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Dizem que nossas escolhas nos fazem homens.
As minhas, na melhor das hipóteses,
Alimentaram um monstro.
Este monstro interior
Responde aos meus anseios
Melhor do que faz o homem que aparento,
mas não posso deixar que ele me domine.
Pois o abismo para onde ele me carrega
está repleto de pesadelos e fantasmas ainda piores.

Se eu não posso almejar
Os prazeres e as virtudes de um homem comum,
Que eu possa ao menos
Aproveitar o que me restou de bom,
O doce e o suave de viver,
A calmaria que jaz entre as tempestades;
Que não sejam mais tão terríveis os meus sonhos
Que eu precise escondê-los;
Que o chão não se retorça sob os meus pés,
Sangrado-os;
que a serenidade não seja só um fim distante
e eu encontre a coragem necessária
para saber recuar e pedir ajuda.

Que eu saiba me desculpar:
Pelos dias ausentes,
Pelo silêncio incriminador,
Pelo jardim de flores mortas que ergui
Em torno do meu lar.
Que haja um deus em cada canto da casa
E que todos eles possam me perdoar.
Que a possibilidade do ab…

Pássaros que Voam Solitários sobre o Campo de Lírios

O café e os cigarros estão lá, quando ninguém mais está. Boas companhias, mas que cobram o alto preço do vício e da culpa sem chance de redenção. Quem me dera a prescrição médica necessária para comprimidos que anestesiem o coração. Mas mesmo minha entrada no mercado negro de afetividades ilícitas, onde poderia encontrar tais drogas, está condicionada a teu perdão. Então postulo teorias malignas neste inferno particular, mas isso é apenas uma forma de me livrar delas, para que reste em meu coração apenas a ternura de dias deixados para trás, de cafés que não tiravam o sono e cigarros que não deixavam um gosto tão ruim na boca. Dias em que até rimos desses vícios sem sentido, dessas estradas sem rumos e das noites sem fim. Dias de ritmo (que é o que dita a beleza). Mas também dias dos espelhos sem reflexos. E da vontade cruel de deixar tudo pra trás, não sem antes deixar no ar o curto rastro de nosso voo, como uma linha de fumaça negra descrevendo uma parábola dentro da qual os mais es…

Me and the Devil Blues Revisited

Eu e o diabo sentamos
para dividir uma garrafa de whisky
e falar de nossos problemas.
Problemas de homens, de garotos,
problemas de quem anda com o coração
fervendo num peito que não se fecha de tão cheio.

Então o diabo me disse:
"filho, encontre uma mulher pela qual valha a pena morrer
- e então morra,
porque você não vai querer viver
quando ela te deixar.
E eu sabia que ele estava falando de você
quando disse que estava apaixonado por uma garota.
Pois eu te disse uma vez que era você
a mulher com o inferno e o paraíso nos olhos
a única com uma voz capaz de enganar Lúcifer,
não disse? agora ele está aqui
e caminhamos lado a lado.

Baby, quando eu descobri que estava certo sobre ti
eu quase consegui rir.
Eu e o diabo,
tomando whisky,
escutando Willie Nelson:
"you look like the devil".

R.

À Uma Hora da Manhã

"Descontente de todos os meus descontentamentos e de mim mesmo, gostaria de me recuperar e me orgulhar um pouco no silêncio e na solidão da noite. Almas daqueles que amei, almas daqueles que exaltei, fortificai-me, sustentai-me, afastai de mim a mentira e os vapores corruptores do mundo; e Vós, Senhor meu Deus! acordai em mim a graça de produzir alguns belos versos que provem a mim mesmo que eu não sou o último dos homens, que eu não sou inferior àqueles a quem desprezo".
- Charles Baudelaire


O dia em que as horas param

Desjejum
Mal tinha forças para segurar com a firmeza necessária a faca com que cortaria o pão. Precisei rasgá-lo com os dedos, o que se mostrou não apenas uma tarefa incomparavelmente mais fácil como também, de alguma maneira, mais prazerosa. A forma como inseri os polegares na massa fofa, para então cortar-lhe e retirar o miolo, transformando-a numa casca vazia que logo levei a boca para consumir, pedaço por pedaço, como se fosse carne, como se abrisse o estômago de uma pessoa ainda viva para devorar suas vísceras, tudo isso me sugeria um ritual dotado de violência, que eu me perguntava de onde teria vindo numa manhã fria e silenciosa como aquela. Derramei algum café na caneca e me dirigi à janela. Queria contemplar a mata enevoada até ser capaz de desvendar aquele impulso violento que por um segundo havia sentido crescer em mim. Meus olhos fixaram a névoa, a paisagem tornou-se um mero borrão, minha visão penetrou a fina camada branca e era como se eu entrasse no sonho de alguém. No …

No more cigarettes

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Foto: Elena Oganesyan

"Você é aterrorizante, estranha e bela; Uma coisa que nem todo mundo sabe como amar"
- "Para mulheres difíceis de amar", Warsan Shire.


Os Primeiros da Gangue a Morrer

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(Para Marlon Brando, Neal Cassidy, Amy Winehouse, Cazuza, Chet Baker e Maysa)

Você sabe. Sempre há esse cara ou aquela garota com um magnetismo peculiar. Que se destaca em meio à turma. Que centraliza as atenções. Que desperta amor e ódio na mesma intensidade. Que encobre suas falhas com gestos de delicadeza e extrema fragilidade. Ou que explode em gritos e ameaças contra aqueles que lhe estendem a mão. Que transformam a vida de todos ao redor num inferno. E ainda assim ninguém consegue imaginar uma vida sem eles. Existem essas pessoas que “nasceram do lado errado do rio” e nunca se importaram com isso. Que são talentosas, mas seu principal dom é de serem muito maiores que elas mesmas, de terem uma reputação que chega antes delas, de terem seu nome atirado à lama e elevado aos céus na mesma proporção e simplesmente não se importam. Ou fingem que não se importam e faz com que as amemos mais. Há essa mulher ou aquele homem que, diante deles, nos sentimos encarando um abismo sem fim. Nã…

Closes Exagerados

"Eu gosto de ler declarações descaradas de amor. Tô falando sério. Eu mesma vivo rascunhando algumas pra deixar em stand by. Eu até escreveria 'vai que...', mas os publicitários fazem questão de roubar todos nossos clichês e a gente tem que se virar de outra maneira. Eu costumo apelar pro humor, ou pra tentativa de, porque caso a coisa não funcione eu saco a desculpa do 'imagina, era só uma piada'.Mas acho bonito pacas quando alguém fala de algum detalhe (o que a publicidade não nos rouba é sempre do Roberto Carlos) do outro, um maneirismo, algo que parece pertencer única e exclusivamente a quem notou. Não existe outra forma de gostar senão aquela de se encantar por coisas aparentemente banais aos olhos dos outros. Já me apaixonei por uma virada de página de livro, um engasgo, um palavrão fora de contexto, um beijo roubado na Martins Fontes que não ficou devendo nada ao de Wong Kar-Wai. Aliás, esse cara tem as manhas de traduzir o amor num close exagerado de um p…