sábado, 6 de abril de 2013

 E. Hopper, "Reclining Nude".

"Sou impuro, um libertino
E toda vez que você desabafa seu mau-humor
Eu pareço perder a fala,
Você deslizando lentamente para fora de meu alcance.
Você me cultiva como uma sempre-viva
Você nunca vê a solidão em mim
De maneira nenhuma".

Placebo, "Without You, I'm Nothing".

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Prece de um Dia Quase Igual a Todos

Deus dos delicados, não me abandone nessa guerra insana. Minha máquina de ser beira a pane enquanto o veludo da voz de Billie lambe as paredes do lusco-fusco. Abençoe, senhor, tudo que dói em nós, indispensável. As tardes despenteadas em Grumari, as lágrimas do homem que me amou e nunca disse, o negro agonizante sob o sol narcísico de Ipanema, as crianças que tão cedo me deixaram farta de lágrimas e leite, o eco esquivo de Frederico, sinais de musgo. Abençoe as escarpas da minha vida enquanto desenterro essas palavras - o carmim destas palavras - com as lascas fatiadas da dor. Sonho piscinas, atraída pelas labaredas. Preciso dormir bem dentro das suas asas enormes, pai.

(Ledusha B. A. Spinardi)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Os Adormecidos

Nem um só mapa registra
A rua dos dois adormecidos.
Nós perdemos sua pista.
Jazem como se submersos
Em imutável luz azul,
Aberta, a porta de vidros

Com laços de fita amarela.
Por esta fresta penetra
Odores de terra úmida.
A lesma deixa um rastro prata:
Negras sebes cercam a casa.
Então olhamos para trás.

Morte feito pétalas lívidas
Entre folhas de formas tesas
Eles dormem, boca a boca.
Uma névoa branca esvoaça.
Suspiram narinas mínimas,
E eles reviram em seu sono.

Longe daquele leito ameno
Somos um sonho que eles sonham.
Suas pálpebras retêm sombras.
Nada vai lhes acontecer.
Trocamos a pele e nos movemos
Dentro de um outro tempo.

(Sylvia Plath)

segunda-feira, 1 de abril de 2013

I Have Forgiven Jesus




"But I have forgiven Jesus
For all the desire
He placed in me
When there's no one i can turn to
With this desire.

(...)


Why did you give me so much desire
When there is no where i can go
To offload this desire?
And why did you give me so much love
In a loveless world?
When there's no one i can turn to
To unlock all this love."


Um Caso de Amor Não-Relatado




E daí que seja você a ditar o ritmo de meus dias
mesmo sem saber?
E daí que você me vire as costas quando te chamo?
Eu sei admirá-las também, tão bem como
o resto de seu corpo.
E daí que eu lembre de ti ao escutar
a Lacrimosa de Mozart?
E daí?
E daí meus delírios em febre,
meus dias escuros
meus poemas mal escritos?

Somos dois personagens de uma lenda antiga
Avatares de deuses caprichosos
Boxeadores cansados,
Aguardando o soar do gongo.
Brincando de alquimistas entre o crepúsculo e a aurora.
Crentes nas horas vagas,
Minha fome fazendo amor com seu cinismo.

Num sonho do qual pouco me lembro,
Você chegava vestida de cinza ao meu funeral
e chorava.
Nem você, nem eu, não ele,
eu e você, nós nunca fomos tão felizes.

sábado, 30 de março de 2013

Sete Epitáfios Para uma Dama Branca (Que, Descalça, media 1,65 m e, nua, pesava 54 Kg)

(Marçal Aquino)


EPITÁFIO V

Nunca dei presentes a ela, nunca recebi nada. Não conheci a letra dela, nunca a vi escrevendo. Não sei se sua caligrafia era redonda ou inclinada, legível ou feia, ou se ela colocava bolinhas no lugar dos pingos nas letras. Eu nunca disse que a amava nem a ouvi dizer isso pra mim. Nunca falamos de amor, de filhos, de amantes, de passado. Do futuro. Fodíamos, apenas.

Nunca soube seu signo nem ela o meu. Ela não me falou sobre sua flor favorita ou sua cor predileta. Sua primeira vez. Ela não perguntou sobre a minha. Não sei se ela possuía todos os dentes. Nunca conversamos sobre religião, não sei se ela acreditava em Deus. Em reencarnação ou em horóscopo. Não sei se ela gostava de gatos ou se gostava de colecionar selos. Nunca perguntei se ela se interessava por política, futebol ou mesmo se tinha o costume de se masturbar. Não sei se ela cozinhava bem ou o prato de que gostava mais. O que achava da moda, ela jamais me falou. Curtia samba? E caipirinha? Como foi quando criança, ela não me contou. Qual seu número de sorte? Eu pagava pra saber se alguma vez aconteceu de ela olhar com desejo para outra mulher. Os nomes de seus pais, o que ela achava de homens com barba, das loiras, de armas e de tatuagens – são coisas que eu nunca vou saber. Não descobri se alguma ocasião ela passou fome na vida. Se teve uma tia epiléptica. O que achava dos pretos? E dos cavalos? Gostava de novelas? O que pensava de garotas que pedem a sujeitos que batam nelas na hora de trepar? Achava o que do dinheiro, essa mulher? Que número calçava? Tinha medo de baratas. Terá algum dia o pai espancado a mãe na frente dela (e, diante de seu protesto, mandado que calasse a boca pra não tomar uns sopapos também)? Será que, como eu, ela achava que felicidade é um negócio que inventaram para enganar os pobres, feios e esperançosos? Não sei se ela teve um primo que vivia pedindo dinheiro emprestado. Não sei se tomou drogas um dia ou se era bamba em matemática no tempo da escola. Se gostava de resolver as palavras cruzadas do jornal. Será que ela sabia jogar truco? Teve todas as doenças da infância? Tinha ideia de como é que os caras matam cavalos para fazer mortadela no sul da Bahia? Foi assaltada alguma vez? Transou quando na verdade estava a fim de dormir e esquecer? Nunca soube se ela viajou de trem ou de navio. Se teve vontade de matar alguém que um dia amou. Se cortou os cabelos só para agradar a algum homem. Se cortou o pé em caco de vidro quando mais nova. Se em algum momento humilhou alguém e se arrependeu depois. Se gostava de brócolis. Se pensou em sexo com animais. Se em alguma noite perdeu o sono por conta de dívidas. Se pensou em fugir. Se lembrava dos sonhos depois que acordava. Se sonhava. Se tinha medo de doar sangue. Se sorriu para pessoas pensando em manda-las à merda. Se bolou perversões com integrantes da família. Se sentiu saudade. Eu nunca soube o que essa mulher achava do papa. E de velhas que ainda usam laquê. Eu não sei onde ela estava quando a Seleção ganhou a Copa de 94. Se ela tomou algum porre de vinho. Terá ela fingido alguma vez que a coisa estava muito boa quando estava apenas morna? Compreendeu o significado da palavra “sacrifício” a tempo? Será que ela se orgulhou de algo que deveria se envergonhar? Será que se lembrava da primeira vez que viu o mar? Do primeiro beijo? Será que ela se sentiu digna em alguma oportunidade? E suja? Eu nunca soube o que ela achava do salário-mínimo. Da ioga. Das surubas. E das coisas que assustam quando pensamos nelas. De gente que tem medo do escuro. E de quem sabe que temos escuros dentro da gente. Eu não soube nada disso. Apenas fodíamos. E era bom.

No entanto, eu sabia sua altura. Porque ela precisava ficar na ponta dos pés toda vez que nos beijávamos.
E sabia seu peso: ela me falou um dia, na cama, quando quis ficar por cima.





Ninguém me ama,

                         Ninguém me quer,

 Ninguém me chama

de Baudelaire.

(Isabel Câmara)

O Veneno


O vinho sabe cobrir o mais sórdido puteiro
De um luxo milagroso,
E faz surgir mais de um pórtico fabuloso
No ouro de seu vapor vermelho,
Como um sol que se põe num céu nebuloso.

O ópio amplia o que não tem contornos,
Alonga a imensidade,
Aprofunda o tempo, cava a voluptosidade,
E de prazeres negros e mornos
Enche a alma para além da sua capacidade.

Tudo isso não vale o veneno que emana
Dos teus olhos verdes, olhar perverso,
Lago onde minha alma treme ao inverso...
Meus sonhos vêm em caravana
Matar a sede no amargo abismo imerso.

Tudo isso não vale a terrível miragem
Do que tua saliva corte,
Mergulha na ausência a minha alma sem sorte,
E, carreando a vertigem,
Arrasta-a desfalecida até a margem da morte!

(Charles Baudelaire)

sexta-feira, 29 de março de 2013

Silver Stallion - Highwaymen



"I'm gonna find me a reckless woman
With razorblades and dices in her eyes
Just a touch of sadness in her fingers
Thunder and lighting in her thighs.

And we're gonna ride, we're gonna ride
Ride like the one-eyed jack of diamonds
With the devil close behind,
We're gonna ride."

Sexta-Feira da Paixão

Alguns estão dormindo de tarde,
outros subiram para Petropólis como meninos tristes.
Vou bater à porta do meu amigo,
que tem uma pequena mulher que sorri muito e fala
pouco, como uma japonesa.
Chego meio prosa, sombras no rosto.
Não tenho muitas palavras como pensei.
"Coisa ínfima, quero ficar perto de ti".
Te levo para Avenida Atlântica beber de tarde
e digo: está lindo, mas não sei ser engraçada.
"A crueldade é seu diadema..."
O meu embaraço te deseja, quem não vê?
Consolatriz cheia das vontades.
Caixa de areia com estrelas de papel.
Balanço, muito devagar.
Olhos desencontrados: e se eu disser, te adoro,
e te raptar não sei como dessa aflição de março,
bem que aproveitando maus bocados para sair do
esconderijo num relance?
Conheces a cabra-cega dos corações miseráveis?
Beware: Esta compaixão é
paixão.

(A.C. César)

quinta-feira, 28 de março de 2013

Poema XIV

Vou moer teu cérebro, vou retalhar tuas
                        coxas imberbes & brancas.
            Vou dilapidar a riqueza de tua
                    adolescência. vou queimar teus
                    olhos com ferro em brasa.
                  vou incinerar teu coração de carne &
                                   de tuas cinzas vou fabricar a
                                   substância enlouquecida das
                                              cartas de amor.

(Roberto Piva)

sábado, 16 de março de 2013

Caspar-David Friederich, "Monk By The Sea"

"O Mar nunca foi amigo do homem. No máximo, Ele é um cúmplice das inquietações humanas"

                                                                       - Joseph Conrad, "No Coração das Trevas".

Pound

Ezra Pound, fotografado por Man Ray

"Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós."

Trecho de "Envoi (1919)", Ezra Pound.

"Gato Manso"

Vivian Porter, em "Ziegfeld Follies"


É repousante achar-se entre mulheres bonitas.
Por que sempre mentir sobre tais coisas?
Repito:
É repousante palestrar com mulheres bonitas
Ainda que falemos apenas nonsenses.
O ronronar das antenas invisíveis
É ao mesmo tempo estimulante e delicioso.

- Ezra Pound

sexta-feira, 15 de março de 2013

Pra você dormir


Não minta para a chuva, nem se esconda com medo dos trovões.

Não existe mal que seja permanente

ou tristeza que um pequeno delírio não desfaça.

Que certa ideia indesejada grude em sua mente,

isto é compreensível.

Que você prefira que uma dor física sobrepuje as

da alma.

Que você chore escutando canções antigas.

Mas, não grite em desespero, sua dor é muda e

ninguém irá te ouvir.

As cortinas fechadas,

o silêncio na casa,

este luto que guardas,

tudo isso que te impede de dormir.

Toda essa dor foi forjada no fogo do teu peito

e é nele que deves encontrar a paz necessária

para que não temas a tempestade.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Salmo

O certo é que prezamos a destruição.
Qualquer coisa chegando ao fim, eis o que nos interessa.
Fotografamos ruínas e colecionamos imagens de casas enfermas,
desenganadas pelo tempo,
e apreciamos o turismo por vilarejos decadentes,
prestes a sumir do mapa.
A imagem do velho edifício implodido nos mantêm cativos
diante da TV.
O que move a ferrugem não é mistério para nós:
Conhecemos essa fome - e a respeitamos.
A árvora doente do passeio público nos interessa
mais do que as crianças desaparecidas.
Comovidos, chegamos a abraçar a velha figueira ameaçada,
pretextando solidadriedade.
Mas não somos solidários, não se engane.
Apenas queremos estar por perto na hora final.
O certo é que apreciamos a destruição.
Casais nos falam de crises, da reta final, da beira do precipício.
Ouvimos interessados os pormenores da autópsia conjugal,
queremos saber em que momento
as vísceras do encanto deixaram de cumprir o seu papel,
queremos conhecer tudo que fez do desejo
azinhavre, mancha agônica, bolor.
Existe desamparo maior do que
num velho carro entregue ao pó junto ao meio-fio?
O disco riscado e o livro que perdeu folhas e palavras
são nossos entes queridos.
O amigo que faz aniversário recebe nossos cumprimentos,
pois deu um passo a frente, rumo ao fim.
Vamos a velórios de parentes e conhecidos
com um olho vermelho de consolo, outro verde de curiosidade:
Quem visitaremos inertes da próxima vez?
Amamos o corroído (pontes, trens, viadutos),
o que está prestes a se perder.
Respeitamos o desgastado, o roto,
o que se esfarelou, majestoso.
E esperamos.
Porque algo foi posto em marcha,
está a caminho.

(Marçal Aquino)

segunda-feira, 11 de março de 2013



Fascinação.
É a unica palavra em que consigo pensar para exprimir o estado
De admiração em que me colocas
O torpor sentido ao te ver caminhar, a profundidade dos teus olhos.
É fascinação essa saciedade,
Esse contentamento
E esse violenta e inexprimível sensação de querer.
Que eu guardo enquanto te aguardo.

sábado, 9 de março de 2013

Uma Prostituta Chamada Esperanza

Há putas que te dão tudo aquilo que você precisa e pelo que pagou, são as que te satisfazem. E existem aquelas que não te dão tudo aquilo que você quer. Estas te aprisionam para sempre. Não é todo dia que se encontra uma, mas elas existem. Não era todo dia que eu encontrava Esperanza, mas sabia que ela estava lá. Ela e seus olhos, duas amêndoas mexicanas pelas quais eu mataria, mas o único ferido nesta história fui eu. É isso, Esperanza conhecia os caminhos para me ferir. Eu lhe dei tudo e agora não sou nada. Ela me deixou, e eu apenas especulo se algum dia realmente estive com ela. Ela me deixou, e eu vejo seus olhos refletidos nos espelhos dos banheiros mais ordinários. Ela me deixou, mas eu encontro um pouco dela nas sombras de meio-dia, nas variações da tonalidade de sua voz. Ela me deixou e eu a procuro nos locais mais impossíveis. Ela me deixou, e ela  era meu norte, meu ponto de equilíbrio, minha zona de conforto, minhas vestes de escoteiro, minha estação de rádio favorita, a assinatura de meu crime, minha divindade pagã a quem eu me oferecia em sacrifício. Esperanza, e suas mentiras. Esperanza, e seus lábios cortados e doces. Esperanza, e a maneira única como ela me tocava. Esperanza em meus sonhos. Subtraindo minhas certezas, ela nunca aparece por completo. Eu subi aquelas escadas, olhei nos olhos de todas as garotas e apenas em Esperanza eu contemplei a possibilidade de um milagre.

I Let Love In



"Despair and Deception, Love's ugly twins
Came a-knockin' on my door, I let them in
Darling, you're the punishment for all my former sins
I Let Love in."

quinta-feira, 7 de março de 2013

Manhã de Sol com Azulejos

TUDO SE VESTE DA COR DE TEU VESTIDO AZUL

tudo - menos a dona do vestido:

meus olhos te passeiam nua

pela grama do campo de golfe


Uma curva e ei-nos diante do meu coração


Não amiga,

não temas; 

meu coração é apenas um chapéu surrado

que humildemente 

estendo

pra colher um pouco da tua graça distraída

de teu dia 

(Francisco Alvim)

segunda-feira, 4 de março de 2013

Longing For


"Longing for".

Hsin Yao-Tseng

O que ela tem em mãos
São só algumas linhas que não dizem nada sobre ela.
Algumas linhas, uma marca de nascimento,
Um pedaço do meu coração
E a profana habilidade de fazer de mim o que quiser.

sábado, 2 de março de 2013

"A Morte está diante de mim hoje:
Como a recuperação de um homem doente,
como ir para um jardim após a doença.

A Morte está diante de mim hoje:
Como o odor de mirra,
como sentar-se sob uma vela num bom vento.

A Morte está diante de mim hoje:
Como o curso de um rio, como a volta de um homem
da galera para sua casa.

A Morte está diante de mim hoje:
Como o lar que um homem anseia por ver,
após anos passados como um cativo."


sábado, 23 de fevereiro de 2013

Into My Arms



"Eu não acredito em um Deus intervencionista
Mas eu sei, querida, que você acredita.
Mas, se eu acreditasse eu me ajoelharia e o pediria
Para não intervir quando você vem até mim.
Para não tocar um fio de cabelo em sua cabeça,
Para deixá-la como você é.
E se Ele sentisse que ele precisasse direciona-la,
Te direcionasse para os meus braços"

"E eu não acredito na existência de anjos.
Mas, olhando para você, eu questiono se isso é verdade.
Mas, se eu acreditasse, eu os convocaria todos,
E pediria a eles para olharem por você.
Para que cada um acendesse uma vela por você
Para iluminar e clarear seu caminho
Para caminhar, como Cristo, em graça e amor
E guiar-te para os meus braços".

"Mas eu acredito no amor
E eu sei que você acredita também.
E eu acredito em algum tipo de caminho
Que nós podemos atravessar, eu e você.
Então mantenham suas velas acesas,
E faça sua jornada brilhante e pura,
Que ela permaneça voltando
Sempre e cada vez mais,
Para os meus braços".


"Tuberose" - Christine Wu

Amor Brando



Se aproxime de mim um pouco; mas não tanto,
A ponto de eu sentir sua falta quando você for embora";

Karina Buhr - "Amor Brando".

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Incorrigível

Eu não escrevo mais poemas.
Meus dedos se petrificaram e agora só talham
frias descrições de fatos
sem cheiro nem sabor,
apenas tecem um trabalho rude e contam
um metal que, vamos lá, nem é tão vil assim,
se pagam meus cigarros, minha bebida.
Eu não escrevo mais poemas.
Se ainda escrevo em versos, é por força do hábito,
esse inimigo invisível, essa lira proustiana,
que faz com que o abandono do que quer que seja,
por pior que seja, seja sempre dolorido;
Não há mudança que não implique num certo
sentimento de perda, isso é sabido.
Se anoto o endereço que me dão por telefone,
ele sai em versos.
Se escrevo um bilhete para a guria triste de cabelos cacheados
No outro lado do bar, ele sai em versos;
Ontem mesmo escrevi um e-mail de trabalho, e era assim:

"A reunião pode ser às 15.
Quanto mais cedo,
Menos triste"

Está certo ser assim, tão incorrigível?

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Mudanças (III)

Que ninguém me tome pela minha sombra. Nem olhe em meus olhos pensando estar vendo meu coração. Não especule sobre minha mente antes de conhecer minhas entranhas. Não se espante se meu corpo quente guardar uma alma gelada, e nem se descobrir que a unica lágrima que eu derramar for de raiva. Tanta vida e tão pouco corpo, tão pouco tempo, tão poucas escolhas. O sangue pulsa, o tempo absorve, as lágrimas secam e a vida... a vida se nutre disso tudo, se expandindo e se contraindo sem esperar que eu a entenda ou me prepare. Mas, não é assim com todo mundo? Milagres acontecem. Mas não se pode contar com eles. A vida é uma guerra e minha mente o primeiro campo de batalha. E eu, tão avesso a combates, tive que aprender a lidar com exércitos levantando cerco contra a fortaleza em que transformei meu coração. Tudo, eu disse, tudo em vão. E agora, me forço a um recuo estratégico, para reagrupar minhas tropas e preparar minha ofensiva. Noites de amor, dias de guerra.
"Não quero ficar dando adeus
Às coisas passando.
Eu quero é passar com elas
E não deixar nada mais do que as cinzas de um cigarro.
E a marca de um abraço no seu corpo.
Não, não sou eu quem vai ficar no porto chorando
Lamentando o eterno movimento dos barcos..."

Jards Macalé, "O Movimento dos Barcos".

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Mudanças (II)



"So the days float through my eyes
But still the days seem the same
And these children that you spit on
As they try to change their world
Are immune to your consultations
They're quite aware of what they're going through"

Red Flowers in Golden Autumn

Zhang Jing-Sheng

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Mudanças (I)

"Todas as mudanças, mesmo as mais desejadas, têm sua melancolia.
Pois o que deixamos pra trás, é uma parte de nós mesmos.
Devemos morrer para uma vida antes de podermos entrar em uma outra"

Anatole France

Mal Secreto




"Não choro. Meu segredo é que sou rapaz esforçado.
Fico parado, calado, quieto.
Não morro, não choro, não converso.
E passado meu medo,
Mascaro minha dor, já sei sofrer.
Não preciso de gente que me oriente".

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

                                      "Outside the Studio", Hsin-Yao Tseng


"E é tudo tão covarde: Deixar morrer as chances por medo que barcos de papel não suportem as cargas clandestinas que fingimos não acumular com o tempo e é tudo tão impossível que ateamos fogo nos remos."


Farta-te

Foi num entardecer qualquer, numa praia vazia.
Com os olhos marejados e
Segurando minha mão, ela me contou
Que seus lábios fartos
Estavam fartos da pronúncia seca
De palavras outrora sacras.
Ela disse 'eu te amo' mais uma vez,
E aquela seria a última.

Foi então que eu disse 'farta-te
Esgote a vida que há em meu corpo
Que de nada serve se não alimentar o teu'.
Entreguei-me como quem se dá em sacrifício,
Como quem prova do próprio veneno,
Como o vampiro que fica ao lado da amada até que
O primeiro raio de sol venha para despertá-la de sonhos ruins e
Transformar o amor dele em cinzas.



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Foi Na Cruz



Para os católicos, a Quaresma marcava o período de 40 dias que deveriam ser guardados à reflexão, elevação espiritual e penitência, que termina na festa da Páscoa, uma celebração de Renascimento. Os clérigos instruíam os fiéis a meditar, durante a Quaresma, sobre os ensinamentos do Evangelho e o quanto suas vidas se assemelhavam com o que era recomendado pelos textos sagrados. Talvez seja uma das unicas coisas na simbologia cristã que me sempre me cativou. Toda a liturgia envolvendo a semana santa, cerimônia de lava pés, as penitências, o jejum, tudo. E justamente agora, quando mais uma onda de confusão, introspecção e pedidos de socorro não feitos me invade, inicia-se a Quaresma. Estou decidido a me dedicar nos próximos dias a uma espécie de Quaresma particular. Me livrar de antigas vestes. Observar mais de perto meus hábitos e arrancar aqueles que tem me impedido de gozar a plenitude de minha vida. Vou me dedicar apenas àquilo que sempre julguei essencial para mim e eliminar as superficialidades. Uma série de penitências e privações serão observadas para que isto aconteça. Para que eu possa renascer, das cinzas se for preciso.

Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas,
que já tem a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia, e,
se não ousarmos faze-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos.

Fernando Pessoa

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Um dia esse inverno teria de acabar

Photo por Maíra Martins

Foi no inverno do ano de 2004, eu não me recordo direito nem o mês nem o dia. Na tentativa de viver, eu na verdade joguei uma vida inteira fora. Acordei um dia nos braços do acaso, confundi-o com o abraço da virtude e desde então nunca mais retornei de uma vida errante que oscila entre a fortuna e os revezes mudando de direção a cada lance de dados.
Ou teria sido no verão de 2000? Não bastasse o calor que não me deixava pensar direito, ainda diziam que seria o fim do mundo. E eu sempre pensei como seria fazer 18 anos em plena virada de década, século, milênio... 
Mas e o outono de 99? Eu ainda tinha grandes expectativas nesta época, e nenhuma delas tinha relação com fazer tudo o que fiz depois. Talvez tenha sido ali que eu tenha sepultado minhas vontades e desejos mais genuínos, inebriado pelo cheiro dos cabelos dela e pela droga que inalávamos. 
Mas olha, eu só estou escrevendo isso, pra eu te dizer que eu encontrei. Achei tudo que eu havia dito. Tenho lentamente recobrado minha alegria de viver. Lembrei de tudo aquilo que queria. E ao contrário dessas pessoas covardes que olham para o passado e se acham velhas demais para o antigo entusiasmo, eu só consigo pensar que a melhor hora pra conseguir tudo é agora. Talvez antes eu não estivesse preparado. Agora estou. 
Such a nice evening. 
Estou pronto para uma primavera de amor.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Bilhete Anônimo Nº5

Não mexam aqui. Uma dor, quando mexida, vira qualquer coisa entre a sombra e o desespero. Uma dor quieta fica bege. Deixem-me amuada nesse canto onde vezemquando bate uma brisa, onde posso ouvir os amigo gargalhando, onde escuto ainda o eco de uma promessa contrabandeada às pressas na fronteira intangível dos sentidos.

Luana Vignon, Aqui.

As Sombras (I)

          "O Sono da Razão Produz Monstros" - Goya.

As trevas que preenchem minha mente guarda faces ou vozes que eu não quero ver, e eu sei que eu não posso ficar a sós com elas. E é por isso que todas as noites busco um alívio para esse espírito torturado, para estes suplícios auto-inflingidos e para  a redenção deste corpo condenado no tribunal da memória. O bálsamo que tem me servido de consolo para as trágicas horas noturnas, entretanto, também faz despertar o que há muito havia adormecido. Ele alivia as dores do corpo abre frestas nos umbrais da Razão, assim permitindo que os monstros entrem. Não me sinto triste, mas sei também que ficar na triste não seria o pior que poderia me acontecer quando em minha cabeça fica apenas a imagem de pregos, cruzes e um saco de moedas.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Jesus Almost Got Me



"Love is cruel.
Love is truly absurd;
Jesus almost got me,
I don't know how many prayers he overhead".

Anita Lane.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

" O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem."

                                                                                      Guimarães Rosa.

- Agora sim, alguém lúcido.

domingo, 27 de janeiro de 2013

"O amor, quando em excesso, não traz ao homem nem honra, nem mérito".

                                                                                              Eurípedes.

Quanta bobagem, eu digo.

sábado, 26 de janeiro de 2013


Eu estou tão cansado de fazer coisas sozinho. Não é exatamente uma lamentação, mas uma constatação. Senti isso esses dias. Ok, passei minha vida inteira assim. Até gostava. Pra falar a verdade, não foram poucas as vezes em que me peguei me jactando disso, como se eu não precisasse de outras pessoas para me divertir, para aprender e tudo o mais. E agora, depois de passar um ano praticamente vendo filmes só, indo a bares, lugares, caminhadas, tudo, sozinho, me vejo cansado. Isso me leva a uma época de minha vida do qual não guardo mais boas lembranças. E vejo pessoas que lidam muito bem com esse tipo específico de solidão. Elas vão pra lá e pra cá, solitárias, evitando aqueles programas que precisem de mais pessoas. Mas, na verdade, elas estão à espera de sua “alma gêmea”, com quem elas sairão sempre, para todo e qualquer lugar, felizes. A solidão delas é diferente. É uma solidão em modo “stand by”. Tem data para acabar, apesar de esta ser indefinida. Não sou eu. Eu me cansei de minha solidão planejada. Saio e fico apenas observando aqueles que desfrutam da companhia de várias pessoas. Lembro-me de minha infância sozinho em casa por períodos longos e longos. Das noites em claro vendo a programação de madrugada na TV. É claro que isso influenciou muito do que sou hoje. Não é tarde demais para mudar isso. Eu apenas não sei se tenho as ferramentas necessárias.

Observando Alice

Alice desperta,
É manhã.
Ela está bocejando
Enquanto caminha pelo quarto.
Seu cabelo cai sobre seu peito
Ela está nua e é junho.

Parada em frente à janela
Eu me pergunto se ela sabe que posso ver.
Observar Alice se levantar ano após ano
Em seu palácio, ela está cativa lá.

O corpo de Alice
É de um marrom dourado.
Seu cabelo pende
Enquanto ela o escova cem vezes.
Primeiro ela veste suas meias,
E então os sinos da igreja soam.
Alice se põe em seu uniforme
Os zippers ficam ao lado.
Observar Alice se vestir em seu quarto.
É tão triste. É cruel.

Observar Alice se vestir em seu quarto.
É tão triste. É cruel.

"Watching Alice". Nick Cave.
Do Disco "Tender Prey".

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Obra-prima



Messi já é melhor que Maradona, mas ele nunca será maior que Maradona.
maradona aproxima o futebol do Rock, do perigo (lembre-se de "Gimme Danger", dos Stooges), Messi da Bossa Nova, da beleza previsível. A beleza simétrica de suas jogadas encanta a todos, mesmo a mim. Mas, será sempre menor que a beleza nascida do pecado.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Que saudade disso aqui



De quê? Da inocência sacrificada neste altar sujo. Da libertinagem apenas sugerida nas entrelinhas (da musica ou dos olhares). Do desejo sem as correntes do pudor. Just one gig, nada mais.

Olhando o Calendário



Há algum tempo, a vida era sombra;
Ontem você apareceu e fez-se luz sobre a escuridão;
Hoje você se foi e as trevas voltaram;
Mas agora eu posso olhar para elas com carinho:
31 de julho ou 28 de maio e tanto faz,
eu já não me sinto sozinho.
Amanhã eu farei destas lembranças
Um calendário sentimental com teu nome marcando cada um dos meses.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Quando o Amor Não Começa ou Acaba

Lá vai ele, desavisado, distraído e soturno, fingidor de todas as mazelas que ele insiste em demonstrar num exercicío óbvio de distanciamento de tudo aquilo que realmente importa. Observando com desatenção os quadros que ele mesmo pendurou nos infindáveis salões da memória, ele se pergunta qual deles retrataria o amor que nunca teve. A caminhada é longa se você não possui companhia, mas isso não significa que não existam caminhos que precisem ser trilhados sozinho: Você apenas vai. Seu coração foi forjado em meio às chamas do desejo, os espinhos do amor e o medo da morte, sempre foi assim. Então não há porque acreditar que esta será sua última parada, há de surgir uma força maior em você depois de tudo. Se o engano faz parte do aprendizado, não é preciso ter vergonha de não ter percebido quando o amor se aproximou daquilo que antes era fumaça, ou mesmo por não ter deixado ele entrar quando este bateu em sua porta. O amor é um visitante que chega sem fazer barulho mas que causa alvoroço na partida. Quando o amor não começa, então, você se sente um estrangeiro em uma terra desconhecida, mas nós não deveríamos ansiar por sua chegada. Prestando atenção apenas nas placas mais brilhantes, nós deixamos passar os sinais enferrujados que encontramos no caminho e que indicam direções mais sutis para nossos corações.

sábado, 12 de janeiro de 2013

The Loop Closes



Instigante.

Nada Disso Importa


Éramos nada.
Ainda assim, éramos vida.
Éramos como o grito que irrompe no silêncio,
O relâmpago que interrompe a escuridão,
Como a bala que atravessa a carne, como o pesadelo que corrompe o sono;
Ou talvez, fossemos a palavra que destrói o tédio,
A tempestade que devasta a calmaria.
Nosso amor era nada, era silêncio,
Escuridão, carne, sono, tédio e calmaria,
Uma ponte sobre as águas turbulentas que éramos nós.

Um Sonho



Havia essa sala de paredes pintas de amarelo, e haviam estrelas negras desenhadas num teto amarelo. pendurados no teto através de arames farpados, relógios despertadores de vários tamanhos e cores, mas seus ponteiros estavam parados. Não havia porta, mas eu não estava realmente preocupado. Parecia um bom lugar para eu deitar e continuar lendo meu livro (cujo título não me lembro). Acontece que de repente eu fui tomado pelo medo de que os despertadores pudessem começar a soar em uníssono. Não demorou e esse medo transformou-se em um pânico aterrador. Eu chutava as paredes tentando abrir um buraco, gritava por socorro e tudo parecia em vão. Pensei então em destruir os despertadores, mas um medo ainda maior me tomou e não fiz isso. E se precisasse deles algum dia? Poderia destruir todos e deixar apenas um e destruir o restante, mas eu não sabia qual funcionaria. Deitei sobre a cama e tentei me acalmar, mas era impossível. Resolvia novamente quebrá-los, mas percebi que nem conseguia mais me aproximar deles. E isso foi se repetindo, repetindo, deitava, levantava, caminhava por entre aqueles imponentes símbolos de horror e meu pânico crescia. Abri o livro, li alguma linhas e fechei. Recordei o quão racional eu era e decidi que deveria examinar melhor minha situação. Decidi que meu pânico vinha da incerteza sobre se os relógios soariam seus alarmes ou não. Eu sabia como acabar com aquela angustia. Dei corda em todos eles, e programei seus alarmes, analógicos e digitais para o mesmo horário. Eu sabia que enlouqueceria quando essa hora finalmente chegasse, mas agora eu poderia desfrutar de alguns momentos de tranquilidade antes disso. Me deitei e busquei dormir, certo da hora fatal, mas, em paz até lá.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Ainda Assim, Volto




"When I look at you/oh, I don't know what's real/for once in a while/you make me laugh. And I'll sleep tomorrow and you won't be long/I won't stand around/Then you took me down/When you walk away. When you say "I do"/Oh, but I don't believe in you/I can't forget it, no."

My Blood Valentine, "When You Sleep"


Volto pois toda esta incerteza me aniquila. Volto pois meu coração sempre se aperta entre os ossos quando fico longe. Volto conhecedor de todas as possíveis consequências de minha volta e ainda assim confuso e fiel, convencido de que você me ressuscitará com um simples sopro seu. E por que não há de ser assim? Crer e agir como se pudesse ser diferente tem me causado mais dano que uma rejeição. Vou saborear cada derrota, cada triste volta pra casa, deitarei só com meus fantasmas, apenas para despertar no dia seguinte com a sensação de sua mão ter tocado a minha durante o sono. E assim eu volto. Volto pra acalmar o grito que há dentro de mim. Volto para contemplar o céu e o inferno juntos em seus olhos. Volto pela habilidade que tens de, com um sorriso e um pequeno gesto com a mão, tornar-se musa.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Sobre toca-discos e um gosto qualquer seu


Eu (e todos nós) e meus (nossos) pequenos espantos cotidianos, como aquele toca-discos encostado num canto do quarto e que volta a funcionar de repente quando você simplesmente está sem saco pra dormir e fazendo qualquer coisa para que o tempo passe. Foi com este sentimento que encontrei rabiscado em meu antigo caderno de notas uma frase sobre você. Era assim: “e ela chegou flutuando e criou um paraíso dentro do meu inferno”, no meio de umas tantas bobagens que eu já havia esquecido. Mas esta frase, especificamente, não era uma bobagem. Era, continua sendo, muito sério. Mas acho que só agora eu entendo as implicações dela. Como exclamado pelo personagem de Noites Brancas, ninguém precisa de mais do que um minuto inteiro de felicidade para sentir que sua vida valeu a pena. E foi muito mais que um minuto, foram horas e horas que você me entregou! E enquanto eu fumava meu último cigarro da noite na varanda, me perguntava como pude até a pouco tempo querer me livrar do gosto em minha boca que eu acreditava ser amargo porque amarga está minha vida. Neste exato momento, com toda minha atenção voltada apenas para mim, percebi que meus lábios ainda tinham o seu sabor, e é aquele mesmo agridoce que senti na primeira vez em que estivemos realmente juntos. E eu não quero esquecer isso. Não quero perder. O gosto amargo que sobe de meu estômago até a boca por tantas vezes em meu dia nada tem a ver com a lembrança de nossos beijos clandestinos. Não importa se não os tenho mais, não exorcizarei esta lembrança como um cão tocado de dentro da igreja. É minha vida que tem me dado dissabores dos quais não consigo me livrar. Não sou o mesmo que era antes, e como poderia? Acontece que ainda não fiz os ajustes necessários entre quem sou agora e aquela pequena essência da qual sou feito, que ainda persiste dentro de mim. E nem sei se farei um dia. De alguma forma eu tento lidar com este descompasso e a grande descoberta destes dias de total inércia pelos quais passei foi ver que este azedume nada tem a ver com você. Não vou, não posso mentir: My heart still hurts from last night, como diria aquela música bacana. A queda foi dura. Mas eu estou me erguendo, e não preciso esquecer pra isso. Veja só, andei perambulando pela casa de muita gente recentemente e, pode até parecer irônico, não foram poucas aquelas nas quais havia um toca-discos quebrado num canto qualquer.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Do diário de Anaïs Nin

                Cena do filme "Henry & June", de Philip Kaufman


"Pela primeira vez sei o que é comer. Ganhei 2 Kg. Fico desesperadamente faminta, e a comida que como me dá um prazer duradouro. Nunca comi dessa maneira profunda e carnal. Só tenho três desejos agora, comer, dormir e foder. Os cabarés me excitam. Quero ouvir música roca, ver rostos, roçar-me em corpos, beber um Benedictine ardente. Belas mulheres e homens atraentes provocam desejos em mim. Quero dançar. Quero drogas. Quero conhecer pessoas perversas, ser íntima delas. Nunca olho para pessoas inocentes. Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela. Henry não me dá tudo isso. Eu despertei o seu amor. Ele sabe foder como ninguém, mas eu quero mais do que isso. Eu vou para o inferno, para o inferno, para o inferno. Selvagem, selvagem, selvagem".


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Eu não preciso de nada que me distraia esta manhã
Nada pra me fazer rir, também;
Tenho gargalhado o bastante nos últimos dias,
Risadas demais pra alguém a beira do abismo e
Que tem sonhado todas as noites com o fundo do mar.

O que precisava hoje era tão somente de uma boa notícia,
Uma notícia que fosse para mim.
Uma boa notícia, uma surpresa ou um convite;
Era tudo que eu precisava para iluminar esta manhã,
Porque do sol que brilha lá fora eu já estou farto.

Já disse que aquilo que preciso esta manhã é uma surpresa:
Uma carta num envelope enfeitado chegando pelos correios,
Escutar na rua uma música perdida em minha lembrança,
Ou você, telefonando pra dizer que já vem.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Jorge Luis Borges

Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de um certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Blue Moon


"Blue Moon, you saw me standing alone, without a dream in my heart, without a love of my own"...

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Vai Passar

Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituímos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.
Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessado não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de "uma ausência". E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.
Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça. Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa. Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
- ... mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca...

(Caio Fernando Abreu)

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Munch - Cigarro aceso;

Olho pra este quadro e não sei o que nele me passa essa sensação de terror. Me parece que a fumaça que sai do cigarro se espalha pelo quadro e o homem que o segura é apenas uma imagem materializada dessa fumaça. E sua expressão é grave, como se soubesse de algo que nenhum de nós sabe, um segredo que ele traz de onde ele veio. Depois percebo que o cigarro não poderia criar o homem e imagino, então, que a fumaça que sai do cigarro aceso por ele está na verdade consumindo-o, aos poucos ele se mistura com a fumaça e vai desaparecendo e é isso que lhe dá essa expressão grave, a consciência de que ele mesmo acendeu a chama de sua extinção iminente, e ele segue resoluto rumo ao fim, me encarando. E eu acho que entendo-o.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Peregrino

“Há uma larga estrada aberta e, querida, eu quero que você saiba: Você pode partir rumo ao sul, ou pode voltar para casa" - Jhonny Cash, "Wide Open Road.

Colocou as coisas na bolsa e saiu no meio da noite. Seria tolo perder esta oportunidade, o caminhão estaria lá, a sua espera, para enfim se atirar à vida larga e improvável que lhe aguardava estrada a frente. Antes de abrir a porta, se deteve por alguns minutos para pensar uma última vez no que estava prestes a fazer. Pensando friamente sobre isso, ele sabia que seria só mais uma oportunidade perdida, se deixasse passar.
Não poderia nem dizer que seria a maior delas. Ele já deixou passar chances maiores de dar vida a alguns de seus sonhos e não foi por medo, não foi conformismo, nem o cálculo sobre os custos, foi apenas o hábito de permanecer e dar uma chance a mais a todos os destroços, escombros e sombras que ele chamava imprudentemente de vida. Imprudência, imaturidade ou miopia, tanto faz, ele se acostumou a ver aquele emaranhado de erros e acertos como o substrato de tudo do que ele é feito, como uma colcha de retalhos que, ainda que feia, aquece. Acontece que agora essa colcha está cheia de buracos feitos pelos ratos da rotina e da solidão e deixa o frio entrar quando a noite vem, e algo sopra no seu ouvido que ele pode partir, que não é nenhum crime escapar. E assim ele foi, hesitante mas certo de que nesta vida se deve chegar a algum lugar, pelos meios que estiverem disponíveis. Seus únicos sapatos, já gastos, velhos companheiros de empreitadas abortadas em seus estágios iniciais, amigos que não o abandonaram, estão com ele enquanto ele encara o vento frio, os uivos de cães invisíveis e as incertezas, suas incertezas que assombram feito um raio lunar entrando pela janela e iluminando sombriamente o corredor de um casarão antigo. Entoou suas preces, que ele sempre fazia apenas para o caso de que exista algo que possa escutá-lo numa noite assim tão escura, e pensou nos passos que levaram pra longe seus amigos e tantos outros que estavam sempre se deslocando: Pensou no herói de Reinaldo Arenas perambulando de México a Cuba, em Kerouac pedindo carona em algum ponto da 66, São Francisco de Assis despojado de seus pertences caminhando ao lado de animais, Thoreau perdido em algum bosque perdido no tempo, Buda sendo ele mesmo perdido em caminhadas e visões e enfim em seu pai em algum vagão de trem rumo ao interior desconhecido. Não impediu que as lágrimas viessem. Não mais. Nunca mais tentaria esconder sua fraqueza, não agora que sabia o quanto era forte. Chegando ao posto de gasolina, por algum motivo não se espantou tanto ao ver aquele caminhão já distante na estrada. Estava alguns minutos atrasado, mas quem é que pode saber quanto tempo se leva para consertar toda uma vida?

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Reconhecimento (mãos também foram feitas para preces e socos)


Estas pernas já estão cambaleantes há algum tempo
Mas isso não é uma justificativa.
Se me ajoelhei, é porque preciso ser salvo.
Às vezes, é preciso ceder,
senão, nenhum milagre acontece.
Faz algum tempo que venho sonhando com milagres;
Nada de extraordinário,
só um milagre menor.
Como um gol aos 48’ do segundo tempo;
Como um disco do Neil Young num sebo empoeirado;
Uma ligação inesperada quando ‘cê tá bêbado de madrugada;
Um bar aberto na noite de natal;
Um milagre tão pequeno e tão insignificante para o mundo
Que ninguém saberá que foi um.
Estas pernas estão cambaleantes e frágeis,
Mas elas aguentam mais alguns rounds.
Quem sabe eu não seja como Cassius Clay
E esteja só esperando que a vida se canse de me dar porradas
Pra enfim reagir?

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

E o que fazer com aquela vontade de cometer alguma besteira pra ir parar em coma só pra ver o quanto você vale?

As trevas de outubro

Eu estou absolutamente envergonhado e arrependido de ter, em algum momento, manifestado o otimismo com o qual outubro normalmente me toma. Ter tornado isso público, dito isso pra algumas pessoas. Nunca um mês começou tão agressivo, enunciador de tantas desgraças pelas quais ainda terei de passar simplesmente porque minha natureza jamais irá mudar.
No dia em que completei 30 anos, eu enterrei a minha avó. E não se trata apenas de sentimentalismo e simbolismo barato. Dói mesmo. Na pior circunstância possível, que eu não vou detalhar aqui. Basta dizer que eu tinha motivos pra acreditar que eu estava lá para começar a ser alguém novo, e o passado me bateu na cara. O mesmo erro continuava sendo cometido. A história é velha, eu sei, mas ela segue em frente. 
Desde então, o passado, esse fantasma, tem me lembrado de tudo isso. Uma semana depois, e eu estou aqui sendo tomado de assalto novamente pelos meus erros. Sempre foi assim. Sempre que tentei mudar e fazer de um jeito diferente, meus erros retornam indomáveis e me dizem que eu sou assim e não há nada que possa mudar isso. E eu sofro insistindo em dizer que não, quando, para me sentir melhor, bastaria seguir esse fluxo, essa pulsão inumana que me habita. Foi o mais próximo que cheguei de qualquer coisa parecida com felicidade, foi quando segui esse impulso. O resto é distração. Acontece que essa violência toda cobra caro. Nunca terei uma série de coisas que de todo o coração desejo... e, quando a coisa se torna insuportável, eu decido mudar. E sempre que faço isso, eles retornam. Pra me dizer que não há ponto de retorno, que as cartas já foram jogadas. E eu sinto não ter as forças suficientes pra lutar contra isso. Sozinho, como todos estão. 
Mais uma esperança jogada fora, é hora de retornar ao velho ciclo. Jamais tentarei ser bom novamente.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Beleza Aniquiladora


Quem usou esta expressão pela primeira vez devia estar terrivelmente consciente do que dizia. Pobre homem.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A parte que me cabe (entre clichês)

Esfrie duas xícaras de café
Pensando em mim; apenas em mim;
Acenda um cigarro, deixo-o queimar entre seus dedos,
Enquanto pensa apenas em mim;
Olhe para o canto, disfarce o choro,
Dê bom dia aos passantes e não,
Não deixe de pensar em mim.

Dias bons, dias ruins se alternam e penso em você, só em você.
Você pode até passar por isso um dia com alguém e ainda assim não saberá como é
Voltar para a mesma casa fria de madrugada
Como faço todos os dias, pensando em você.

sábado, 6 de outubro de 2012

Até os 30, cachaça, amor e sorrisos
Me fizeram aguentar o tranco.
Já deu. Daqui pre frente,
o tranco que me aguente.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

There is no Greater Love

Audiência de Amy com produtores da Island... sing, Amy, sing.

Enquanto Houver Olhos Como Os Seus




Enquanto houver olhos como os seus, será sempre dia para mim. E enquanto for dia, nenhum sol além dos teus olhos. O sol pode queimar minha pele, mas a noite gela minha alma e nem sempre foi assim, houve um tempo em que as noites eram minhas, amigas, solidárias e acolhedoras, agora não passam de noites escuras que passo em claro esperando para ver seus olhos resplandecerem em meio a tantas cores diurnas, não temo mais o sol (nem a estrela nem teus olhos) quero te ver colorida em suas vestes de leveza e tenho pensado até mesmo em abandonar meus panos pretos e trocá-los por qualquer coisa mais alegre e tudo por causa dos teus olhos, vestidos, mãos e sorrisos. Como se você sempre houvesse existido e, como o sol, só se apagará em milhões de anos, levando consigo tudo o mais que existe, pálido que ficaria o universo sem tua beleza.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Anúncio

Meio que inadvertido respondi àquele anúncio, na incerteza de suas consequências. Talvez procurando um desafio que estivesse à altura do meu tédio, ou talvez apenas eu houvesse desenvolvido uma talento mediúnico inconsciente que me levou ao encontro de um abismo que eu definitivamente não conseguiria transpôr nem com o maior salto do qual minhas pernas seriam capazes. Saltei, fui fundo, gozei, me surpreendi. Agora, depois de caído, festejei a queda. E você continua tão linda. Por que, afinal, deixaste aquele recado na minha caixa de e-mails: "procura-se um amor marceneiro capaz de reformar um coração destruído"?

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Outubro

Outubro sempre chega. Atenuando a dor por amigos ausentes, amores perdidos, ofensas não vingadas. Inocentando a todos nós perante os tribunais da memória. Dando a seus filhos mais uma chance, é pegar ou largar. Outubro sempre chega, com a primavera cantando.

domingo, 30 de setembro de 2012

Cartas


O que aconteceu com aquele cara que escrevia cartas? Afogou-se num mar de comprimidos para dormir numa madrugada qualquer? Descobriu o pote de ouro no fim do arco-íris e foi, enfim, ser feliz? Acordou numa manhã de sonhos intranquilos e se viu metamorfoseado em outra pessoa? Bom, ele desapareceu, não se veem mais cartas assinadas com seu nome, viajando clandestinamente. Alguém irá notar que suas cartas desapareceram? É uma possibilidade, mas, esteja onde estiver, ele dorme sonhando que em alguma gaveta repousa uma de suas missivas, que quando abertas deixam escapar uma música do My Blood Valentine.

domingo, 9 de setembro de 2012

Joana a Contragosto



"O amor, para mim, ainda era o mesmo ônibus errado. Desde o Aterro do Flamengo até parar no Leblon, sem que eu me desse conta que Copacabana ficava no meio do caminho. Se antes de Joana já era difícil entender o itinerário ou "meu lugar nesse mundo", depois dela e de seus abismos, que não passavam de córregos estreitos,e  da loucurinha controlada com antidepressivos violentos, dos filhos matados no dia seguinte e até da beleza disfarçada em tragédia, e por isso mesmo mais bela, mais trágica, enfim, se antes dela e de todo esse pacote de novidades e cemitérios já me era difícil atravessar as ruas e dar bom-dia ao porteiro do meu prédio, depois de Joana perdi completamente o senso de navegação, e também o pouco daquilo que chamam por aí de "si mesmo" ou do sujeito que (antes, antes dessa mulher...) se achava apesar da confusão".

M. Mirisola.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Sangue Latino

"Rompi tratados,
Traí os ritos.
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo.
E o que me importa é não estar vencido."

É o que mais importa. O resto é sombra.

domingo, 26 de agosto de 2012

Sobre auto-detratação, Tribunais e Inércia

Já me perguntaram mais de uma vez porque eu falo tão mal de mim mesmo e porque me tenho em tão baixa conta. E eu nunca soube direito o que responder. E então só dizia "porque é verdade" ou "não sei, mas não vou fazer mais isso". Mas nunca parei. Nem uma trégua. Sempre me proponho tréguas, mas o cessar-fogo dura apenas até o primeiro gole de conhaque. Mas já tem algum tempo que ninguém me pergunta mais isso. E faz sentido, a coisa se desgasta, as pessoas se cansam de perguntar a mesma coisa. E eu sempre sinto que devia estar dando uma resposta diferente, dar-lhes alguma coisa mais palpável, mais observável, mais sensata, enfim. Mas não isso seria honesto de minha parte, e eu tô cheio de mentiras. Mas numa dessas madrugadas de sábado sozinho, me perguntando qual, afinal de contas, é o meu problema, cheguei a uma resposta que, se não é de todo sincera (mas nenhuma seria mesmo), ao menos não é uma completa mentira. O fato é que todo mundo devia ter alguém para explicitar os seus defeitos, vícios e desvantagens. É por isso que existem os bullyies nas escolas, as pessoas de humor negro, os bêbados e os loucos que perderam suas respectivas noções de sociabilidade  e cordialidade. Na falta de quem fale mal de mim, eu me encarrego do serviço sujo. Mas daria muito trabalho ofender a mim mesmo e depois me defender de mim. E me defender é algo que muitos tentaram, mas eu não facilito o trabalho de ninguém. É difícil ser promotoria, defesa e réu no mesmo processo. E neste tribunal não há um júri de meus pares. Eu não tenho par.


                                               *************

O princípio da inércia postula que um corpo tende a manter seu estado de movimento, e se não sofrer a força de nenhuma ação ou de forças de ação que se anulem, ele consegue. Isso significa que se estiver parado, ele permanecerá parado, e se estiver em movimento, ele seguirá assim. O uso comum do termo leva as pessoas a associarem essa lei da física à paralisia, mas esta é só uma de suas propriedades. Um corpo pode continuar se movimentando, por inércia. Bom, o motivo de eu estar relembrando a primeira lei de Newton é o seguinte: Me descobri, como quem tem uma súbita revelação, uma visão, pra ser mais fiel ao que me aconteceu, inapelavelmente inerte. Agindo simplesmente porque não havia força alguma para me parar, assim como não havia nenhuma para me mover mais rápido. Seguindo o fluxo de uma estrada que não era a minha. E o único sintoma era o sentimento de esvaziamento, uma incapacidade de sentir os prazeres normais de qualquer pessoa, de deixar que meu pior lado fosse responsável pelo que eu sentia, nutria, amava. Matei muita coisa que sempre me foi cara. Deixei que coisas que não deveriam ter acontecido ocorrerem. Me perdi, no pior sentido do verbo. E foi só agora, quando este sentimento ganhou contornos físicos, com um rosto, uma voz e um nome, eu me vi desperto e, pela primeira vez, reduzindo a velocidade. E percebi que eu não estava sequer no controle. E senti, bem lá no fundo do peito, um desejo de mudar de direção. E só de pensar nisso, eu sorri sozinho, como não fazia há muito tempo, não sóbrio. Pode não significar muito pra ninguém, mas significa pra mim. Hora de mudar não apenas o valor da Força que age sobre mim, mas a direção vetorial. Hora de experimentar o efeito de outra lei, a da gravidade. Porque sou um corpo dotado de massa, e meu peso há de aumentar com a aceleração. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012



"Se você não ficar de pé por alguma coisa, você cairá por qualquer coisa".


"Olhar a vida de frente. Sempre, olhar a vida de frente. Conhecê-la pelo que ela é. Finalmente conhecê-la. Amá-la pelo que ela é. E então, descartá-la".


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Um Mundo de Desassossego


Um passo em direção à varanda, e a paz acaba.

Do lado de fora, o mundo sorri,

Diabólico;

A natureza me é estranhamente familiar

E as pessoas pequenos pedaços de absurdo;

Da varanda, eu contemplo o espetáculo de suas misérias

E meu cigarro no filtro

É uma metáfora pobre do fim que chegará para todos,

Inclusive para mim.

Antes que a morte me alcance, porém,

Tenho que lidar com todo esse desassossego

Dentro de minha alma,

Meus maus hábitos e minha calma insana.

Não existe tranquilidade para um coração

Inchado como a lua cheia;

Paz, ela só existe dentro de minha casa,

Da porta pra dentro,

De meu corpo pra fora.

domingo, 12 de agosto de 2012

Don't Let me Be Misunderstood

- Mário Bortolotto.

(O poema que eu citei no post anterior).

A tarde que parece inatingível
Meu suspirar nervoso e quase insolente
Quando a cozinha é quase um pântano
Quando o coração ameaça explodir no peito
Quando seu nível de apreensão te levar a completa exaustão
Quando você brinca com frisbees pra passar o tempo
Quando o tempo ameaça não passar
Quando a música te levar para um canto escuro atrás da cortina
Quando toda tristeza derrubar sua porta
E não há como dormir, não há como fugir
Quando saio na noite incendiando bares
Quando volto pra casa com a alma atormentada
me sentindo o mais solitário e infeliz dos caras

Você saindo de dentro de um temporal
com o sorriso mais bonito do mundo.

                                     


Que algumas coisas têm que ficar para trás para que outras novas possam chegar e ocupar o lugar delas, é algo que eu já aprendi tem tempo. Conheço bem estes ciclos em que uma parte que você considerava imprescindível de tua vida te abandona ou precisa ser abandonada, por mais que doa. Não que seja fácil ou indolor, mas tenho algum know-how neste tema. Desde sempre. Algumas pessoas próximas chegam a nem me reconhecer mais quando isso acontece. Mas elas se acostumam, porque depois de um tempo percebem que eu, eu mesmo, não mudei porra nenhuma, afinal, o DNA é o mesmo, sou o mesmo amontoado de células de antes, the modern monkey de sempre; valores e crenças estão aí para serem trocados como roupas. E sim, eu mudo meu guarda-roupa bem de vez em quando. Mas quando mudo, vai tudo embora de uma vez. Quase tudo. E eu sinto que é hora de outra mudança, de forçar o vento a soprar em outra direção mais uma vez. Quando você sente que já não cabe em si mesmo, que uma outra pessoa tem vivido dentro de você, e sente-se alienado de si mesmo, é hora de mudar de novo. Tenho tido comportamentos suspeitos que evidenciam essa necessidade. Meu sentimentalismo barato aprendido com baladas dos anos 80 e poemas de Neruda e Garcia Lorca não vão me salvar agora. Normalmente, sou do tipo que sai da fossa com coisas mínimas, uma chuva no fim da tarde, uma musica que não ouvia há tempos, ou, como naquele poema do Bortolotto, "você, saindo de um temporal, com o sorriso mais bonito do mundo". Todas essas coisas costumam aliviar a pressão, e quando elas não mais o fazem, ou eu mudo os filmes que vejo, lugares por onde ando, ou tudo de uma vez. E sei que tenho acordado todos os dias dizendo pra mim mesmo que odeio o jeito como estou fazendo as coisas, que este não sou eu. Que meu tesão agora é outro e tenho que acabar com a dificuldade de assumir isto. E a hora, creio eu, é de recuperar algumas coisas que deixei para trás. Coisas que posso aproveitar melhor agora, com o benefício da idade, enquanto há tempo. Eu tinha o potencial. Tinha as armas. A vontade. E deixei passar. E talvez não seja tarde pra tentar de novo. Um pouco de foco, ânimo, e talvez algumas drogas, e eu volto à minha melhor forma. Farei isso. E poderei me orgulhar, algum dia, de ter tentado. 

sábado, 11 de agosto de 2012

Cruel Intentions



Placebo - Every You, Every Me
" (...) Tem o braço recurvado sobre a testa, a outra mão apoiada contra o peito, como para comprimir os batimentos de um coração fechado a todas as confidências, oprimido pelo pesado fardo de um segredo eterno. Cansado da vida, envergonhado por caminhar entre seres que não se assemelham a ele, o desespero tomou conta de sua alma, e prossegue sozinho, como o mendigo do valo. (...) De bom grado, fala às vezes com aqueles que têm o temperamento sensível, sem lhes tocar a mão, mantendo-se à distância, no temor de um perigo imaginário. Se lhe perguntam porque tomou a solidão por companhia, seus olhos se elevam para o céu, mal retendo uma lágrima de recriminação contra a Providência; mas ele não responde a essa pergunta imprudente, que espalha pela neve das suas faces o rubor da rosa matutina. Se a conversa se prolonga, inquieta-se, volta os olhos para os quatro pontos cardeais do horizonte, como para tentar fugir da presença de um inimigo invisível que se aproxima, faz um brusco aceno de adeus com a mão, afasta-se sobre as asas do seu pudor despertado e desaparece na floresta. Tomam-no geralmente por louco."

- Lautréamont, "Os Cantos de Maldoror", canto primeiro.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

"Como vivemos desse fiapo de nada!!!"

Do blog do Xico Sá (10/08/2012):

"Basta eu pensar que você pensa em mim. Um segundo já é o bastante.

Tempo líquido em que nada se solidifica, nem o nostálgico amor de pica.

Por um momento pensar que você pensa em mim... só isso interessa".

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Matheus 6, 22-23

"A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz;

Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!".




quarta-feira, 8 de agosto de 2012


Candy Says (The Velvet Underground)



Candy diz:
Cheguei a odiar me corpo
E tudo que ele exige neste mundo.

Candy diz:
Gostaria de saber completamente
Sobre o que os outros tão discretamente conversam.

Eu vou observar os pássaros azuis voarem sobre meus ombros;
Vou observar eles passarem por mim.
Talvez quando eu for mais velho,
O que você acha que eu veria
Se eu pudesse me afastar de mim?

Candy diz, eu odeio os lugares quietos
Que provocam o menor sabor do que virá.
Candy diz, eu odeio as grandes decisões
Que causam infinitas revisões em minha mente.


Eu vou observar os pássaros azuis voarem sobre meus ombros;
Vou observar eles passarem por mim.
Talvez quando eu for mais velho,
O que você acha que eu veria
Se eu pudesse me afastar de mim?


A razão de tudo é eu sair por aí procurando alguma coisa que faça meu sangue ferver. É o motivo pra beber tanto, pra ouvir rock, pra iniciar conversações suspeitas, pra ficar acordado até tarde. Acho que até a razão pra me levantar da cama pela manhã tem a ver com esperar que alguma coisa perigosa aconteça. E nada mais perigoso suas pernas movendo-se com graça por entre os objetos espalhados pela sala. Em sincronia com seus olhares, os movimentos de suas pernas a aproximam de mim como a serpente que hipnotiza. E eu que  me levantei da cama apenas para isso fico indefeso diante de tamanha provocação, nenhuma outra reação diante de teu corpo além de aceitar este convite para o regresso à cama, agora incendiada. Sua boca é meu ponto fraco e seus seios o lugar onde repousa meu desejo, do início ao fim. Todos os dias acordando com a certeza de que és a fonte de todos os meus problemas e ainda assim vou esperar que você chegue com suas sapatilhas mortais, seu toque de Midas, perturbando minha existência com mais um punhado de doces problemas aos quais eu me lanço pretensiosamente a tentar solucionar obsessivo. Você vai pisar em meu coração. E do furo feito pelo teu salto, jorrará um sangue quente feito o inferno.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Caras como eu não deveriam viajar de avião


Quando o avião acelerou na pista, se preparando para a decolagem, eu olhei pela janela e me vi do lado de fora, menino, correndo ao lado dele. O avião arremetendo contra as nuvens me lembrou de mim quando criança, tomando distância da lagoa lá embaixo, correndo, correndo, mais rápido e mais rápido, ganhando velocidade para, a um passo do fim, saltar buscando o céu e finalmente caindo dentro d’água não sem uma pontada de frustração. E desta vez, ao invés de despencar, eu subi. E subi, cada vez mais. E uma vez acima das nuvens, foi inevitável o deslumbramento, a fascinação diante do improvável, mas regada a certa melancolia vinda não sei de onde.  Tudo era tão claro e tão cheio de paz, que contrastava com essa inquietação de espírito que não me abandonava mesmo ali. Eu desejava aquele silêncio do mundo lá fora, a paz do infinito. Era como se, aprisionado dentro de uma gaiola de ferro, eu houvesse sido lançado para fora do espaço e do tempo, tentando cruzar uma barreira há muito esquecida por quem já se habituou a voar, claro, sem asas. Pela primeira vez desempenhava uma viagem e a estrada não estava lá, arrancada de sua nobreza e santidade, não havia nada nas nuvens que lembrassem as rodovias que ligam cidades e corações como artérias de concreto e poeira, e lentamente as nuvens iam assumindo para mim um tom enegrecido, um tipo de deserto particular, um inferno próximo ao céu, uma cor azul de um vazio anômalo, entediante, sinistro até. O céu não te permite visões. Eu estava próximo de meu destino, sem sentir que havia realmente deixado algum lugar, e mesmo quando revolvia meus pensamentos a algo menos terrível, alguma turbulência me trazia de volta do meu caos interior e eu encarava a paz infinita lá de fora, o avião sacudia e sacudia, e eu murmurava para que apenas eu pudesse ouvir: “caia de uma vez, caia, apenas dessa vez, caia, maldição”. Ele não caía, e do meu lado via a senhora olhando para mim com um misto de espanto e reprovação no olhar. Pelo visto eu não murmurei baixo o suficiente. Eu ri, meu primeiro sorriso desde a decolagem. Caras como eu não deveriam viajar de avião. Senti uma saudade enorme do garoto que não decolava e caía n’água, mas ri porque sabia que lá embaixo haveria uma estrada pra mim como há para todo mundo.

A melhor canção de amor já composta?

Leonard Cohen: "One of Us Cannot Be Wrong".




Perfeita.

Deixa eu bagunçar você

Durmo na esperança de sonhar contigo Acordo somente pro desejo de te encontrar Menos que obsessivo, meu amor por você é abrigo ...