sábado, 18 de janeiro de 2014

Hotel das Estrelas



Algumas pessoas não percebem que estavam perdidas até que estejam enfim trilhando o caminho correto. O contrário também pode acontecer, e a descoberta raramente é indolor. Nenhum deles dois esperava que aquela fosse uma noite comum, mas tampouco esperavam a madrugada ardente e corrosiva que os consumiria num hotel barato onde encontrariam redenção. Abrigo enfim dos perigos sobre os quais tanto falaram em suas conversas que seguiam noite adentro à distância. Eles foram para o bar como dois amigos que não se viam há tempos, ainda que no passado deles existisse uma marca, uma pequena cicatriz deixada por um encontro que eles preferiram, mais por receio que por educação, ignorar ao se abraçarem passados dois anos. Mas, se fizeram isso pensando que seu encontro não reacenderia aquele fogo antigo, a pequena chama que nasceu numa noite de ano-novo qualquer, enganaram-se clamorosamente. Demorou pouco para que nem todas as cervejas geladas pudessem baixar suas temperaturas corporais e que qualquer recato impedisse o tráfico de olhares e toques furtivos de mãos e pernas que não tardariam a se transformar em beijos. Digamos que tenha sido apenas tempo o suficiente para falarem das desventuras que se abateram sobre ambos, algumas alegrias que vieram e pudessem confirmar que ainda se alegravam na presença um do outro. Nada mais precisava ser dito, apenas feito. E eles fizeram. Da melhor maneira, no pior hotel, esquecendo seus pudores no bar recém-deixado e sujaram-se com cada gota que pingava de seus corpos penetrando-se mutuamente, ela com sua língua na boca dele, seus gemidos em seus ouvidos, suas unhas em sua carne e ele buscando à vontade os orifícios dela que lhes dessem prazer, seu pau indo e vindo de sua buceta úmida e quente, seus dedos procurando seu rabo e seus dentes marcando seu pescoço tudo isso sob a luz das estrelas que teimavam em entrar pela janela aberta junto com o vento, o único capaz de trazer algum resquício de frescor na noite abafada naquele hotel e devorando-se pedaço por pedaço amanheceram enfim um dia em chamas que se prolongou além do sol nascente.

O que veio depois, entretanto, transformou esta noite em um sonho distante que por vezes parece não ter acontecido. Aos poucos os amantes foram se descobrindo dois estranhos sem ter o que compartilhar. Quando essa percepção abateu-se sobre os dois é difícil precisar mas o fato é que eles não conseguiram mais se ver ou conversar como antes. Ainda assim, algo permanecia grudada a ela feito um parasita a roubar-lhe as energias, a lembrança dele e daquela noite sobreviveram de algum modo nela, e se a mente não reconhecia naquele homem o mesmo que a desbravara com doçura selvagem, seu corpo ressentia-se de sua ausência. Uma noite, alucinada pela falta que aquele agora estranho fazia a ela, depois de masturbar-se mais de uma vez sem conseguir criar uma imagem sequer dele, porém sabendo exatamente em que pensava, ela saiu de casa. Acreditou estar sem rumo, mas em algum momento de sua jornada sua consciência retornou e ela reconheceu o trajeto que fazia: caminhava na direção daquele hotel. Subiu as escadas enquanto um calafrio percorria sua espinha e sentia-se cada vez mais lubrificada. Pediu à atendente o mesmo quarto e lá se deitou. A maneira como se satisfez assustou-a, mas aquela seria sua primeira noite de sono tranquila desde que ele se foi.

Ele, no entanto, não pareceu sofrer do mesmo mal. Parecia indiferente à estranha distância que se pôs entre os dois. Partiu de volta para sua cidade sem falar com ela. Lembrava daquela noite sempre com um sorriso no rosto, mas curiosamente distinguia os acontecimentos mais tórridos do hotel da mulher que sujeitou-se ativamente a seu desejo, que cavalgou-lhe impetuosamente e que colhera em sua boca o seu fruto. Em suma, lembrava-se da canção, mas ignorava a cantora. Recebeu em seu e-mail os detalhes da noite em que ela sozinha havia ido até o hotel das estrelas. Tratou o fato como uma leve excentricidade, sem maior peso e sem se dar conta do desespero que se abatia sobre ela. O tempo passou e a memória daquela noite se esvaia de sua mente. Demorou um ano até que voltasse à cidade. Ele já não era o mesmo, nem a cidade. Não se animava com a possibilidade de reencontrar conhecidos, antigos casos, velhos lugares. Algum impulso o fez ligar para ela – a velha convicção masculina de que ela sempre estará lá, esperando-o. Ela disse que o encontraria, mas não sabia quando. Os dias se passaram, o momento em que ele partiria novamente se aproximava e ela não dava sinais de que apareceria, e aquilo ia causando uma sensação estranha nele. A cada noite, a lembrança dela se tornava mais nítida. Seu corpo, sua boca, suas curvas, até mesmo sua voz. Não conseguia falar com ela. Solitário, ébrio, uma noite procurou-a ativamente sem sucesso. Seu coração fazendo menção de saltar de seu peito a qualquer instante. Uma saudade repentina de todos os lugares pelos quais havia passado com ela. Passou pelos mesmos bares, pela mesma orla, até se encontrar em frente ao hotel em que treparam pela última vez. Lembrou-se do e-mail dela. Tentou lutar contra a força que o havia levado até ali, mas se viu incapaz de resistir e em pouco tempo estava deitado sobre a cama e seus lençóis suspeitos, no mesmo quarto em que ela estivera meses atrás e poderia jurar que sentia seu cheiro. Não conseguia mover-se, nem mesmo para se masturbar, ainda que as lembranças estivessem mais claras que nunca. Chorou como há muito não fazia, copiosamente, digno de pena. Passou uma noite inteira acordado. Pensava apenas na ironia perversa que subjazia à punição que recebia graças a seu cinismo e descrença. Quando o sol entrou pela janela aberta, encontrou-o estático, com certo sorriso triste a enfeitar-lhe a face.

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