Sinto sua mão ausente desembaraçar
meus cabelos e seu hálito quente sopra em minha nuca ainda que nunca estejas
realmente aqui. Seus seios roçam suavemente minhas costas nuas, seus arrepios
são meus arrepios eu pressinto o pior conforme sua mão desliza pelo meu ventre.
Mordes com força meu pescoço e sequer deixa a marca de teus dentes como
lembrança, maldita. Sinto seus dedos dentro de minhas calças e se minha mente
já não tolera o peso insuportável de sua ausência tirânica o que dizer de meus
nervos insistindo nestes impulsos de gozo e de aflição que me tomam ao lembrar
seu nome, da palidez de sua pele? “Tenho você sob minha pele” não é mais uma
metáfora quando cravas as unhas em minha virilha e sussurra meu nome, eu me
reviro na cama, solitário, indo e voltando, a respiração cada vez mais pesada
como se você segurasse meu pescoço forçando um orgasmo ainda mais intenso, uma
sensação violenta de morte – umedece os lençóis, transtorna minhas roupas,
sangra minha carne e você ainda assim não está aqui.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Aqueles que Rezam em Silêncio
Ele não sabe o que dizer para ela, e não é porque seja um animal que não possa verbalizar o que sente, ele apenas teme que exista algo de intrinsecamente maligno em suas palavras que possa, como uma bigorna desabando sobre uma fina superfície de gelo, fazer em pedaços tudo o que existe entre eles até então. Alguns homens já testemunharam horrores demais causados por eles enquanto tentavam fazer o melhor; outros de nós já fomos responsáveis por tanta dor e loucura de outras mulheres quando acreditávamos estar apenas nos divertindo que a mera presença da mulher que francamente amamos afugenta nossa coragem; outros ainda aprendem cedo demais que possuem uma dívida para com o gênero feminino que é irreparável e inegociável e só o que resta é se calar; outros são lutadores cansados que esperam sempre o último bater de porta e barulho de saltos na escada como se esperassem o golpe final que os derrubará; há homens que se debatem na cama e acordam com a sensação de terem falado durante o sono algo que não deveria ser dito, e se calam por medo que suas palavras desencadeiem a derradeira briga; em comum, nós homens apenas não nos acostumamos a falar de nossos sentimentos e tememos sempre expressar da forma errada um sentimento que é incomunicável, tentamos fazer com que o afeto seja sempre algo físico, que possa ser expresso por meio de toques, abraços apertados, beijos, lambidas, arrepios, ereções, empurrões desastrados, socos na parede, cortes dos copos que se quebram em nossas mãos, gritos primais que irradiam uma violência que já associamos à virilidade. Não se trata de covardia, mas, de uma limitação que desde cedo consideramos uma demência cognitiva incurável, que nos acompanhará de lar em lar, de copo em copo, de bar em bar, de relacionamento em relacionamento, nos lembrando que somos animais e que o mal mora dentro de nós não importa o quanto rezemos, o quanto fujamos. Homens se calam, alguns até reverenciam o silêncio, porque se sentem seguros assim. Aí mora o motivo de sua danação. O sentido trágico de suas vidas. Alguns, inconformados com seu destino, rebelam-se, gritam, quebram pratos, culpam a vítima, partem para o ataque, agridem, atacam com violência quem juraram proteger. Outros, mais resignados, acendem cigarros e cantarolam baixinho enquanto elas dormem. E pedem ao Deus que eles nem sabem se existe para que, quando acordem, aqueles anjos não façam perguntas, ou que aquele momento possa durar para sempre.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Cigarette in your Bed
"Strange stare
Strangled by the blade left
In your heart
I glide by
Slip a cigarette"
MBV
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Rotina
Ilustração: xkcd
Acordou, e ao perceber que ainda faltavam 20 minutos para o horário que havia decidido acordar, voltara a dormir. Teve um pesadelo envolvendo uma casa abandonada, ratos do tamanho de Poodles e Justin Bieber gritando histericamente. Acordou assustado e logo se deu conta de que não ouviu o despertador. Pensou se seria possível a voz estridente do astro teen num sonho abafar a musica dos Smiths no celular no mundo real. Deixou logo de lado essas elucubrações, levantou-se e preparou um café forte. Enquanto esperava ele ficar pronto, puxou o livro de Manuel Bandeira à procura de um poema e releu "Pneumotórax". Em seguida, "Poética", seu preferido. Pensou que deveria compartilhar ele com mais gente. Abriu o facebook. O café ficou pronto. Se serviu, trouxe a cafeteira para próximo de si, junto ao computador, passou geleia em duas fatias de pão de forma e sentou-se novamente. Navegou por uns instantes pelas postagens de seus contatos. Duas pessoas davam "bom dia" a quem quer que estivesse on line. Um outro compartilhava um link sobre a importância da desmilitarização da polícia. Outro, uma montagem de gosto duvidoso em que homens de terno em cima de um palanque eram colocados atrás de grades e a mensagem em letras garrafais dizia: "Cadeia Para os Condenados no Mensalão". A inadequação ortográfica da mensagem o incomodava demais, pensou em comentar isso, mas decidiu que quem está preocupado com o mensalão não deve ter muito tempo pra gramática. Havia um texto sobre as tais manifestações de junho, mas era longo e parecia ser enfadonho, também. Enfim, haviam pessoas criticando a política externa norte-americana, o jornalismo brasileiro, a futilidade moderna, o show do Justin Bieber (ele, mais uma vez), defesas do comunitarismo, do amor livre e do Caetano Veloso. Se pergunta qual o sentido daquilo tudo. Tantas pessoas militando numa rede social em prol de alguma coisa, cada um com sua causa. Riu da frase espirituosa. Todos preocupados com algum problema, mas gostando que os outros também estejam preocupados com outros problemas, num eterno ciclo de compartilhar e curtir. Aliás, está certo chamar isso de compartilhar? Os problemas (e links, fotos, montagens, textos, etc ad infinitum) são compartilhados ou publicados por narcisismo e carência? Vai saber. Fato é que as pessoas parecem mesmo dar importância a isso e quem publica coisas sérias tem muito mais pontos na corrida por status aqui. Riu ao lembrar dos discursos que culpam as redes sociais por ilhar as pessoas em seus próprios casulos sob a ilusão de interação e integração. Quanta bobagem. Até onde ele consegue entender, as redes sociais amplificaram uma característica antiga dos agrupamentos humanos: A tendência à elaboração de papos de surdos e mudos em que ninguem diz nada e ninguem escuta nada. Algo como uma assembléia geral de Ciências Sociais elevada à enésima potência. Riu mais uma vez. Terminou o café. Lembrou do trabalho. Desistiu de publicar o poema. Fechou o livro do Bandeira. Sorriu, triste e satisfeito. O dia começou.
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Cherry
Tasty - Jen Mazza
Ela gosta de chupar dedos
Morder pescoços
Lamber dorsos
E devorar sonhos.
Deixo-a fazer o que quiser.
A Índole da Multidão
(Charles
Bukowski)
Há suficiente traição, ódio,
violência,
Absurdo no ser humano comum
Para abastecer qualquer exército a qualquer
momento.
E Os Melhores Assassinos São Aqueles
Que Pregam Contra o Assassinato.
E Os Melhores No Ódio São Aqueles
Que Pregam Amor
E Os Melhores Na Guerra
-Enfim- São Aqueles Que Pregam
Paz
violência,
Absurdo no ser humano comum
Para abastecer qualquer exército a qualquer
momento.
E Os Melhores Assassinos São Aqueles
Que Pregam Contra o Assassinato.
E Os Melhores No Ódio São Aqueles
Que Pregam Amor
E Os Melhores Na Guerra
-Enfim- São Aqueles Que Pregam
Paz
Aqueles Que Pregam Deus
Precisam de Deus
Aqueles Que Pregam Paz
Não Têm Paz.
Aqueles Que Pregam Amor
Não Têm Amor
Cuidado Com Os Pregadores.
Cuidado Com Os Conhecedores.
Precisam de Deus
Aqueles Que Pregam Paz
Não Têm Paz.
Aqueles Que Pregam Amor
Não Têm Amor
Cuidado Com Os Pregadores.
Cuidado Com Os Conhecedores.
Cuidado
Com Aqueles
Que Estão Sempre
Lendo
Livros
Com Aqueles
Que Estão Sempre
Lendo
Livros
Cuidado Com Aqueles Que Ou Destestam
A Pobreza Ou Orgulham-se Dela
A Pobreza Ou Orgulham-se Dela
Cuidado Com Aqueles Rápidos Em Elogiar
Pois Eles Precisam de Louvor Em Retorno
Pois Eles Precisam de Louvor Em Retorno
Cuidado Com Aqueles Rápidos Em Censurar:
Eles Temem O Que
Desconhecem
Eles Temem O Que
Desconhecem
Cuidado Com Aqueles Que Procuram
Constantemente
Multidões; Eles Não São Nada
Sozinhos
Multidões; Eles Não São Nada
Sozinhos
Cuidado
O Homem Vulgar
A Mulher Vulgar
Cuidado Com O Amor Deles
O Homem Vulgar
A Mulher Vulgar
Cuidado Com O Amor Deles
Seu Amor É Vulgar, Busca
Vulgaridade
Mas Há Força Em Seu Ódio
Há Força Suficiente Em Seu
Ódio Para Matá-lo, Para Matar
Qualquer Um.
Vulgaridade
Mas Há Força Em Seu Ódio
Há Força Suficiente Em Seu
Ódio Para Matá-lo, Para Matar
Qualquer Um.
Não Esperando Solidão
Não Entendendo Solidão
Eles Tentarão Destruir
Qualquer Coisa
Que Difira
Deles Mesmos
Não Entendendo Solidão
Eles Tentarão Destruir
Qualquer Coisa
Que Difira
Deles Mesmos
Não Sendo Capazes
De Criar Arte
Eles Não
Entenderão A Arte
De Criar Arte
Eles Não
Entenderão A Arte
Considerarão Seu Fracasso
Como Criadores
Apenas Como Falha
Do Mundo
Como Criadores
Apenas Como Falha
Do Mundo
Não Sendo Capazes De Amar Plenamente
Eles Acreditarão Que Seu Amor É
Incompleto
Então Te Odiarão
Eles Acreditarão Que Seu Amor É
Incompleto
Então Te Odiarão
E Seu Ódio Será Perfeito
Como Um Diamante Brilhante
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
Como Um Tigre
Como Cicuta
Como Um Diamante Brilhante
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
Como Um Tigre
Como Cicuta
Sua Mais Refinada
ARTE.
ARTE.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Jornada
A placa pela qual passamos indicava
algo que talvez fosse um atalho, mas pensamos logo
que se tratava de uma rua sem saída.
E, assim, seguimos.
A porta que atravessamos prometia
ser uma saída, mas
ela se trancou atrás de nós e era uma armadilha.
ela se trancou atrás de nós e era uma armadilha.
O caminho que tomamos a seguir era cheio de perigos
e mesmo assim o trilhamos
empolgados e iludidos com uma visão que
tivestes em teus sonhos
de um lugar para repousar nossos ossos;
Mas o oásis ao qual chegamos estava
infestado de baratas, pulgas, relógios
carteiras e homens de negócio, e sua água
contaminada por todos estes tristes seres
e assim, o abandonamos.
Tristes e sozinhos, caminhamos a esmo
caminhamos sob a lua cheia entoando canções
e escrevendo poemas no vento,
nossa dor maior que nossos corpos e
nossa sede tão infinita quanto um deserto.
Não possuíamos água, comida ou teto,
apenas a escolha que fizemos e um ao outro,
corpos exauridos e mentes que divagavam,
e a alegria de quem deixou tudo para trás.
A travessia foi longa, deixou marcas
em nossos corpos
Não haviam saídas ou retornos que não implicassem
em algum tipo de traição.
A solução que encontramos diz respeito apenas
a nós mesmos
inscrevê-la aqui não nos faria menos
profanos
Acordamos com o barulho que entrava pela janela
constrangidos, mas orgulhosos,
mal reconhecendo a nós mesmos no
espelho manchado de um quarto qualquer.
E em teus olhos a mesma lágrima,
furtiva,
que todas as manhãs teimo em arrancar-lhe
com um beijo.
de um lugar para repousar nossos ossos;
Mas o oásis ao qual chegamos estava
infestado de baratas, pulgas, relógios
carteiras e homens de negócio, e sua água
contaminada por todos estes tristes seres
e assim, o abandonamos.
Tristes e sozinhos, caminhamos a esmo
caminhamos sob a lua cheia entoando canções
e escrevendo poemas no vento,
nossa dor maior que nossos corpos e
nossa sede tão infinita quanto um deserto.
Não possuíamos água, comida ou teto,
apenas a escolha que fizemos e um ao outro,
corpos exauridos e mentes que divagavam,
e a alegria de quem deixou tudo para trás.
A travessia foi longa, deixou marcas
em nossos corpos
Não haviam saídas ou retornos que não implicassem
em algum tipo de traição.
A solução que encontramos diz respeito apenas
a nós mesmos
inscrevê-la aqui não nos faria menos
profanos
Acordamos com o barulho que entrava pela janela
constrangidos, mas orgulhosos,
mal reconhecendo a nós mesmos no
espelho manchado de um quarto qualquer.
E em teus olhos a mesma lágrima,
furtiva,
que todas as manhãs teimo em arrancar-lhe
com um beijo.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Carta
(Leonard Cohen)
O modo como assassinaste sua família
nada significa para mim
enquanto a tua boca percorre meu corpo
Eu conheço os teus sonhos
de cidades arrasadas e cavalos em fúria
do sol demasiado perto
e da noite sem fim
Mas isso nada significa para mim
ante o teu corpo
Sei que lá fora uma guerra ruge
que tu transmite ordens
e bebês são afogados e generais degolados
Mas o sangue nada significa para mim
pois não altera tua carne
Que tua língua saiba a sangue
não me surpreende
enquanto meus braços crescem no teu cabelo
Não penses que não compreendo
o que acontece
depois de as tropas serem massacradas
e as putas passadas à espada
Escrevo isto só pra te roubar o prazer
quando uma manhã a minha cabeça
estiver dependurada com as dos generais
do portão da tua casa
Só para que saibas que previ tudo
e que isto nada significa para mim.
- Extraído do livro "Filhos da Neve - Antologia poética".
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Libertinagem
Algumas pessoas confundem liberdade com libertinagem.
São essas pessoas que amo
Porque são sábias
Porque sabem o que fazer de seus corpos
Da liberdade à libertinagem é um pulo
Ou um colo
Um copo
Um sim, talvez um não.
A Libertinagem é um casal que não se cansa de dizer “sim”
Libertinagem é um homem que sai sozinho de casa de madrugada
E volta pela manhã, igualmente sozinho e satisfeito
Libertinagem:
Jesus Cristo transformando água em vinho.
Libertinagem rima com Lúcifer,
Estrela da manhã.
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Fez-se luz
Que dia estranho foi esse. No meio de uma fase em que não tenho conseguido escrever nada que me agrade, minha tarefa mais importante do dia era escrever para uma amiga que aniversariava. Eu não conseguia. Minha estratégia para conseguir escrever sobre algo qualquer que fosse sempre foi escrever sobre alguma coisa. Apenas para escrever. Pôr as engrenagens para funcionar, sabe? E funcionou melhor do que eu esperava. As roldanas puseram-se a mover, em ritmo acelerado. Não apenas a da escrita, mas a do pensamento e da leitura também. Neste momento, em que escrevo um artigo científico, penso num projeto literário próximo, escrevi uma crônica e leio dois livros simultaneamente que têm feito com que eu pense bastante sobre... a vida, somente. Coisa que eu não fazia a algum tempo. Pensar na vida, em suas minucias, ironias e desvios. Um dos livros é o "Barba Ensopada de Sangue". Difícil pensar num romance mais de formação do que esse. Uma estória sobre ritual de passagem da adolescência para a vida adulta de um homem. E embora eu já esteja longe desse período de minha vida, é impossível não retornar com um olhar inquisidor para esta fase tão conturbada na minha vida. Sobre escolhas feitas, erros cometidos, promessas ingenuamente realizadas e ilusões sistematicamente construídas e depois demolidas, dia a dia, noite após noite, trepada após trepada, golpes seguidos de outros golpes. E o gosto de sangue que é perene, ininterrupto. As lições aprendidas das quais você desdenha e que um dia compreenderá sua sabedoria... ou não. As amantes que não foram, as mulheres que mentiram, aquelas que foram sinceras demais, tudo isso num turbilhão de hormônios e fogo e um completo despreparo emocional associados à megalomania e prepotência tão típicas do florescer masculino. E eu ali, repetindo a mesma pergunta de sempre: Onde errei? Não sei. Só me lembro da estática, e seu zumbido no meu ouvido. Não me deixando sentir o gosto da sobremesa pela qual troquei a minha vida. E daí tem esse outro livro da Adriana Brunstein, "Estado Fundamental". Talvez (isso é só uma suposição, mas nunca se sabe), ela não saiba que escreveu um livro sobre mim, e por respeito apenas quis que o seu protagonista se definisse como "nada". Mas é sobre mim. E eu achei um tanto deselegante da parte dela escrever um livro sobre mim sem me consultar ou pedir minha autorização, porque isso é coisa séria (e agora, lembrando da atual celeuma envolvendo biografias não-autorizadas, achei essa passagem do texto bem espirituosa, logo eu, que não sou dado a escrever coisinhas engraçadas). Mas ela deve ter investigado muito sobre mim para saber de detalhes tão sórdidos do que se passa na minha cabeça. Pensando bem, é até legal saber que alguém te considera importante o suficiente para que se conte sua história, isso já é muito mais do que eu esperaria pra minha vida. Não chega a ser um abraço quente, uma noite de sexo ou uma visita inesperada na hora certa, mas, em se tratando de mentiras, eu fico com as literárias. A estória que ela descreve ali é a de um mentiroso compulsivo, então trata-se de camadas de mentiras que se superpõe, como as minhas, como minha vida reinventada cada vez que a conto para algo, mas sempre do mesmo jeito, sem sentido e sublime.
"Você pensa que algumas conversas não levam a lugar algum. E não levam mesmo. Mas, para mim, discutir a ojeriza causada pela nata ou o trauma adquirido após a descoberta da existência de uma família extra no histórico de seu pai tinha o mesmo impacto. Nada se perde e nada se ganha. É na superfície que se vive, é isso que você não sabe."
Adriana Brunstein, "Estado Fundamental".
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Parabéns, Lily.
Felicidades, meu bem.
Quero pra você não só as coisas que sei que você quer, mas também aquelas que secretamente desejas.
Que todos os brindes sejam tão maravilhosos quanto você pode ser.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Intoxicado
O que dizer de homem tão audaz
Que se atreve a olhar daquele jeito
Para mulher tão atmosférica?
Entre seus véus de ave
Tecidos em vento e cheiro de ervas
Mulher Balsâmica
Etérea, eterna, hipnótica.
O homem, antes todo Bauhaus
De repente se viu febril, intratável,
Tomado por gestos inadequados
Enigmas
Inquietações
Calafrios ao sol de fim de tarde
Além de um súbito gosto pela chuva
Pelo chumbo
Pelo chocolate amargo
E por filmes art noveau.
Até seu amigo fotógrafo ficou preocupado
Pensou em possíveis motivos
Procurou antigos negativos
E percebeu a clara diferença.
Viu que todas as células dele
Estavam comprometidas pela falta de ar
Causada pela fumaça da mulher
Que por um momento, por puro atrevimento
Ele ousou olhar
(Greta Benitez)
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Más lembranças
Más lembranças são a poeira que insiste
em ficar sobre nossos móveis;
O mofo que não liga de ficar escondido
pois sabe que não é bem-vindo.
Eu costumava dizer que
essas lembranças,
quando se deitam em nossa cama
são inimigas da esperança
Já que o que para trás ficou,
ficou perfeito.
Enquanto nossos projetos futuros são incompletos
e mudam como as fases da lua.
Mas ainda assim,
não vemos motivos para retirada do pó:
Não podemos, não queremos,
saber o que se esconde por baixo.
Más lembranças são como fungos.
Se você as expõe à luz do sol,
elas se multiplicam.
Não abra a caixa.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Hoje, dois dias depois de completar 31 anos, fui remexer na minha caixa de memórias. Se isso já é uma ideia ruim em qualquer momento da vida, é ainda mais perigosa na proximidade destas datas insistentemente nostálgicas. Mas, entre cartas de amantes fantasmas, bottons enegrecidos de bandas punks esquecidas e retratos de lugares a que fui e não retornei, foi uma fotografia de minha infância a responsável pelo triste fim de uma garrafa de conhaque, pela avalanche de lembranças, pelas lágrimas transtornadas e por este relato que eu não saberia dizer se é mais inútil que inevitável. Acontece que eu olho para esta foto (ela está em minha frente enquanto escrevo) eu vejo o garoto que tinha um futuro e por muito tempo fez jus a ele. O garoto de cabelos cacheados cheios, subindo e descendo as ladeiras do bairro, de livros na mão, ou uma bola nos pés e sempre um muitas estórias a serem contadas, todas inventadas durante as tão tediosas aulas que ele mal poderia esperar que acabassem. Acabassem de uma vez, e ele não precisasse nunca mais voltar à escola. Nada poderia dar errado para aquela criança. Nada? Eu não sei em que ponto me desviei. Em que rua curvei e em beco entrei no meio de minhas caminhadas, o que sei é que um tipo estranho de escuridão me alcançou. Toda alegria daqueles dias escapou de mim. Já busquei milhões de explicações para isso, mas a verdade é que eu não faço ideia do que seja. Me divertir sem precisar de álcool ou qualquer outra artificialidade tornou-se impossível pra mim, e eu me vi caminhando de escolha errada em escolha errada, de absurdo em absurdo, até chegar aos dias de hoje. Sei que caí numa armadilha que eu passei muito tempo jurando que não cairia. Eu nunca seria alguém que, em nome da segurança, deixaria de lado as coisas que amava e pelas quais brigaria com o afinco e determinação dos grandes vencedores. Só que não. Em algum momento julguei que deveria ser pragmático e não desperdiçar as chances que se apresentavam de me sentir seguro. Até porque já havia queimado minhas fichas apostando em outras coisas nem tão seguras, apostas que obviamente perdi.Talvez eu esteja um pouco confuso no dia de hoje, talvez seja só visão dessa foto e os sentimentos de quem aniversariou, mas sinto um peso incomensurável que resulta numa falta de tesão imensa pela vida. Claro, isso junto com alguns problemas que se tornaram crônicos nos últimos dois anos. Não tenho sido eu mesmo. Mas, pior que isso, não sei o que eu faria se fosse eu mesmo. A pergunta inquieta de Clarice Lispector, "o que eu faria se eu fosse eu", permanece sem resposta, aterradora bem à frente de minha porta. Tenho um certo medo, porque sei que o caminho que escolhi não permite meia-volta. Mas está longe de ser o pior caminho. Mas está longe de ser aquele que desejei.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Você sonha que afoga patos
de borracha
em banheiras de motéis
baratos
me dá bom dia com hálito de látex
me faz uma hidromassagem com a língua
ainda seca
efeito de um tarja
preta
me conta que teu cachorro engoliu
o cherokee do teu forte
apache
e que engoliu um lápis
pra sentir o gosto
do grafite
que queria mesmo era ver a anita
ekberg
no papel de emanuelle
ou pendurando roupas no varal da tua vizinha
cega
você confessa
sussurra
teu tesão pelas poetas suicidas
e me pergunta se
entre as sylvias
eu seria plath
ou kristel
eu arrisco um verso tão tolo
quanto
não sou de missa
sou submissa
e facilito tua decisão
eu menti quando te disse que não queria aprender mais nada.
(Adriana Brunstein, publicado aqui)
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Terça-feira dos Punhais
Talvez o dia pelo qual eu tanto esperei tenha finalmente chegado e nesta terça-feira
eu despertei acompanhado tão somente pela ausência de algo que tem me acompanhado
a algum tempo, algo que me completava e me completando, me exauria. E desse
algo que me alimentava restou apenas um vazio que eu tenho a impressão de
contemplar quando olho no espelho, e esse algo já não é uma tristeza, não é a
velha e inconveniente espera, nem é uma vontade ou ânsia de partir, tampouco a
sombra de momentos passados. Algo fora arrancado de mim à força, talvez
enquanto eu dormia e no momento em que pus os pés fora da cama, tombei com o
peso do meu corpo, não suportado por meus pés que tremiam. Rolei sobre mim
mesmo para alcançar o criado-mudo, me apoiei sobre ele e voltei à cama. Tentei
me erguer mais uma vez e mais uma vez, falhei. Perguntei-me onde estaria aquela
energia vital que me conduzia pelos meus dias, de maneira automática e convicta,
pelos palácios da ilusão. Não estava ali, assim como não estava aquela dor
aguda e constante; aquele nó na garganta com o choro perpetuamente contido;
aquele estado completo de alerta esperando um mínimo sinal uma presença
qualquer, semelhante a um crente que aguarda uma intervenção divina; percebi
que havia (de maneira definitiva?) perdido meus referenciais, meu norte
magnético, meu mantra. Deveria reaprender a caminhar, a produzir sentido, a me
guiar sem um mapa, a rezar de novo, enfim. Sozinho. E o que senti sequer foi
medo. Não senti nada. Era o vazio me encarando. Compreendi que havia perdido
algo que me fora muito importante embora houvesse requerido tanto de mim. Agora
é compreensível que meu espírito queira guardar algum luto. Que meu corpo se
recobre do combate travado por tanto tempo, por tantas guerras que durante o sono rebentaram em meu peito. E os punhais fincados no meu peito durante o dia
e que me impediam o sono à noite, já não machucam mais. E eu não sinto nada. No
escuro, uma última lâmina resplandece. Estou olhando para ela. Ainda com algum
carinho. Mas também ela há de ser retirada. Fecharei meus olhos e dormirei,
profundamente, nesta terça-feira dos punhais. E espero, de todo coração,
sobreviver a ela, pois acreditarei assim ser capaz de sobreviver a tudo.
sábado, 28 de setembro de 2013
Esta Noite, Nada
E este nada,
me foi deixado como herança.
Um presente sutil, quase invisível,
daquele que me concebeu.
Este nada,
eu guardo com apreço
e ainda que atire fora meus livros e discos
este nada seguirá comigo.
Me espanta sua pretensão
de achar que,
me deixando de lado,
ignorando meu desejo, você seria a primeira
a me deixar como lembrança
uma caixa cheia de nada:
Este foi meu primeiro presente.
Pra mim, era esta a face de Deus
o significado do amor,
o sentido da vida.
Nada.
Perfurando minhas veias,
Enchendo meus pulmões,
alimentando-me na cela vazia.
Os cães dormem tranquilos esta noite
porque sabem que estão sozinhos.
Se eu tenho alguma esperança,
agradeço a esta infâmia que herdei,
o nada,
seu conforto,
seu teor alcoólico e,
no fim das contas, a sinceridade de seu desprezo.
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