
E pela primeira vez pensou em sim como algoz. Não mais um mero profissional, mas desta vez um anjo da morte cumprindo desígnios muito maiores que suas forças.
Nem seu corpo esguio sob o dele, nem suas mãos delicadas procurando as partes mais sensíveis do corpo dele foram capazes de evitar isso.
Ele não a teria matado. Em outras circunstâncias. Nem mesmo quando ela permitiu que seu amante quebrasse três dentes dele com uma paulada certeira.
Nem mesmo quando ela zombou dele no dia em que se pau não queria trabalhar.
Nem mesmo quando ela o fez esperar três horas na chuva, no território de seu inimigo, correndo o risco de uma emboscada a qualquer momento.
Mas era uma garota que vivia em busca de limites perigosos. E ela tinha mexido com as pessoas erradas dessa vez.
Nem mesmo ela, com suas pernas lascivas, seus olhos verdes fatais e seus sorriso de ninfa.
Para ele, um dos trabalhos mais árduos a que foi submetido, mas ainda assim um trabalho. Uma missão.
Pensou no tamanho de sua covardia.
Um homem impedido de proteger a quem ama é uma figura digna de pena.
Só lhe resta agora limpar tudo, talvez beijar uma vez mais aqueles lábios, e recolher todos os cacos do chão.
Cacos de dentro, e de fora.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Whitman
Eu me contradigo?
Muito bem, então eu me contradigo
(Sou grande, eu contenho multidões)
- Walt Whitman, "Song of myself"
Muito bem, então eu me contradigo
(Sou grande, eu contenho multidões)
- Walt Whitman, "Song of myself"
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
E La Nave Va
Talvez ainda caiba um pouco de vida
Neste corpo embalsamado.
Embalado por lembranças,
velejo por um mar sem ondas,
Sem vento, sem horizonte, sem volta;
Não será minha vontade a me conduzir
Quando eu decidir que é chegada a hora de zarpar.
Neste corpo embalsamado.
Embalado por lembranças,
velejo por um mar sem ondas,
Sem vento, sem horizonte, sem volta;
Não será minha vontade a me conduzir
Quando eu decidir que é chegada a hora de zarpar.
sábado, 27 de novembro de 2010
Marca
Aquela ali está marcada a ferro. Aquele outro, traz a marca do demônio, é melhor se manter afastado. Aquela traz a marca de três filhos e um casamento de conveniência. Vai poder te dizer algo sobre acordar 20 anos ao lado da mesma pessoa. Esse que amarra o cadarço com os pés sobre o banco e carrega uma marca que ganhou num sonho, dizem que é esquizofrênico. Aquela ali foi marcada pelos 20 e poucos rapazes que já passaram pela sua cama. Aquela de vestido azul traz a marca da cinta de seu pai no rosto, bem abaixo do olho direito, você vê? E tem aquela ali, que canta maravilhosamente desde que foi deixada pelo último amante, e agora vive por aí interpretando Chet Baker, que a marcou muito e na verdade foi o motivo de sua separação. Este que acabou de passar por você eu não sei, mas ele carrega uma .45 na cintura, o que por si é uma marca perigosa. Ela, de preto, traz a marca de dedos, unhas, dentes, todo tipo de perversão. É assim desde que se deitou com outra mulher, que lhe cortou com uma navalha. Aquele lá, não sei se é homem ou mulher ou anjo, é portador de uma marca triste e misteriosa. A mulher de jaqueta jeans está a mais de cinco anos tentando terminar seu livro, está marcada por um fracasso, semelhante ao meu e seu. Como você pode ver, todos têm uma marca, todos algum dia em algum momento tiveram suas individualidades transformadas e nem por isso desmoronaram. É aí que está o charme, o segredo, a única verdade, seja ela fruto do acaso, de intenção ou de mentiras, existe algo que nos define e que escapa ao entendimento, mas basta chegar um pouco mais perto para se ver. A marca. Do assombro. Em nossos corpos.
Assinar:
Postagens (Atom)
Deixa eu bagunçar você
Durmo na esperança de sonhar contigo Acordo somente pro desejo de te encontrar Menos que obsessivo, meu amor por você é abrigo ...
-
O lugar tinha a fachada de um tom azul-marinho, com alguns pequenos detalhes em branco e vermelho, e um nome escrito sobre a porta que eu nã...
-
Você sequer para pra pensar se deve ou não tentar resistir a certo sorriso. Como o dela, que dissipa certezas, que convida à proximidade ...
-
De algum jeito tudo que eu sou hoje tem a ver com o rock. De um jeito ou de outro, para o bem ou para o mal. Eu tava lá, com quinze anos, nu...
