quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Um Lugar




Qualquer lugar pode servir de palco
para o espetáculo ardente de amantes inebriados
nós já sabemos disso, e até mesmo
oferecemos nosso gozo em altares mais profanos

 Ainda assim,
existe um lugar onde eu imagino
que nos amaremos
de onde seu cheiro não sairá
onde as paredes guardarão nossos gritos
onde os lençóis estarão sempre desarrumados
(testemunhas das horas de desespero e de calmaria)
onde os móveis tenham seus usos subvertidos e
onde eu possa te levar a qualquer hora
e nos sintamos seguros
você e eu,
pra viver tudo que a cigana prometeu

Qualquer lugar pode servir de palco
Pra esse meu fetiche de acordar a seu lado
Mas no lugar onde eu te imagino
sua presença não some mesmo depois de você ter me deixado

(Rodrigo)

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Se não for pedir muito




Se for para perder a cabeça
que seja entre suas pernas;

Se for para carregar algum peso
que seja do seu corpo

Se for pra abafar um grito
que seja com seu seio em minha boca

 E você sabe

Se for para me queimar
Que seja no seu fogo

- Se não for pedir muito,
Que seja hoje.


(Rodrigo)

Na Ponta de Meus Dedos, Ela


Naquele primeiro dia, eu voltei para casa e o cheiro dela ainda estava grudado em meus dedos, e eu sabia que ele ainda estaria pela manhã quando eu acordasse. Lembranças, como cheiros, também grudam na gente. Talvez um dia as lembranças dessas noites e de tudo que ainda podemos ou poderíamos fazer se dissipem de mim. Talvez não. Hoje me basta sorver a seiva doce desses encontros e de tudo que eles significam. Encarar teu sorriso como um instante de paz que você me permite. Tocar-te e te queimar com meu fogo só pra ouvir teus suspiros como uma musica numa cadencia que me contagia como um samba. Nossos beijos como passagem só de ida pra um lugar só nosso onde apenas isso importa. Um dia, essas lembranças terão algum outro significado. Mas, enquanto isso não acontece, eu sigo pelas mesmas ruas vazias de madrugada – garrafa de cerveja numa mão, um olhar sonso e na boca algo entre um sorriso e um suspiro. Pessoas que passam por mim me olham com a indiferença de sempre, uma ou outra talvez apenas tentando descobrir porque não paro de cheirar as pontas de meus dedos.


(Rodrigo)

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Sinais



Você sequer para pra pensar se deve ou não tentar resistir a certo sorriso. Como o dela, que dissipa certezas, que convida à proximidade e do qual eu não poderia me cansar. E ela estava sorrindo quando eu a puxei pela cintura e a beijei. Não posso dizer que não foi o sorriso dela que tenha me levado a isso. Mas ela já havia sorrido tanto outras vezes, e eu só fui beijá-la naquele instante porque antes tudo que eu conseguia fazer era olhar pra ela e desejar que ela não parasse de sorrir nunca. E agora esse sorriso não sai da minha cabeça. Ou seu beijo. Ela beija como se houvesse intimidade desde sempre entre nossas lábios. E quando eu paro de beijá-la nossos sorrisos são cúmplices e é como se continuássemos beijando através deles. Eu estou tentando te dizer que isso não é normal. Não é algo que aconteça todo dia. Você se acostuma com as maneiras como diferentes pessoas irão te tocar durante a vida, mas nada te prepara para um toque como o dela. A suavidade que amolece o teu coração e enrijece outras partes. Eu ainda sinto seus dedos entre meus cabelos e a vontade de não sair dali. De morar naquele toque. Eu lembro como seu olhar me penetrava enquanto eu tentava ler o que havia por trás dele. E, sobretudo, eu me lembro do carnaval insidioso de nossos corpos. Da faísca que surge do primeiro toque ao incêndio descontrolado cujo fogo é medido a base de gritos e sussurros, as labaredas do gozo e o tremor agônico que sentimos enquanto elas se dissipam; você nem para pra pensar se quer resistir a tudo isso. Eu não quero. Eu só quero vê-la chegando e já de longe flagrar o seu sorriso, mais brilhante que qualquer tarde de janeiro, e tão quente quanto.

(Rodrigo)

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Do que você não sabe, nem poderia saber



Nêga,
o que você sugere
pra que eu possa esquecer esse desvario?
Eu vi fogo em seus olhos
vi um mar em seu sorriso
e, assim, me abriguei em seu desejo úmido.

Sabia que,
a pior parte
é que meu coração é teimoso?
E que, uma vez arrancado do peito
ele teima em não querer voltar?
e, assim, vive a palpitar nas mãos de quem o tomou?

Meu amor,
de cada momento juntos
eu guardei algo que insisto em carregar;
Um fio de seu cabelo;
Um arranhão na minha pele;
Teu cheiro na ponta de meus dedos;
Não importa o que seja, eu te trago comigo
Como aquelas músicas que a gente ouve
Sem imaginar que um dia contarão a nossa história.


(Rodrigo)

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Quando a Alma Vem à Tona


Você parada em frente ao espelho
Você nua à minha frente
Você e suas poses
Você e seus gemidos, sua boca faminta, seu coração hasteado ao amor.

Você sentada olhando-se no espelho da penteadeira
Nua, despenteada, trêmula e, ainda assim, disposta a olhar-se de novo
Procurando talvez algo que possa ter mudado?
Ou apenas admirando e agradecendo
Por ter um corpo capaz de guardar tantos prazeres?
Eu nunca saberei, então observo
Você na ponta dos pés
Girando para ver suas costas refletidas no espelho
As marcas que fiz
Que outros fizeram
E aquelas com as quais você nasceu

Você, deitada sobre meu peito
Os dedos percorrendo meu corpo
O coração agora batendo devagar
Você e essa alma que se faz corpo para gozar e é por isso
Que você a admira tanto
como uma pequena oportunidade
que outros te vejam o que você vê
e eu vejo também,
esta alma que resplandece
através de seus olhos em momentos radiantes
como quando brincas, quando gozas
ou quando escutas sua musica favorita essa
 que eu furtivamente pus pra tocar para ver essa joia brilhar outra vez

(Rodrigo)


segunda-feira, 24 de junho de 2019

Ainda Queima




Todo dia ele ia dormir
sem saber como conseguira conter por todo o dia
aquele fogo dentro de si
e sem saber como faria para contê-lo
no dia seguinte;
Por que o fogo precisava ser contido.
Fora de si, ele queimaria sua casa até o chão,
Mas, guardado dentro dele aquele fogo intenso ardia
Como se fosse uma estrela incandescente
Ou uma forja potente;
Fogo que consome, aquece, enrijece – chama que molda e dura.


(Rodrigo)

terça-feira, 28 de maio de 2019

Confissão - Mais de 30 anos na estrada e poucas lições



Vergonha. Deixem-me falar aqui sobre o abismo que pode haver entre perda e reparação. Ou talvez eu devesse começar falando sobre confusão, pra começar. Confusão e confissão. Porque foi aqui que escolhi vir para expor numa espécie de cirurgia cardíaca aberta ao público as atrocidades que faço ao meu coração justamente com a mais pura (e patética) intenção de destruí-lo de uma vez, mas que acaba por acalmá-lo. É a este tipo de comportamento que se referem os budistas quando dizem que a principal causa de sofrimento é a busca por evitá-lo, ou a ruminação. Goethe, que devia ser mais inteligente que qualquer budista que eu venha a conhecer um dia, elaborou uma teoria mais complexa quando diz ser Mefistófeles uma expressão daquela força que, tentando fazer o mal, acaba por sempre trabalhar pelo bem. Quero dizer, eu crio esse imenso catálogo de pecados, frustrações e erros que deveria me expor ao ridículo e que eu chamo de poesia e o que consigo realmente é algum alívio para um coração cansado das derrotas minhas de cada dia e a compreensão de alguém que me enxerga e que talvez nunca visse além da superfície não fosse esse meu vício em reabrir feridas, ora de maneira mais delicada, ora mais extrema. Minhas confissões são confusas, era isso que eu pretendia dizer no começo desta carta que se pretendia bomba. Eu estou perdido e eu estou com medo. Há uma liberdade muito grande em admitir que se tem medo, e eu precisava dizer isso. Meu coração vem batendo numa frequência errada. Calma, doutora, por enquanto isto é só uma metáfora, mas não seria de se espantar que clinicamente eu desenvolvesse uma arritmia em harmonia com o descompasso da minha vida. Eu pretendia fazer tudo direito e consertar certas coisas, a começar por mim mesmo. Tentando ser o que não sou, afastei-me do que eu era sem saber que quem eu era, era o que eu tinha de melhor. Não creio que tudo esteja perdido, é só que entre perda e reparação pode haver um abismo de vez em quando, o segredo é não olhar para ele e fazer de conta que é possível, já que no fim das contas só vai importar mesmo o quanto você aproveitou a jornada, e eu, no meio de minha confusão e entre tantas palavras abafadas e linhas mal escritas, ainda sou capaz de encontrar alento e prazer em um livro de poesias emprestado e conversas ingênuas com alguém que você acabou de conhecer e despertou sua curiosidade. São as noites que valem a pena e te fazem dormir citando Eclesíastes, “que cada dia cuide do seu mal”.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Sem Resposta


Até onde posso ver, nada está suficientemente claro. E eu tento entender por que. O senhor que veio até mim no ponto de ônibus, há dez anos, pra me contar que sua filha havia suicidado porque não passou no vestibular pra medicina, ele tentava entender. A jovem que ia toda noite ao mesmo ponto esperar pelo amante que prometeu que viria e nunca veio, queria entender. E eu sempre imaginei que os jogadores daquela seleção da Hungria em ’54, por muito tempo devem ter acordado sobressaltados no meio da noite tentando entender. E o cachorro expulso do bar, esperando do lado de fora algum resto de comida de presente, também ele tenta entender? A todos falta alguma coisa. Há mais na foto do que o olho pode enxergar, me diz a canção, e isso vale pra todo mundo, então porque me sentir tão deslocado? Será que entre os andrajos e veredas de uma vida torta não há espaço para um pouco de suavidade? Ou este gosto de decepção já está tão impregnado na boca que mesmo as canções mais doces soarão sempre amargas? Eu só sei que o homem que se olha no espelho pela manhã não é o mesmo que faz suas orações antes de dormir, e se um dia este rio resolver correr na direção contrária, não será por não ter tentado seguir a corrente comum e ele não deixará de ser um rio por conta disso. Não sei. Em algum lugar entre a violência do gozo e a resignação de um adeus devem estar a calma, os sorrisos e um café da manhã livre de pressa. Em algum lugar que meus olhos ainda não alcançam, deve estar aquela que com a suavidade da voz me põe em contato comigo mesmo, e faz o mundo girar como se existisse mesmo um eixo.

sexta-feira, 1 de março de 2019

A grande solidão das companhias alheias

Edward Hopper - Soir Bleu


"Amor, cerimônia ontologizante, doadora de ser. E por isso lhe ocorria agora aquilo que, na verdade, deveria ter lhe ocorrido logo no início: Se alguém não tem domínio sobre si, jamais poderia ter alcançado a singularidade. E, afinal, quem é que se dominava de verdade? Quem é que tinha a perfeita consciência de si, da solidão absoluta que significa nem sequer contar com a própria companhia, que significa ter de entrar num cinema ou num bordel, ou em casa de amigos ou numa profissão absorvente ou, ainda, no matrimônio para estar, pelo menos, só entre os demais? Assim, paradoxalmente, o cúmulo da solidão conduzia ao cúmulo do gregarismo, à grande solidão das companhias alheias, ao homem só na sala de espelhos e ecos."

- Julio Cortázar, em "O Jogo de Amarelinha", fragmento 22.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

It's all on you


Meu desejo anda habitando locais perigosos

como a ponta de seus dedos;

o espaço entre seus lábios;

sob os seus passos decididos.

Meu desejo é o canal

por onde sua voz chega até mim e teu sotaque que clama

que alguém te devore;

meu desejo se confunde com as horas de espera

com as cores dos quadros que você pinta;

meu desejo

confundiu meu senso estético:

Arte – sua nudez transfigurada em canto de rebeldia,

uma pintura aberta à intervenção do meu corpo.

Arte – seu olhar que não me permite desvios, sua boca

me dizendo que  “não existe beleza que possa ser domada”;

Meu desejo – uma porta escancarada para o Amor.

sábado, 19 de janeiro de 2019

Às Vezes Faz Sentido (mas é tolice contar com isso)



A distância, há tempos, não é mais só geográfica.

mas, eu soube que você não estava muito bem

e eu só queria te dizer

que a vida às vezes parece mesmo

uma corrida de ratos sem sentido

e procurar um significado pra tudo, o tempo inteiro,

às vezes cansa.

E nosso coração é o primeiro a dizer “chega!”,

muito antes do cérebro

e é por isso que demoramos tanto a entender:

os cavalos negros do tempo não podem ser domados

mas podemos no acostumar com a intensidade de seu galope

e também com aqueles longos momentos de repouso,

em que nada acontece.

Eu não vim aqui pra dizer que isso vai passar, seja lá o que isso for;

mas que, sim, vai ficando mais fácil de lidar

se você tiver as ferramentas e companhias certas.


Baby, we’ll be fine.


sábado, 5 de janeiro de 2019

Instruções para Esquivar o Mau Tempo


(Paco Urondo)

Em primeiro lugar, não se desespere e em caso de agitação não siga as regras que o furacão quererá lhe impor.
Refugie-se em casa e feche as trancas quando todos os seus estiverem a salvo.
Compartilhe o mate e a conversa com os companheiros, os beijos furtivos e as noites clandestinas com quem lhe assegure ternura.
Não deixe que a estupidez se imponha.
Defenda-se.
Contra a estética, a ética.
Esteja sempre atento.
Não lhes bastará empobrecê-lo, e quererão subjugá-lo com sua própria tristeza.
Ria ostensivamente.
Tire sarro: a direita é mal comida.
Será imprescindível jantar juntos a cada dia até que a tormenta passe.
São coisas simples, mas nem por isso menos eficazes.
Diga para o lado bom dia, por favor e obrigado.
E tomar no cu quando o solicitem de cima.
Dê tudo que tiver, mas nunca sozinho.
Eles sabem como emboscá-lo na solidão desprevenida de uma tarde.
Lembre que os artistas serão sempre nosso.
E o esquecimento será feroz com o bando de impostores que os acompanha.
Tudo vai ficar bem se você me ouvir.
Sobreviveremos novamente, estamos maduros.
Cuidemos dos garotos, que eles quererão podar.
Só é preciso se munir bem e não amesquinhar amabilidades.
Devemos ter a mão os poemas indispensáveis, o vinho tinto e o violão.
Sorrir aos nossos pais como vacina contra a angústia diária.
Ser piedosos com os amigos.
Não confundir os ingênuos com os traidores.
E, mesmo com estes, ter o perdão fácil quando voltarem com as ilusões acabadas.
Aqui ninguém sobra.
E, isto sim, ser perseverantes e tenazes, escrever religiosamente todos os dias, todas as tardes, todas as noites.
Ainda sustentados em teimosia se a fé desmoronar.
Nisso, não haverá trégua para ninguém.
A poesia dói nesses filhos da puta.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

oração pra um novo ano


É ano-novo e você se afasta da multidão que se abraça e faz votos, enquanto você molha os pés na água refletindo se toda aquela comoção afinal é mesmo uma exibição de esperança ou só pressão social por participação em rituais (provavelmente um pouco dos dois) (todo ano é a mesma coisa, nem sempre a mesma água, mas a reflexão sim), mas você termina se juntando ao resto do pessoal, não sem antes fantasiar uma última vez com uma caminhada lenta e definitiva mar adentro até que todo barulho cesse, toda dor tenha fim e tudo seja água de uma vez por todas, mas então você escuta os fogos, os tilintar das taças, os gritos das crianças e volta a si com uma mistura de vergonha e conformismo e mesmo assim sorrindo porque no fim das contas você seguirá de um jeito ou de outro, no fim das contas as contas serão pagas e você dará algum jeito pra que elas façam algum sentido sem fantasiar tanto com o que você gostaria que seu mundo fosse e abraçando-o do jeito que ele é – pois olhando esses que agora te abraçam (e todos que alguma vez já te abraçaram) você, no fundo, sabe que nem todo barulho que eles fazem é ruim, nem toda dor dura pra sempre e, sobretudo, nós já somos água sem precisarmos perecer no fundo do oceano pra isso. tudo o que você precisa é abraçar sua própria fluidez, profundidade e mistério.

O Último Dia de Primavera


Ele chega
e não sussurra nenhuma promessa, como a Primavera tanto faz.
apenas exige de mim resiliência,
fôlego e, talvez, sangue frio.
pois aquele que agora se avizinha
é implacável em suas resoluções e método.
O verão traz consigo sua loucura particular
para encerrar e iniciar ciclos com a mesma violência
(uma velha amiga se perguntava sempre se existe lugar para sutilezas no verão)
ao contrário de minha estação –
a Primavera,
onde tudo é mais sutil e exuberante em sua ternura;
e assim ele chega,
O Último Dia de Primavera.
Sua melancolia me invade;
Eu ouço seus suspiros;
Ele nunca me cobra, mas sinto sua severidade
quando a noite chega;
houve um tempo em que eu lhe concedia uma ultima dança
hoje, não mais;
Enquanto a Primavera guardar este lamento
que ressoa em meu peito,
este último dia não será de brindes ou dança.
E a certeza que eu carregava
de fazer de minha vida uma Primavera permanente
não passará de uma borrada esperança.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Lamento de um Tolo

Sisyphus (Franz Von Stuck)

Não é a melhor vida possível, esta que estou vivendo. Nem mesmo entre as que estavam disponíveis para mim a certa altura de minha vida. Fiz um monte de escolhas erradas ao longo do caminho. Quando deito minha cabeça no travesseiro, todas elas vêm a minha mente de uma vez só, numa enxurrada. “Você poderia estar melhor”, diz a tempestade de pensamentos; “É tudo culpa sua”, parece cantar a eletricidade estática de nuvens poderosas. Por alguns instantes minha respiração pesa, uma pedra enorme parece ter sido colocada no meu peito e não me deixa dormir. Os projetos inacabados, o tempo desperdiçado, o antigo amor não-confessado... São muitos os pecados, são bem poucas as expiações. O problema é que sempre há mais estradas que deixamos de seguir do que aquelas que poderíamos percorrer e já não podemos distinguir se a poeira acumulada em nossas botas é de ontem ou de anos atrás – é tudo resíduo, indício do que foi e do que poderia ter sido que nós moldamos em nossa memória da maneira que preferimos, para nos torturar ou acalentar, depende da gente. Não é a melhor vida possível, esta que estou vivendo. Mas eu a vivo. E meus erros são meus, sinto-me a vontade com eles porque não me foram impostos. E numa noite como esta me resta me agarrar a eles e recordar que até na loucura há razão. Que o tolo, se persistisse em sua tolice, se tornaria sábio, como profetizava Blake. É assim – e somente assim – que a insistência em viver ganha para mim traços suportáveis e, por vezes, heroicos. Todos os momentos memoráveis que eu coleciono como tesouros no lugar de bens e honrarias servem para que em dias escuros como esse, quando o vento sopra violento e o sorriso debochado de quem tem tudo parece ainda mais perverso. Pois eles estão curando suas feridas com aquilo que de melhor podem comprar com as moedas correntes: o cinismo, a violência, o poder, a hipocrisia, o dinheiro, a ambição. Porém, entre as frestas do moralismo e dos encontros forçados, as feridas sangram. Eu aprendi a enxergá-las antes mesmo de aprender com eles a fingir também que não as tenho. Eles, também, estão sofrendo. Então é importante que eu recorde isso. Posso ter seguido por um caminho errado, mas eu vejo os rostos daqueles que escolheram o caminho correto, e eles não parecem tão mais felizes assim. 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Abrigo



Às vezes, eu preciso buscar um lugar dentro de mim para esconder-me. Mas acontece que não é tão simples assim mergulhar aqui dentro em busca de um lugar confortável, quente e seguro e esperar a tormenta passar. Quase todos os cantos assim já estão ocupados, preenchidos pelos afetos daquelas que eu amo. Algumas delas certamente estão acomodadas nos melhores lugares, arejados e próximos ao coração. Então é difícil, mesmo para o dono do estabelecimento, encontrar onde se abrigar – da chuva, do vento, das imagens de horror, do alarido das multidões, da paranoia do cidadão honesto, das visitas indesejadas e dos intermináveis dias. Há vagas, porém em terrenos inóspitos e hostis. Tenho dentro de mim regiões frias e perigosas, expostas às intempéries e pouco recomendáveis. E há os cômodos vazios. Estes são ainda mais terríveis. Foram habitados por muito tempo por pessoas às quais entreguei tudo e que agora se foram, mas algo delas permanece sempre lá, uma ausência sentida no ar. Não é um lugar que alguém visite. A solidão e o silêncio que ali imperam oprimem e absorvem. Mas eu devo me recolher a um destes lugares, a despeito de seus fantasmas. Pois que aqui fora faz frio. Faz falta. Faz tempo. Fez-se vazio de mim mesmo. E isso é algo que eu não consigo lidar. Isso deve passar, como tudo mais, como o outono, o inverno, a primavera, o verão... e o outono. As estações não se importam, então elas passam, e tudo que eu preciso é saber esperar.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

As Nuvens Têm Sabor Metálico


E, se não vens em janeiro, meu verão inteiro fica com gosto de pão bolorento. Suas noites perdem todo o seu charme e atrativos, como se fossem um teatro vazio. Fevereiro, sem ti, não há carnaval; e se o ano é bissexto, amaldiçoo este dia a mais. É no domingo que sua ausência mais dói, pois que, juntos fazíamos dele a real festa da carne, da alegria de ser, simplesmente. E o inverno? Este se arrasta lento e cinza quando não vens. Eu tenho uma mente que em períodos de turbulência me leva longe demais da segurança do cais a sua procura, embora eu saiba onde estás e aí eu não posso ir. Outubro se aproxima e a primavera de nosso amor ameaça não acontecer, pois tu já não estás. A primavera é minha estação e há muito você a pintou com tuas cores. Busco então amparo em asas que não são as tuas, deixo que elas me levem às nuvens, só para descobrir que estas têm sabor metálico. Porque você se foi. E sua promessa de voltar não passa de um consolo que inventei pra mim mesmo, assim como sua partida uma mentira que inventei porque eu não podia mais estar por perto. Ainda sinto saudades do tempo em que as nuvens tinham o gosto de teu beijo.   

Who Will Love Me Now



(PJ Harvey)



In the forest, is a monster
He has done terrible things
So in the woods it’s hiding
And this is the song it sings:

Who will love now?
Who will ever love me?
Who will say to me
“You are my desire, I set you free”

Who will forgive and make me live again?
Who will bing me back to the world again?

In the forest, is a monster
And it looks very much like me
Will someone hear me singing?
Please save me, please rescue me

Who will love now?
Who will ever love me?
Who will say to me
“You are my desire, I set you free”

quinta-feira, 23 de outubro de 2014



Dizem que nossas escolhas nos fazem homens.
As minhas, na melhor das hipóteses,
Alimentaram um monstro.
Este monstro interior
Responde aos meus anseios
Melhor do que faz o homem que aparento,
mas não posso deixar que ele me domine.
Pois o abismo para onde ele me carrega
está repleto de pesadelos e fantasmas ainda piores.

Se eu não posso almejar
Os prazeres e as virtudes de um homem comum,
Que eu possa ao menos
Aproveitar o que me restou de bom,
O doce e o suave de viver,
A calmaria que jaz entre as tempestades;
Que não sejam mais tão terríveis os meus sonhos
Que eu precise escondê-los;
Que o chão não se retorça sob os meus pés,
Sangrado-os;
que a serenidade não seja só um fim distante
e eu encontre a coragem necessária
para saber recuar e pedir ajuda.

Que eu saiba me desculpar:
Pelos dias ausentes,
Pelo silêncio incriminador,
Pelo jardim de flores mortas que ergui
Em torno do meu lar.
Que haja um deus em cada canto da casa
E que todos eles possam me perdoar.
Que a possibilidade do abismo, então,
seja por fim afastada
E eu me cerque do amor daqueles que me querem
e deste deus que não ouso procurar.

E que a escuridão, enfim,
Venha apenas quando eu fechar os olhos.

Deixa eu bagunçar você

Durmo na esperança de sonhar contigo Acordo somente pro desejo de te encontrar Menos que obsessivo, meu amor por você é abrigo ...