quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
It's all on you
Meu desejo anda habitando locais perigosos
como a ponta de seus dedos;
o espaço entre seus lábios;
sob os seus passos decididos.
Meu desejo é o canal
por onde sua voz chega até mim e teu sotaque que clama
que alguém te devore;
meu desejo se confunde com as horas de espera
e com as cores dos quadros que você pinta;
meu desejo
confundiu meu senso estético:
Arte – sua nudez transfigurada em canto de rebeldia,
uma pintura aberta à intervenção do meu corpo.
Arte – seu olhar que não me permite desvios, sua boca
me dizendo que “não existe beleza que possa ser domada”;
Meu desejo – uma porta escancarada para o Amor.
sábado, 19 de janeiro de 2019
Às Vezes Faz Sentido (mas é tolice contar com isso)
A distância, há tempos, não é mais só geográfica.
mas, eu soube que você não estava muito bem
e eu só queria te dizer
que a vida às vezes parece mesmo
uma corrida de ratos sem sentido
e procurar um significado pra tudo, o tempo inteiro,
às vezes cansa.
E nosso coração é o primeiro a dizer “chega!”,
muito antes do cérebro
e é por isso que demoramos tanto a entender:
os cavalos negros do tempo não podem ser domados
mas podemos no acostumar com a intensidade de seu galope
e também com aqueles longos momentos de repouso,
em que nada acontece.
Eu não vim aqui pra dizer que isso vai passar, seja lá o que
isso for;
mas que, sim, vai ficando mais fácil de lidar
se você tiver as ferramentas e companhias certas.
Baby, we’ll be fine.
sábado, 5 de janeiro de 2019
Instruções para Esquivar o Mau Tempo
(Paco Urondo)
Em primeiro lugar, não se desespere e em caso de agitação não siga as regras que o furacão quererá lhe impor.
Refugie-se em casa e feche as trancas quando todos os seus estiverem a salvo.
Compartilhe o mate e a conversa com os companheiros, os beijos furtivos e as noites clandestinas com quem lhe assegure ternura.
Não deixe que a estupidez se imponha.
Defenda-se.
Contra a estética, a ética.
Esteja sempre atento.
Não lhes bastará empobrecê-lo, e quererão subjugá-lo com sua própria tristeza.
Ria ostensivamente.
Tire sarro: a direita é mal comida.
Será imprescindível jantar juntos a cada dia até que a tormenta passe.
São coisas simples, mas nem por isso menos eficazes.
Diga para o lado bom dia, por favor e obrigado.
E tomar no cu quando o solicitem de cima.
Dê tudo que tiver, mas nunca sozinho.
Eles sabem como emboscá-lo na solidão desprevenida de uma tarde.
Lembre que os artistas serão sempre nosso.
E o esquecimento será feroz com o bando de impostores que os acompanha.
Tudo vai ficar bem se você me ouvir.
Sobreviveremos novamente, estamos maduros.
Cuidemos dos garotos, que eles quererão podar.
Só é preciso se munir bem e não amesquinhar amabilidades.
Devemos ter a mão os poemas indispensáveis, o vinho tinto e o violão.
Sorrir aos nossos pais como vacina contra a angústia diária.
Ser piedosos com os amigos.
Não confundir os ingênuos com os traidores.
E, mesmo com estes, ter o perdão fácil quando voltarem com as ilusões acabadas.
Aqui ninguém sobra.
E, isto sim, ser perseverantes e tenazes, escrever religiosamente todos os dias, todas as tardes, todas as noites.
Ainda sustentados em teimosia se a fé desmoronar.
Nisso, não haverá trégua para ninguém.
A poesia dói nesses filhos da puta.
terça-feira, 1 de janeiro de 2019
oração pra um novo ano
É ano-novo e você se afasta da
multidão que se abraça e faz votos, enquanto você molha os pés na água refletindo
se toda aquela comoção afinal é mesmo uma exibição de esperança ou só pressão
social por participação em rituais (provavelmente um pouco dos dois) (todo ano é a
mesma coisa, nem sempre a mesma água, mas a reflexão sim), mas você termina se
juntando ao resto do pessoal, não sem antes fantasiar uma última vez com uma caminhada lenta e definitiva mar adentro até que todo barulho cesse, toda dor tenha
fim e tudo seja água de uma vez por todas, mas então você escuta os fogos, os
tilintar das taças, os gritos das crianças e volta a si com uma mistura de
vergonha e conformismo e mesmo assim sorrindo porque no fim das contas você
seguirá de um jeito ou de outro, no fim das contas as contas serão pagas e você
dará algum jeito pra que elas façam algum sentido sem fantasiar tanto com o que
você gostaria que seu mundo fosse e abraçando-o do jeito que ele é – pois
olhando esses que agora te abraçam (e todos que alguma vez já te abraçaram)
você, no fundo, sabe que nem todo barulho que eles fazem é ruim, nem toda dor
dura pra sempre e, sobretudo, nós já somos água sem precisarmos perecer no
fundo do oceano pra isso. tudo o que você precisa é abraçar sua própria fluidez,
profundidade e mistério.
O Último Dia de Primavera
Ele chega
e não sussurra nenhuma promessa, como a Primavera tanto faz.
apenas exige de mim resiliência,
fôlego e, talvez, sangue frio.
pois aquele que agora se avizinha
é implacável em suas resoluções e método.
O verão traz consigo sua loucura particular
para encerrar e iniciar ciclos com a mesma violência
(uma velha amiga se perguntava sempre se existe lugar para
sutilezas no verão)
ao contrário de minha estação –
a Primavera,
onde tudo é mais sutil e exuberante em sua ternura;
e assim ele chega,
O Último Dia de Primavera.
Sua melancolia me invade;
Eu ouço seus suspiros;
Ele nunca me cobra, mas sinto sua severidade
quando a noite chega;
houve um tempo em que eu lhe concedia uma ultima dança
hoje, não mais;
Enquanto a Primavera guardar este lamento
que ressoa em meu peito,
este último dia não será de brindes ou dança.
E a certeza que eu carregava
de fazer de minha vida uma Primavera permanente
não passará de uma borrada esperança.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2018
Lamento de um Tolo
Sisyphus (Franz Von Stuck)
Não é a melhor vida possível,
esta que estou vivendo. Nem mesmo entre as que estavam disponíveis para mim a
certa altura de minha vida. Fiz um monte de escolhas erradas ao longo do
caminho. Quando deito minha cabeça no travesseiro, todas elas vêm a minha mente
de uma vez só, numa enxurrada. “Você poderia estar melhor”, diz a tempestade de
pensamentos; “É tudo culpa sua”, parece cantar a eletricidade estática de
nuvens poderosas. Por alguns instantes minha respiração pesa, uma pedra enorme
parece ter sido colocada no meu peito e não me deixa dormir. Os projetos
inacabados, o tempo desperdiçado, o antigo amor não-confessado... São muitos os
pecados, são bem poucas as expiações. O problema é que sempre há mais estradas
que deixamos de seguir do que aquelas que poderíamos percorrer e já não podemos
distinguir se a poeira acumulada em nossas botas é de ontem ou de anos atrás – é
tudo resíduo, indício do que foi e do que poderia ter sido que nós moldamos em
nossa memória da maneira que preferimos, para nos torturar ou acalentar,
depende da gente. Não é a melhor vida possível, esta que estou vivendo. Mas eu
a vivo. E meus erros são meus, sinto-me a vontade com eles porque não me foram
impostos. E numa noite como esta me resta me agarrar a eles e recordar que até
na loucura há razão. Que o tolo, se persistisse em sua tolice, se tornaria
sábio, como profetizava Blake. É assim – e somente assim – que a insistência em
viver ganha para mim traços suportáveis e, por vezes, heroicos. Todos os
momentos memoráveis que eu coleciono como tesouros no lugar de bens e honrarias
servem para que em dias escuros como esse, quando o vento sopra violento e o
sorriso debochado de quem tem tudo parece ainda mais perverso. Pois eles estão
curando suas feridas com aquilo que de melhor podem comprar com as moedas
correntes: o cinismo, a violência, o poder, a hipocrisia, o dinheiro, a
ambição. Porém, entre as frestas do moralismo e dos encontros forçados, as feridas
sangram. Eu aprendi a enxergá-las antes mesmo de aprender com eles a fingir
também que não as tenho. Eles, também, estão sofrendo. Então é importante que
eu recorde isso. Posso ter seguido por um caminho errado, mas eu vejo os rostos
daqueles que escolheram o caminho correto, e eles não parecem tão mais felizes
assim.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
Abrigo
Às vezes, eu preciso buscar um lugar
dentro de mim para esconder-me. Mas acontece que não é tão simples assim
mergulhar aqui dentro em busca de um lugar confortável, quente e seguro e
esperar a tormenta passar. Quase todos os cantos assim já estão ocupados,
preenchidos pelos afetos daquelas que eu amo. Algumas delas certamente estão
acomodadas nos melhores lugares, arejados e próximos ao coração. Então é
difícil, mesmo para o dono do estabelecimento, encontrar onde se abrigar – da
chuva, do vento, das imagens de horror, do alarido das multidões, da paranoia
do cidadão honesto, das visitas indesejadas e dos intermináveis dias. Há vagas,
porém em terrenos inóspitos e hostis. Tenho dentro de mim regiões frias e
perigosas, expostas às intempéries e pouco recomendáveis. E há os cômodos
vazios. Estes são ainda mais terríveis. Foram habitados por muito tempo por
pessoas às quais entreguei tudo e que agora se foram, mas algo delas permanece
sempre lá, uma ausência sentida no ar. Não é um lugar que alguém visite. A
solidão e o silêncio que ali imperam oprimem e absorvem. Mas eu devo me
recolher a um destes lugares, a despeito de seus fantasmas. Pois que aqui fora
faz frio. Faz falta. Faz tempo. Fez-se vazio de mim mesmo. E isso é algo que eu
não consigo lidar. Isso deve passar, como tudo mais, como o outono, o inverno,
a primavera, o verão... e o outono. As estações não se importam, então elas
passam, e tudo que eu preciso é saber esperar.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2018
As Nuvens Têm Sabor Metálico
E, se não vens em janeiro, meu verão inteiro fica com gosto de pão bolorento. Suas noites perdem todo o seu charme e atrativos, como se fossem um teatro vazio. Fevereiro, sem ti, não há carnaval; e se o ano é bissexto, amaldiçoo este dia a mais. É no domingo que sua ausência mais dói, pois que, juntos fazíamos dele a real festa da carne, da alegria de ser, simplesmente. E o inverno? Este se arrasta lento e cinza quando não vens. Eu tenho uma mente que em períodos de turbulência me leva longe demais da segurança do cais a sua procura, embora eu saiba onde estás e aí eu não posso ir. Outubro se aproxima e a primavera de nosso amor ameaça não acontecer, pois tu já não estás. A primavera é minha estação e há muito você a pintou com tuas cores. Busco então amparo em asas que não são as tuas, deixo que elas me levem às nuvens, só para descobrir que estas têm sabor metálico. Porque você se foi. E sua promessa de voltar não passa de um consolo que inventei pra mim mesmo, assim como sua partida uma mentira que inventei porque eu não podia mais estar por perto. Ainda sinto saudades do tempo em que as nuvens tinham o gosto de teu beijo.
Who Will Love Me Now
(PJ Harvey)
In the forest, is a
monster
He has done terrible things
So in the woods it’s hiding
And this is the song it sings:
Who will love now?
Who will ever love me?
Who will say to me
“You are my desire, I set you free”
Who will forgive and
make me live again?
Who will bing me back
to the world again?
In the forest, is a monster
And it looks very much like me
Will someone hear me singing?
Please save me, please rescue me
Who will love now?
Who will ever love me?
Who will say to me
“You are my desire, I set you free”
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Dizem que nossas escolhas nos fazem homens.
As minhas, na melhor das hipóteses,
Alimentaram um monstro.
Este monstro interior
Responde aos meus anseios
Melhor do que faz o homem que aparento,
mas não posso deixar que ele me domine.
Pois o abismo para onde ele me carrega
está repleto de pesadelos e fantasmas ainda piores.
Se eu não posso almejar
Os prazeres e as virtudes de um homem comum,
Que eu possa ao menos
Aproveitar o que me restou de bom,
O doce e o suave de viver,
A calmaria que jaz entre as tempestades;
Que não sejam mais tão terríveis os meus sonhos
Que eu precise escondê-los;
Que o chão não se retorça sob os meus pés,
Sangrado-os;
que a serenidade não seja só um fim distante
e eu encontre a coragem necessária
para saber recuar e pedir ajuda.
Que eu saiba me desculpar:
Pelos dias ausentes,
Pelo silêncio incriminador,
Pelo jardim de flores mortas que ergui
Em torno do meu lar.
Que haja um deus em cada canto da casa
E que todos eles possam me perdoar.
Que a possibilidade do abismo, então,
seja por fim afastada
E eu me cerque do amor daqueles que me querem
e deste deus que não ouso procurar.
E que a escuridão, enfim,
Venha apenas quando eu fechar os olhos.
terça-feira, 24 de junho de 2014
Pássaros que Voam Solitários sobre o Campo de Lírios
O café e os cigarros estão lá, quando
ninguém mais está. Boas companhias, mas que cobram o alto preço do vício e da
culpa sem chance de redenção. Quem me dera a prescrição médica necessária para
comprimidos que anestesiem o coração. Mas mesmo minha entrada no mercado negro
de afetividades ilícitas, onde poderia encontrar tais drogas, está condicionada
a teu perdão. Então postulo teorias malignas neste inferno particular, mas isso
é apenas uma forma de me livrar delas, para que reste em meu coração apenas a
ternura de dias deixados para trás, de cafés que não tiravam o sono e cigarros
que não deixavam um gosto tão ruim na boca. Dias em que até rimos desses vícios
sem sentido, dessas estradas sem rumos e das noites sem fim. Dias de ritmo (que
é o que dita a beleza). Mas também dias dos espelhos sem reflexos. E da vontade
cruel de deixar tudo pra trás, não sem antes deixar no ar o curto rastro de
nosso voo, como uma linha de fumaça negra descrevendo uma parábola dentro
da qual os mais espertos dentre os nossos lerão aquela tal palavra.
Colhamos logo estes lírios.
domingo, 22 de junho de 2014
Me and the Devil Blues Revisited
Eu e o diabo sentamos
para dividir uma garrafa de whisky
e falar de nossos problemas.
Problemas de homens, de garotos,
problemas de quem anda com o coração
fervendo num peito que não se fecha de tão cheio.
Então o diabo me disse:
"filho, encontre uma mulher pela qual valha a pena morrer
- e então morra,
porque você não vai querer viver
quando ela te deixar.
E eu sabia que ele estava falando de você
quando disse que estava apaixonado por uma garota.
Pois eu te disse uma vez que era você
a mulher com o inferno e o paraíso nos olhos
a única com uma voz capaz de enganar Lúcifer,
não disse? agora ele está aqui
e caminhamos lado a lado.
Baby, quando eu descobri que estava certo sobre ti
eu quase consegui rir.
Eu e o diabo,
tomando whisky,
escutando Willie Nelson:
"you look like the devil".
R.
quinta-feira, 12 de junho de 2014
À Uma Hora da Manhã
"Descontente de todos os meus descontentamentos e de mim mesmo, gostaria de me recuperar e me orgulhar um pouco no silêncio e na solidão da noite. Almas daqueles que amei, almas daqueles que exaltei, fortificai-me, sustentai-me, afastai de mim a mentira e os vapores corruptores do mundo; e Vós, Senhor meu Deus! acordai em mim a graça de produzir alguns belos versos que provem a mim mesmo que eu não sou o último dos homens, que eu não sou inferior àqueles a quem desprezo".
- Charles Baudelaire
terça-feira, 10 de junho de 2014
O dia em que as horas param
Desjejum
Mal tinha forças para segurar com
a firmeza necessária a faca com que cortaria o pão. Precisei rasgá-lo com os
dedos, o que se mostrou não apenas uma tarefa incomparavelmente mais fácil como
também, de alguma maneira, mais prazerosa. A forma como inseri os polegares na
massa fofa, para então cortar-lhe e retirar o miolo, transformando-a numa casca
vazia que logo levei a boca para consumir, pedaço por pedaço, como se fosse
carne, como se abrisse o estômago de uma pessoa ainda viva para devorar suas
vísceras, tudo isso me sugeria um ritual dotado de violência, que eu me
perguntava de onde teria vindo numa manhã fria e silenciosa como aquela.
Derramei algum café na caneca e me dirigi à janela. Queria contemplar a mata enevoada
até ser capaz de desvendar aquele impulso violento que por um segundo havia
sentido crescer em mim. Meus olhos fixaram a névoa, a paisagem tornou-se um
mero borrão, minha visão penetrou a fina camada branca e era como se eu
entrasse no sonho de alguém. No meu sonho. No sonho que tive a poucas horas. O
último antes de despertar. Numa casa vazia, esta mesma casa em que vivo, as
janelas abertas deixavam a névoa entrar, junto de um frio que parecia quebrar
meus ossos como vidro. O telefone, que não estava ali até então, tocou. Eu
atendi com pressa. Do outro lado da linha, uma voz. E eu sabia que era ela. Por
Deus, de alguma maneira eu sabia que era ela. Foram três palavras, mas quais? O
café esfriou, minha casa esfriou, meu corpo congelou, e era como se eu acabasse
de despertar suando frio de terrores noturnos. Não consigo lembrar o que ela
disse. Sentei na cadeira e comecei a chorar. Desesperado, inconsolável. Eu não
sei o que ela disse, mas fora algo terrível. Sonhos não fazem promessas, mas
mandam seus recados.
Almoço
Eu prepararia um risoto para a
moça que me visitaria ao horário de almoço. Depois da quase revelação que tive
durante a manhã, depois do acesso de ódio e medo inexplicáveis frente à
identificação da voz que me assombra até mesmo em sonho, uma ferida havia sido
aberta em meu dia, eu precisava urgentemente estancar aquela hemorragia antes
que ela se tornasse irreversível. E não seria um simples curativo que faria o
serviço sujo, eu precisava cauterizar aquele corte de maneira que nada sobrasse
dele além de uma queimadura vulgar e que nada dissesse sobre a origem daquele
mal – uma ferida aberta pelas garras de um animal selvagem. Então ela viria,
provavelmente entraria por aquela porta com uma garrafa de vinho nas mãos e seus
beijos incendiários nos lábios. Então, vem, dama invernal, eu dizia enquanto
cozinhava. Vem e me deixe beber esse vinho entre seus seios. Deixe-me sentir o
cheiro em sua nuca por baixo dos seus cabelos. Eu preciso de seu fogo, de sua
raiva santa quando me cavalga, das janelas para o infinito que se abrem em seus
olhos quando goza. Faça-me esquecer da poeira dos dias, da voz em meu sonho,
escandalize os vizinhos, me deixe marcas, prove minha seiva. Não traga seus
pudores ou seu bom mocismo, deixe que blasfêmias saltem de sua boca, que só
você pode me tirar do escuro. Venha com sua fome e suas melhores más intenções
sem exigir muito de mim, que eu apenas posso lhe entregar vontade, minha dor
insana, o fogo do inferno e um risoto ao funghi que, honestamente, não tem
graça nenhuma.
Interlúdio
Depois que C. foi embora, fui
tomado pela mesma sensação de sempre quando ela me deixa: Um estranhamento
causado por não saber exatamente o que eu significava pra ela, nem como ela
conseguia ser tão indiferente em relação a minha vida e a tudo que se passava a
nossa volta. Ela seguia o caminho rumo a seu marido, trabalho e batalhas
judiciais e eu ficava com minha confusão. Ela durava pouco e, como eu esperava,
era invadido a seguir por uma reconfortante paz e esquecimento dos eventos
matinais (e o que seriam dos conceitos de paz e felicidade não fossem os dons
de esquecer e se distrair?). De posse dessa tranquilidade, eu me concentrei em
meu trabalho, enfim. Tranquilidade que era interrompida momentaneamente e em
intervalos regulares quando, sentado à mesa em frente ao computador, sentia
algo como um sopro atrás de uma de minhas orelhas ou até percorrendo meu
pescoço. Depois de acontecer pela quarta vez, eu nem tinha mais o impulso de me
virar para trás na esperança de ver algo, meus pelos apenas arrepiavam, eu dava
um suspiro profundo e seguia trabalhando. Até que no meio da tarde, eu senti
mais uma vez esse sopro, mas não apenas isso. Senti como se duas mãos primeiro
repousassem sobre meus ombros, a seguir apertando-os e lentamente cravando as
unhas em mim, puxando-me para trás enquanto eu fazia força para permanecer como
estava. Eu sabia o que estava acontecendo. Eu estava alucinando, há tempos isso
não acontecia, mas havia voltado, só podia. Recostei-me na cadeira, respirava
fundo e cadenciadamente, como o médico havia me ensinado. Fechei os olhos.
Contei até dez. Neste intervalo, imagens aleatórias passaram por minha cabeça: Um
acidente de carro que não presenciei; meu pai deitado em seu caixão; Um grupo de
esfarrapados contra uma parede, fuzilado por policias que riam como hienas; Uma
tempestade violenta que me impede de sair de casa; Um padre me observando com
um olhar demoníaco; um feto ensanguentado sobre um lençol branco; uma mulher se
afogando e sua face tranquila enquanto ela afunda; o mar, silencioso e
inabalável e por isso mesmo imponente. Minha respiração falhou ante estas
imagens. Abri os olhos e surpreendentemente não apenas minha sala, mas toda a
casa está imersa em escuridão. Não eram sequer quatro da tarde. Corri para a
janela e tudo lá fora era escuridão e silêncio como eu ainda não havia
presenciado. A mata exibia então sua face mais ameaçadora, uma que eu não podia
ver. Eu precisava saber que horas eram. Quanto tempo permaneci com os olhos fechados?
A tela do computador estava apagada, apenas o mesmo tom escuro lá de fora. Suas
luzes em LED, no entanto, permaneciam acesas. Corri para o banheiro, a esta
altura com a boca seca e o coração disparado, tomei água da torneira e depois
lavei meu rosto com ela. Eu precisava voltar a mim. Minhas pupilas estavam
dilatadas. De repente, um grito estridente de uma mulher cortou o silêncio como
uma faca aquecida cortando uma língua humana. Era só uma voz, mas eram os
gritos mais altos que já ouvira. Quando consegui escapar da paralisia inicial,
antes que pudesse pensar em correr, um estrondo pesado contra a parede me
paralisou novamente, junto ao som de vidro partido enquanto os gritos cessaram.
A esta altura meu estômago se contorcia de fome e de pavor. Sim, fome. Não
havia almoçado – não houve espaço para isso naquela orgia de tesão,
esquecimento e indiferença – ou comido qualquer outra coisa além daqueles
pedaços de pão pela manhã. Eu me sentia fraco e tonto. Corri até a sala, vi meu
computador destruído ao chão, em meio ao vidro da mesa espatifado. Caí de
joelhos, cacos de vidro penetraram minha pele e a última coisa que vi antes de
desmaiar foi o vulto de uma mulher ao lado da porta de entrada.
Jantar
Quando acordei, vestia roupas que
não eram minhas. Eu havia dormido ou só cochilado, um leve desmaio? Porque a
vida, quando dormimos demasiado, passa, e a despeito de nossa vontade, nos
enfia em roupas que não nos cabe mais, faz com que nos sintamos desconfortáveis
até mesmo no lugar que outrora chamamos lar, trocando os móveis de lugar,
enfeitando as paredes com desenhos estranhos e runas antigas, e aí sabemos que
não somos mais os mesmos, que aquelas novas roupas estão ali para ficar e somos
nós que precisamos nos ajustar a elas, pois não há nesse mundo todo um só
alfaiate hábil o suficiente para costurar os sonhos que pouco a pouco deixamos
para trás. E havia sangue nestas roupas. Pelo chão, havia estilhaços de muito
mais coisas que um computador e minha mesa. Pedaços do teto, livros rasgados e
restos de comida se misturavam com o pó acumulado e fotos que se espalhavam
pela cerâmica fria. As fotos eram de momentos diferentes da minha vida, de
tantas pessoas que passaram por ela... quando peguei elas em minhas mãos, notei
que nas fotografias o rosto de todas as pessoas estavam riscados. Meu estado
era de completa confusão mental. Quem havia feito aquilo? Quem esteve ali e me
deixou daquela forma? Quem era ela, que eu vi a segundos de perder a
consciência? Súbito, a minha mente, uma recordação. Uma voz. A voz que me
despertou, era dela. Enquanto eu jazia entre vidros e poeira, sua voz sussurrou
em meu ouvido três palavras que me despertaram. Era a mesma voz do telefonema.
“Sua hora chegou”, ela dizia. As palavras que me haviam aterrorizado pela
manhã, não surtiram efeito algum desta vez. Eu me sentia em paz. Era a
convicção de que não havia mais nada a ser feito, que todas as criaturas sob o
sol encontram o mesmo fim e não é dada a elas o momento de escolher este
momento. É possível alguém estar feliz sabendo que este momento está tão
próximo? Eu não sei. Minha janta, que eu não lembro de ter comido, espalhada
pelo chão, irreconhecível vômito de toda uma vida, angústia misturada a pedaços
de verduras e legumes. Ergui-me cambaleante. Dirigi-me ao quarto e deitei com
placidez. Fechei os olhos e tratei de imaginar como se pareceria esta força
irrefreável que nos traz aqui para nos arrancar a qualquer hora. Dormi com o
sentimento de que o verdadeiro amor é capaz de encontrá-lo no fim. Tudo que eu
deveria fazer era esperar.
Rodrigo R. Vitorino 10 - 06 - 2014
No more cigarettes
Foto: Elena Oganesyan
"Você é aterrorizante, estranha e bela;
Uma coisa que nem todo mundo sabe como amar"
- "Para mulheres difíceis de amar", Warsan Shire.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Os Primeiros da Gangue a Morrer
(Para Marlon Brando, Neal Cassidy, Amy Winehouse, Cazuza, Chet Baker e Maysa)
Você sabe.
Sempre há esse cara ou aquela garota com um magnetismo peculiar. Que se destaca
em meio à turma. Que centraliza as atenções. Que desperta amor e ódio na mesma
intensidade. Que encobre suas falhas com gestos de delicadeza e extrema
fragilidade. Ou que explode em gritos e ameaças contra aqueles que lhe estendem
a mão. Que transformam a vida de todos ao redor num inferno. E ainda assim
ninguém consegue imaginar uma vida sem eles. Existem essas pessoas que “nasceram
do lado errado do rio” e nunca se importaram com isso. Que são talentosas, mas
seu principal dom é de serem muito maiores que elas mesmas, de terem uma
reputação que chega antes delas, de terem seu nome atirado à lama e elevado aos
céus na mesma proporção e simplesmente não se importam. Ou fingem que não se
importam e faz com que as amemos mais. Há essa mulher ou aquele homem que,
diante deles, nos sentimos encarando um abismo sem fim. Não conhecemos seus
demônios. Nos piores dias, os julgamos; nos melhores, desejamos ser como eles,
ou ao menos beijar-lhes a face. Seres que encarnam os perigos do vício. O risco
de voar alto demais. A loucura à espreita. A escuridão que é consequência natural da
luz. Os tons de cinza entre o preto e o branco. Todo veludo e todo espinho
possível no espírito humano. No fim das contas, apenas isso: Humanos. Falíveis.
Apaixonantes. Os primeiros da gangue a morrerem.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Closes Exagerados
"Eu gosto de ler declarações descaradas de amor. Tô falando sério. Eu mesma vivo rascunhando algumas pra deixar em stand by. Eu até escreveria 'vai que...', mas os publicitários fazem questão de roubar todos nossos clichês e a gente tem que se virar de outra maneira. Eu costumo apelar pro humor, ou pra tentativa de, porque caso a coisa não funcione eu saco a desculpa do 'imagina, era só uma piada'.Mas acho bonito pacas quando alguém fala de algum detalhe (o que a publicidade não nos rouba é sempre do Roberto Carlos) do outro, um maneirismo, algo que parece pertencer única e exclusivamente a quem notou. Não existe outra forma de gostar senão aquela de se encantar por coisas aparentemente banais aos olhos dos outros. Já me apaixonei por uma virada de página de livro, um engasgo, um palavrão fora de contexto, um beijo roubado na Martins Fontes que não ficou devendo nada ao de Wong Kar-Wai. Aliás, esse cara tem as manhas de traduzir o amor num close exagerado de um pescoço. E na verdade é isso. Closes exagerados. Sei lá que mecanismo do universo rege tudo isso, e pouco importa se existe algum. Por um tempo são essas pequenas peculiaridades, sob as lentes de uma grande angular, que nos estampam sorrisos bestas na cara. E, no meio dessa merda toda, um sorriso besta na cara é bem mais do que a gente um dia esperou."
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Poesia
Pra quem vem até aqui procurando coisa boa, não precisa perder tempo lendo meus textos e vai direto pra cá:
Poemas, Cubas & Torneiras
Muita coisa boa num canto só. Ou talvez eu esteja só sentimental demais. Vai lá. De nada.
Mais ou menos a terra
(Maira Parula)
Parece que a língua da gente vai diminuindo
e você não tem mais a mesma semana inteira de falar
a mesa ao lado conversa ri
e você não quer estar ali
não porque não goste
não porque não sei
é que não entende
palavras sorrisos
mastigando o coxão duro
das histórias de família
as atualidades
quem fez o gol na final
batata não se guarda na geladeira
a criança que saiu invertida
mas perfeitinha
os smarts tocando
todas as avós conectadas
e você arrancando seus fios da parede
porque não sabe falar mais
não sei se quero
a chuva completa o seu copo
todos vão para dentro
no céu o refluxo de cores
ninguém vê
você os engole
e até salivados não calam a boca
mais uma vez você não quer estar ali
bebe a chuva inteira e os afoga
o barco em ponto morto
as vozes vão ficando mais longe
dentro de você não pedem socorro
dentro de você celulares não pegam
todos se deitam
todos se calam
dentro de você
é mais ou menos a terra.
domingo, 1 de junho de 2014
Traficando Desesperança em Tempos de Paz
Sinto como se
houvessem escrito ofensas em minha lápide;
Sinto um tremor: Como
se outra pessoa houvesse confessado e morrido pelos meus pecados
E não houvesse sido
Jesus Cristo, apenas uma desconhecida cantora de jazz em Cuba;
Sinto como se neste
exato momento alguém cavasse um buraco
Um buraco lento e seco
e irregular embaixo de minha casa,
E temo que descubram o
local exato onde enterrei a criança que eu costumava ser.
E neste buraco plantem
uma árvore trêmula de flores brancas que assombrará meus dias;
Sinto como se
houvessem assaltado meus sonhos;
Como se deus existisse
por um minuto todos os dias;
Como se a faca com que
me corto estivesse cega
“E tu me negaste o
vinho com que te inebrias...”
Sinto como se aquele
homem que mora através do vagão
Fosse agora meu amigo,
me cobrisse de presentes e beijos;
Sinto como se eu
precisasse ajuda-lo;
Sinto que algo nos
liga profundamente:
Dor, sombras,
Troquei as ultimas
lâmpadas por luzes de natal;
Os morcegos se foram de
uma vez,
Dispersos convivas
sentam-se comigo a mesa
E sinto como se apenas
essa noite eles não pudessem me fazer mal.
R. (Dezembro, 2010, e ainda atual...)
sábado, 31 de maio de 2014
A Vida é Sub-reptícia
"Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada,.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia."
(Trecho de "Passagem do Ano", de Carlos Drummond de Andrade)
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